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segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

Recursos Tecnológicos e Educação: Plataformas e Ambientes Virtuais de Aprendizagem

No texto de hoje, que tem caráter informativo, o objetivo é explorar alguns recursos tecnológicos disponíveis aos professores, esclarecendo conceitos e estabelecendo diferenças. De posse desse conhecimento, é possível aplicá-lo no contexto educativo.

PLATAFORMAS: AMBIENTES VIRTUAIS DE APRENDIZAGEM

Como o próprio nome registra, AMBIENTES VIRTUAIS DE APRENDIZAGEM são ambientes on-line próprios para o desenvolvimento do processo de aprendizagem. Carinhosamente denominados de AVAS, esses ambientes podem, em geral, ser comparados simbolicamente a salas de aulas ou espaços de aprendizagem, porém virtuais. Nesse espaço, há conteúdos que podem estar dispostos nos mais diferentes formatos: vídeo, textos em pdf, imagens, áudios, animações, e por aí afora, respeitando as especificidades de cada formato.

Simples assim. Da mesa forma como se acessa um site pela internet, via um endereço eletrônico, também é possível acessar um Ambiente Virtual de Aprendizagem inserindo login e senha que personalizam a entrada.


No AVA, o professor publica e armazena conteúdos, que podem servir a uma educação dentro da modalidade totalmente a distância ou híbrida. Em geral, os conteúdos são dispostos de forma enriquecedora, abrindo espaços para a pesquisa e ampliando informações para gerar aprendizagens significativas.

Dentro de um Ambiente Virtual de Aprendizagem, há espaço para o aluno inserir um arquivo de trabalho, tornando-o disponível ao professor, que pode lê-lo e dar seu parecer, além de troca entre alunos e professores (fórum), de alunos entre si (chat) e, em alguns casos, também a presença virtual de um tutor ou monitor, que acompanha o aluno, auxiliando-o em sua jornada rumo à aprendizagem.

Mas, como estou certa de que “a palavra explica, mas o exemplo arrasta”, apresento alguns links que você pode acessar para conhecer alguns demonstrativos de AVAS (DEMOS):

Obs.: O Ambiente Virtual de Aprendizagem tem um módulo administrativo, o Learning Management System (LMS), que é um sistema de gerenciamento da aprendizagem on-line, como se fosse a secretaria de uma escola, porém virtual, por meio do qual o aluno acessa certificados de cursos, notas de avaliações, agenda, além de vários outros serviços que facilitam o acesso à essa parte mais burocrática. O LMS apresenta relatórios e gráficos completos sobre rendimento, frequência, cursos e conteúdos mais acessados, que podem ser gerados considerando turma, aluno, região, município, estado. Em geral, o LMS não fica visível para o aluno, pois não há necessidade disso. Para o aluno, o que interessa de forma prática é o AVA, pois é nesse espaço que ele aprende e por onde a interatividade se concretiza.

PLATAFORMAS ADAPTATIVAS

São, também, Ambientes Virtuais de Aprendizagem, porém com um diferencial fundamental: utilizam softwares inteligentes que funcionam personalizando o ensino, adaptando-o para atender às necessidades específicas e personalizadas do aluno. O funcionamento das plataformas ocorre com o acesso do aluno ao ambiente para realizar um teste de conhecimentos gerais ou específicos, e então o sistema começa a delinear seu perfil. Dali para a frente, cada clique do aluno vai sendo “interpretado” pelo sistema, um processo similar ao dos sistemas de algoritmos utilizados pelo Google. Em linhas gerais, o sistema faz uma espécie de Raio X do aluno e oferece um plano de estudos, com variação de ritmo, tempo e ênfases, fazendo jus à personalização.

As plataformas adaptativas têm sido utilizadas com sucesso em variados contextos, por exemplo, alunos que realizam o Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM) recebem feedback do sistema e orientações quanto a quais conteúdos devem dedicar maior concentração para atingir o objetivo de entrar na universidade e curso desejados.

Para conhecer algumas Plataformas Adaptativas, acesse os links:

http://www.dreambox.com/


sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

Conhecendo a Cabanagem

O Brasil dos anos posteriores à Independência foi marcado pelas várias rebeliões regionais, que deixaram exposta a insatisfação de muitas lideranças locais com os rumos que foram sendo tomados pelo Primeiro Reinado, que certamente não correspondeu a muitas das expectativas criadas durante o pacto que ajudaria a pôr fim ao domínio da coroa portuguesa. O resultado foi um clima de desordem provocado pela falta de confiança no novo regime, que levou a muitos movimentos, quase todos de caráter separatista, que mobilizaram tanto oligarquias regionais, como no caso da Revolução Farroupilha no Sul do país, quanto setores populares, como aconteceria em episódios como a Revolta dos Malês, que chamaria a atenção para a precária situação que atingia a economia agrária e escravocrata do Nordeste brasileiro.
No universo dos muitos conflitos desse período que entrariam para a história do Brasil, um deles se destacaria por vários aspectos específicos e pode-se dizer que não teve ainda reconhecida, no imaginário histórico do país, a sua real dimensão. A Cabanagem se configurou como um conflito singular primeiramente por ter suas raízes na própria contestação da proposta da Independência política do país.
Os paraenses hesitaram em ceder ao movimento da maioria das províncias de apoiar a ascensão de D. Pedro I. Lideranças vinculadas a cidades do interior da então província do Grão-Pará, que incluía todo o atual norte do Brasil e o Maranhão, tinham muito mais em vista a independência a um só tempo de Brasil e de Portugal, o que apenas demonstrava o descontentamento histórico que predominava entre os habitantes da região com relação às decisões nacionais tomadas pelos governos em geral influenciados por grupos instalados no Sudeste. A adesão dos paraenses à Independência só ocorreria um ano depois do Grito do Ipiranga, através de um processo que nem de longe pacificaria o ânimo dos descontentes.
A conta viria quase dez anos depois. As elites locais que consolidaram a adesão do Grão-Pará ao movimento de independência continuaram desfrutando da hegemonia e dos privilégios de descendentes de portugueses que eram. A província não fugia à regra do que acontecia em praticamente todo o Brasil: oligarquias regionais exercendo um mandonismo sem limites e impondo às grandes massas um regime de exploração semiescravista marcado por condições de vida miseráveis. Foi nesse cenário social que líderes de várias cidades paraenses conseguiram cooptar a imensa insatisfação da população espalhada pelas localidades encravadas na Amazônia. Alguns historiadores ressaltam também a importância dos muitos franceses exilados na Guiana Francesa, que teriam ajudado a disseminar pela população ideias libertárias hauridas no pensamento europeu.
Após o levante inicial em 1835, a província explode em movimentos rebeldes que tiveram início a partir de um episódio relativamente prosaico. O cônego João Batista Campos era uma importante liderança de Belém, que vivia em constantes confrontos com membros da oligarquia e do governo. Certo dia o religioso feriu-se no rosto enquanto fazia a barba e, forçado a refugiar-se em outra localidade em virtude de perseguições, acabou tendo uma infecção que acabaria por tirar-lhe a vida. A morte de um líder muito considerado acabaria sendo atribuída à ação de seus opositores e funcionaria como um estopim para a revolta, que logo mobilizaria grandes contingentes de pessoas que viviam espalhadas pela província apenas à espera de condições propícias para a luta.
Assim, a população daquela porção do país, basicamente composta de índios, negros e mestiços de todos os matizes, lançou-se impetuosamente à luta a partir de suas cabanas feitas de barro e palha, com muitas semelhanças com as moradias indígenas, que acabaram dando nome à rebelião. Para se ter uma ideia das condições em que aqueles brasileiros da Amazônia lutaram por melhores condições de vida, basta dizer que as armas que utilizaram eram, com poucas exceções, os mesmos objetos que empregavam em suas lidas diárias no campo, como foices e ancinhos. As mulheres também se engajaram na luta e de um modo geral atuaram fornecendo víveres para os combatentes, se desdobrando para produzir, a partir de mirradas lavouras destinadas a uma economia de subsistência, a farinha seca e a tapioca, base de sua alimentação.
Mesmo com essa precariedade, o movimento cabano foi considerado por muitos historiadores a mais vitoriosa rebelião popular de todo o continente americano. Em nenhuma outra os revoltosos vieram efetivamente a assumir o comando das instituições, como aconteceria no Grão-Pará por um período de quase um ano. Chegou a ser instituída uma moeda própria e legalizado o porte de arma, medida que representaria uma importante mudança da autopercepção dos revoltosos, habituados a viver inermes e indefesos sob as baionetas de jagunços e forças oficiais. Os cabanos também tomaram terras de portugueses e expulsaram da província várias famílias tradicionais que até ali desfrutavam de privilégios.
Mesmo com a aparência de triunfante, a revolução cabana se perderia na falta de entendimento dos líderes quanto aos rumos a serem dados à província. Durante o tempo no comando, os paraenses tiveram três governantes e não chegaram a esboçar um projeto que tornassem bem-sucedidos os imensos esforços da população. Isso permitiu que a reação do governo federal se organizasse e acabasse sendo instituída uma verdadeira carnificina para retomar as terras do Grão-Pará para controle da União. A cabanagem entraria para a história também pela ferocidade da luta e pelas atrocidades cometidas pelos dois lados. Estima-se um total de aproximadamente 35 mil mortes, que banharam de sangue os rios e igapós da Amazônia. Localidades inteiras foram dizimadas e populações ribeirinhas que muitas vezes não tinham nenhum envolvimento com a revolução eram executadas covardemente por jagunços e tropas federais, muitas vezes apenas por serem indígenas ou caboclos. Várias etnias passaram a ser perseguidas. Em várias localidades só sobraram mulheres, crianças e idosos.
Um capítulo à parte na Cabanagem foi a atuação dos índios mundurucu. Muito voltados para atividades guerreiras, os membros dessa etnia eram inimigos históricos de várias tribos espalhadas ao longo do território amazônico. Muitos dos rebeldes eram pertencentes ou descendentes de etnias habituadas a combater os mundurucus, que acabaram sendo cooptados pelas tropas federais e pela antiga oligarquia como meio de enfraquecer os revoltosos e suprir a ausência cada vez maior de combatentes, já que muitos passaram para o lado dos cabanos. No final das contas a atuação dos mundurucus seria decisiva para a queda dos rebelados. A Revolução do Grão-Pará, nesse sentido, foi também uma continuidade das guerras entre etnias indígenas amazônicas.
A Cabanagem entraria para a história oficial como mais um dos muitos movimentos separatistas que ocorreram no Brasil do pós-Independência. Mas na memória dos habitantes do norte do país, em especial do povo paraense, a revolução se tornou um traço do caráter, quase uma tradição. Ainda hoje é evocada uma identidade cabana, sempre pronta a lembrar o ímpeto libertário das províncias do norte, no afã de resistir aos desmandos e lutar pela liberdade e pelo direito à vida. A revolução de certa forma subsiste nos muitos problemas de luta pela terra que ainda hoje mobilizam massas de gente simples em busca de condições dignas de existência. Persiste principalmente no ímpeto contestador e inconformado presente na alma de cada paraense. Cada um deles traz no íntimo um pouco do sangue cabano.

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terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

Transmídia e Educação

NARRATIVA TRANSMÍDIA: CONCEITOS
A Narrativa Transmídia é uma estratégia de comunicação colocada em prática por meio de várias ações de comunicação desenvolvidas para diferentes mídias (digitais ou analógicas), apresentadas sequencial ou simultaneamente. Simplificando, podemos dizer que, ao fazer uso da Transmídia, você escolhe um tema e seleciona diferentes e complementares tópicos sobre ele para serem disponibilizados em diversas mídias, conforme a especificidade de cada uma delas.

TRANSMÍDIA E MULTIPLATAFORMAS
Um mesmo tema, padronizado e apresentado integralmente e igual, multiplicando-se em diferentes plataformas, é uma estratégia multiplataforma, não significa transmídia. Na narrativa transmídia, embora o tema macro, denominado por alguns autores de NAVE-MÃE, seja um, há certa diversificação de tópicos que decorrem do tema macro e que no fim do processo de comunicação, por meio das diferentes mídias, o complementam e até ampliam.

EXEMPLOS DE TRANSMÍDIA
Vamos dar sequência apresentando um exemplo de aplicação do que é transmídia, pois os exemplos costumam dar vida aos conceitos, tornando-os compreensíveis.

Um determinado jogo de futebol será realizado, e a emissora de TV que vai exibir já começa a fazer as chamadas com antecedência, aguçando o desejo de quem gosta de um determinado time. No dia marcado, o jogo é apresentado ao vivo pela TV (Nave-mãe), com a narração do comentarista. Já pelo rádio são transmitidas as notícias de bastidores do mesmo jogo, entrevistas com torcedores, ex-jogadores e técnicos. E, por fim, a pessoa interage via internet, vota, confere substituições, cartões, gols, participa enviando sua opinião e tem acesso aos replays.

Nesse exemplo, publicado por Dennis Altermann (www.midiatismo.com.br), observamos que havia uma história, um tema, uma mensagem, no caso, “O JOGO DE FUTEBOL”.


Houve uma convergência das diferentes mídias (internet, televisão e rádio) para que aquela causa, aquele tema, fosse apresentado e trabalhado pelas diferentes mídias, utilizando-se das especificidades de cada uma delas. Pela televisão, o espectador assistiu e pela internet votou, deu a sua opinião e ainda conferiu cartões, e por fim teve acesso às curiosidades de bastidores pelo rádio.

É preciso destacar que, em plena ERA DIGITAL, estão à disposição diversas plataformas (celular, computadores, videogames, iPhone, iPads, TV digital) comuns aos nativos digitais, que com a sua capacidade interativa acessam conteúdos, vivem experiências e podem compartilhá-las com outros colegas e professores.

Portanto, a transmídia é uma estratégia de comunicação que, além de utilizar diferentes mídias para tratar de um tema e subtemas dele decorrentes, ainda envolve o interlocutor, tornando-o participante ativo do processo de comunicação por meio das diferentes experiências complementares.


A TRANSMÍDIA É UTILIZADA PELA ÁREA DE EDUCAÇÃO?
A transmídia surgiu com a publicidade, que chegou ao Brasil por volta de 2011. É um termo repaginado que significa também “comunicação 360º” ou “comunicação integrada”, mas para a área de educação ainda é uma nomenclatura pouco explorada. Portanto, poderíamos dizer que se configura uma tendência inovadora, que pode ser entendida como uma estratégia metodológica em que professores criam, junto com os alunos, rotas de aprendizagem capazes de proporcionar o desenvolvimento de um multiletramento por meio da articulação das diferentes linguagens dentro do processo de comunicação.

Na prática, é possível indicar diferentes caminhos para que os alunos tenham a oportunidade de acessar diferentes mídias para diferentes nuances de um mesmo tema (rádio, TV digital, livros, internet e todas as possíveis plataformas que se utilizam dessas mídias), atendendo de forma personalizada a fase de aprendizagem e as necessidades de cada aluno.

O papel do professor é fundamental para que essa estratégia metodológica funcione. Ele precisa atuar como um organizador da informação, que aponta diferentes caminhos para o mesmo destino, que trabalha com o aluno a importância de filtrar as informações, ajudando-o a construir a própria compreensão, com significado.

Caberá ao professor desta ERA procurar a parceria de outros profissionais e educadores, para que a sua visão interdisciplinar e multidisciplinar possa ser acrescentada de forma a conduzir os alunos às diferentes mídias, explorando caminhos que tenham como pano de fundo os objetivos de aprendizagem, pautados na pesquisa, com orientação clara e trabalhos em grupo explorando a riqueza das nuances sobre um determinado tema e sua aplicação para a vida deles. E assim o professor vai organizando e dando sentido às atividades educativas, fazendo jus à missão de disponibilizar as formas de acesso ao conhecimento e as possíveis rotas, e não mais ser apenas um transmissor de conteúdo.



sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

O Renascimento e as revoluções científicas

Tela de Giuseppe Bertini (1825 – 1898), em que Galileu demonstra o uso do telescópio.


Se por um lado o Renascentismo trabalhou com o estigma do novo e da reformulação de certas visões, por outro é necessário ter em mente que as fontes nas quais ele se inspira são o mundo da Antiguidade, isto é, anterior ao próprio universo medieval do qual procuram se destacar. Assim, as novas concepções propostas pelos grandes expoentes da Renascença não se originaram diretamente da realidade cultural que viviam, mas foram buscadas na cultura clássica, na referência que acabaria mais imediatamente reconhecida como base da visão de mundo da Europa e do Ocidente: o universo greco-romano.

As origens do que entendemos por Renascentismo podem ser procuradas nos chamados humanistas italianos, que começaram a garimpar em textos e obras do mundo clássico novas maneiras de responder as demandas que se colocavam num mundo cada vez próximo das referências da modernidade e mais distante das visões que se consolidaram nos séculos medievais. Esses pensadores da Itália do século XV levaram para o cenário europeu textos há muito tempo esquecidos, que viriam a ser revitalizados em instituições de prestígio, como a universidade de Florença, onde se estabeleceu também uma cadeira de estudos do grego clássico, a partir da qual era possível estudar e interpretar o pensamento dos antigos.

Essas obras da Antiguidade foram preservadas no império bizantino de onde foram trazidas para a Europa através dos próprios humanistas que viajaram ao Oriente. Também ficaram disponíveis em função de grandes enciclopédias que eruditos romanos produziram sintetizando as obras e criações de autores gregos, sobretudo os que tratavam de assuntos científicos e técnicos como a engenharia e a arquitetura. Esses livros circularam pela Europa medieval e começaram a despertar muito interesse nos humanistas.

Mas talvez as fontes mais importantes do conhecimento da Antiguidade que viria a inspirar o Renascentismo foram aquelas produzidas por estudiosos árabes, que a partir do século VII passaram a dominar importantes áreas do mundo europeu. Portadores das visões de mundo próprias do ambiente islâmico, que buscaram expandir nos locais onde se estabeleceram, esses intelectuais seriam responsáveis por uma contribuição fundamental, principalmente porque, ao contrário dos romanos, que se limitaram a compilar obras gregas, os árabes se aplicaram a estudar criticamente o conteúdo dos textos que encontraram nas bibliotecas bizantinas e da própria Europa. Os comentários de obras filosóficas que produziram se tornariam um material extremamente rico, que ficaria guardado em instituições voltadas para a difusão cultural ao longo das possessões árabes, como a biblioteca de Córdoba, por exemplo, um verdadeiro templo de cultura e conhecimento, com seus mais de seiscentos mil manuscritos.

As cruzadas, a partir do século XI, tratariam de aproximar o mundo cristão desse valor inestimável produzido pelos árabes muitos séculos antes. Nas regiões recuperadas do domínio de povos islâmicos, monges dedicados a reinstalar o cristianismo tomaram contato com muitas obras copiadas e comentadas pelos eruditos árabes e não tardaram a traduzi-las para o idioma oficial da igreja, o latim, o que depois de um tempo permitia que fossem estudadas por filósofos e pensadores cristãos que desenvolviam suas atividades junto aos mosteiros e instituições de estudo da cultura escolástica. No século XII grande parte desses conhecimentos já estava espalhada pela Europa, permitindo a eclosão de novas explorações filosóficas e tentativas de reformulação intelectual que não tardariam a se debruçar sobre o próprio pensamento cristão.

Um dos mais importantes reflexos dessas novas referências culturais que passaram a ventilar o pensamento cristão foi a descoberta da obra de Aristóteles, principalmente a partir de comentários de autores árabes como Avicena e Averróis. A presença das obras do estagirita entre os estudiosos cristãos estaria relacionada a uma das mais significativas renovações do seio do pensamento católico, quando a referência de Platão, capitaneada desde o século V pelas ideias de Santo Agostinho, começa a dar lugar aos novos conceitos oriundos das contribuições de Aristóteles.

Foi São Tomás de Aquino, uma das mais importantes mentes da Era Medieval, quem trataria de reler a teologia da Igreja à luz do pensamento aristotélico, através de uma vigorosa e vasta obra filosófica. Um dos pontos fundamentais presentes na visão tomista haveriam de ser preponderantes para a postura intelectual que alguns séculos mais tarde seria adotada pelos pensadores e artistas do Renascimento: a não oposição entre fé e razão, na medida em que ambas seriam obras divinas, tal como assinalado tanto na Bíblia quanto no “livro da natureza”, este último um conceito que ganharia força no seio da cristandade a partir da disseminação do pensamento de Francisco de Assis, naquele mesmo século XII.

O caminho aberto pelas contribuições do pensamento do mundo antigo resultaria na grande valorização da filosofia e da ciência como base da criação e das concepções de figuras até hoje reconhecidas como gênios da humanidade. Um eloquente exemplo é Leonardo da Vinci, cuja criação artística estaria sempre apoiada no impulso de conhecer cientificamente os fenômenos envolvidos, utilizando para isso de todos os recursos de pesquisa, cálculo e experimentação, que por sua vez traziam para o horizonte da arte a perspectiva das variadas disciplinas da ciência. Um dos resultados mais importantes dessa mudança de paradigma seria a invenção da imprensa, que permitiria potencializar a difusão do conhecimento, na medida em que era capaz de aproximar os produtores de cultura, facilitando o intercâmbio de ideias e as construções coletivas.

Essa ordem de coisas estaria na base do que hoje chamamos de Revolução Científica, quando o “cosmos harmônico” de Aristóteles, entendido como sistema fechado e fundo dos fenômenos da natureza e da vida, dá lugar a um universo que transcende o limite da terra e se volta para um cosmos muito mais vasto e infinito, que pode ser explicado e concebido por meio da observação e do cálculo. Daí a eclosão de astrônomos modernos, como Kepler e Titcho, e seus esforços para conceber instrumentos e técnicas de observar o céu, processo que tem seu ponto mais significativo no século XVII com as descobertas de Galilei, que lhe renderiam problemas com a Igreja, mas abririam uma nova fase do conhecimento humano na direção do vertiginoso papel que a ciência desempenharia pelos séculos seguintes.


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terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

O desafio de educar no século XXI

"Nem tanto ao mar nem tanto ao céu. Equilíbrio é necessário."

“Os alunos de hoje não são mais os mesmos”. Ouvi essa frase inúmeras vezes, e também inúmeras vezes fiquei me perguntando: com tantas mudanças ocorrendo nos últimos anos, como os alunos poderão ser os mesmos? Nem eu nem vocês, pais e professores, somos os mesmos. Esse é o primeiro paradigma que precisa ser desconstruído quando o assunto em pauta é o desafio de educar no Terceiro Milênio. Mas, afinal, quem é o aluno, quem é o filho do século XXI?

Segundo Michel Serres, filósofo e professor da Universidade de Stanford, na Califórnia, esses alunos são “a geração do pequeno polegar”. Você lembrou do Pequeno Polegar, o famoso pequenino das histórias infantis, do tamanho de um dedo polegar? Na verdade, não foi a esse polegar que Serres se referiu, mas sim à nova geração, que interage com a mídia e com as novas tecnologias como a própria extensão do corpo. Dia desses, estava eu no hall de uma escola aguardando uma amiga professora e observei alguns alunos, de uns 11 ou 12 anos aproximadamente, que digitavam mensagens usando apenas os polegares, tanto o da direita quanto o da esquerda, com velocidade e destreza invejáveis. Eu estava ao lado da geração POLEGARZINHA.

Essa é uma geração que se comunica, aprende e pensa de forma diferente das anteriores. Querem um exemplo ilustrativo? Era muito comum que os pais da geração passada orientassem os filhos a não falarem à mesa, pois isso era considerado sinal de má educação. Num belo dia, a família de Ana (nome fictício de uma menina de 9 anos) receberia para o jantar um casal de amigos. Os pais a orientaram a não fazer nenhum comentário durante a refeição. A noite caiu, as visitas chegaram e o jantar foi servido. Ana sentou-se à mesa em frente ao pai. Tudo ia muito bem, até que Ana fez menção de falar com o pai, mas ele a olhou de forma tão sisuda e reprovativa que ela pensou em desistir do propósito. Porém, não conformada, Ana tentou novamente se comunicar com o pai, e dessa vez o olhar foi ainda mais fulminante que o anterior. Resignada, ela desistiu de vez e terminou a refeição em silêncio. Quando as visitas foram embora, o pai de Ana veio conversar com ela: “Filha, agora você já pode falar”. Ana o olhou com tristeza e disse: “Agora não adianta mais, pai, você já comeu a lesma que estava na folha de alface...”. É muito provável que, se Ana fosse uma representante da geração Polegarzinha, não teria se calado, muito menos ficaria intimidada com os olhares reprovativos do pai.

Esse é apenas um exemplo para ilustrar que aquilo que funcionava para nossos pais e avós não cabe para essa nova geração, pois esses jovens e adolescentes têm outra forma de estar na vida, de trabalhar com o cérebro. Lá no passado dos nossos avós, por exemplo, tudo de novo que era aprendido era primeiro revisado e só então comunicado. Hoje, com a entrada das novas tecnologias, redes e mídias sociais, a nova geração aprende pela própria comunicação, e faz isso em velocidade considerável. Por isso a comunicação assume outro formato nesta era, e por vezes as atitudes dessa geração é confundida com falta de educação ou mesmo indisciplina, quando, na verdade, o que mudou foi a forma de pensar e a maneira de se expressar.

Cabe aqui uma importante ressalva. Essa observação sobre como nossos pais e avós nos educaram não é de forma alguma uma crítica aos valores sólidos que nos foram ensinados e que são ATEMPORAIS, tais como honestidade, verdade, respeito, dentre tantos outros. Trato aqui de FORMA, a forma como falo, como olho, como processo o pensar. É preciso refletir sobre a rigidez desnecessária aplicada a algumas situações da vida, que, em vez de FORMAR, DEFORMAM o caráter. É preciso que a nossa geração, a de pais e avós, esteja de mente e coração abertos para aprender, compreender essa nova geração e, com sabedoria e inteligência, ajudá-la a construir o próprio porvir.

Não se trata de passar a mão na cabeça, de dizer senta e espera que tudo virá a sua mão, ou até mesmo ser tolerante com aquilo que vai contra valores atemporais, e sim rever nossa forma de ser e agir, usando a flexibilidade, quebrando velhos paradigmas sem sentido, e assim estimular a nova geração, orientando-a e incentivando-a sempre: “Vai que você consegue, você pode!”.


Até a próxima, com mais sobre a nova geração. Aguardem!


segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

Saiba como se proteger de e-mails maliciosos


Sabe aquele e-mail que pede para você verificar, clicando no link, se o seu nome está no SPC, se você ganhou uma bolada de 100 mil reais ou, ainda, se aquelas fotos ousadas tiradas na última festa são suas? Os e-mails que possuem essas características provavelmente podem estar cheios de vírus ou conter programas maliciosos. Mandados para uma tentativa de obter suas informações pessoais ou uma possível extorsão, a temática é tema contante em diversas rodas de bate-papo, sejam virtuais ou reais. Existe, até mesmo, uma data que promove essa discussão formalizada sobre o assunto.

Hoje, é comemorado mundialmente o Dia da Internet Segura, também conhecida por “Safer Internet Day”. Para celebrar esta data e alertar os internautas sobre as ameaças na web, a Appai, em parceria com o setor de Redes, apresenta dicas úteis para manter as informações corporativas e domésticas longe dos hackers, e sempre em segurança.

O Phishing ainda é um dos vetores de ataque mais comuns e bem-sucedidos utilizados pelos criminosos. Isso ocorre porque ele se concentra em explorar o elo mais fraco da segurança: as pessoas, cuja natureza emocional é explorada com grande chance de sucesso.

Os ataques de phishing mais bem-sucedidos são aqueles que criam uma conexão emotiva com a pessoa que vai clicar, fazendo-a dispensar o raciocínio, clicando sem avaliar se essa era de fato a melhor atitude. Quando os usuários recebem um pouco mais de tempo para avaliar e realizar uma ação consciente, diminui consideravelmente a probabilidade de realizarem o clique no link malicioso. Por isso, as mensagens costumam ser urgentes, propagando consequências danosas caso o usuário não clique.

A melhor forma de se proteger é evitar clicar em links estranhos e, em caso de dúvidas, entrar em contato com a Instituição para confirmar se ele é realmente verdadeiro. Se você caiu em um golpe desse tipo, a recomendação é usar um antivírus atualizado para remover a ameaça. Como algumas infecções adicionam softwares e extensões no navegador, outra dica é remover qualquer conteúdo estranho instalado.

O termo PHISHING (que em português significa “pescando”) é usado para representar a tentativa de um criminoso tentar “pescar” informações de usuários e/ou empresas, como furto de identidade ou de dados bancários, o que geralmente vem em formato de e-mail.


9 dicas para você identificar e evitar golpes por e-mail
  1. Marque seus sites de compras favoritos. Evite usar mecanismos de busca para encontrar bons negócios. Limitar sua busca a endereços de confiança pode reduzir as chances de parar em um site falsificado.
  2. Sempre verifique os hyperlinks. Para constatar a legitimidade de uma URL, passe seu cursor sobre o link incorporado antes de clicar nele. Links falsos podem ser enganadores pois os golpistas podem usar URLs com os termos relevantes.
  3. E-mails falsificados normalmente contêm uma saudação genérica. O endereço de e-mail do usuário também pode ser usado em vez de ser chamado diretamente pelo nome, o que é um sinal de alerta.
  4. Cuidado com gramática ruim ou ortografias duvidosas. E-mails legítimos não contêm erros gritantes.
  5. Reconheça e-mails feitos de modo descuidado. Logotipos e layouts errados ou fora de lugar são sinais de que a mensagem não vem de uma fonte confiável.
  6. Tome cuidado com sites que pedem sua senha. Nunca informe senhas ou dê informações sensíveis para outras pessoas e sites não confiáveis.
  7. Fique longe de e-mails ou sites que exigem uma ação urgente. Algumas mensagens incluirão apelos desesperados para clicar em certos links ou divulgar informações pessoais.
  8. Desconfie de ofertas boas demais para serem verdade. Existe um ditado que diz: “se alguma coisa parece boa demais para ser verdade, provavelmente é” e isso se aplica a compras on-line. Cuidado com produtos com preço muito baixo.
  9. Verifique sempre seus extratos do cartão. Esteja atento às transações não autorizadas.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

Estaríamos melhor em mãos holandesas?

Alto da Sé – Olinda”, de 1662, pintada por Frans Post (1612 – 1680).
























Muitos brasileiros, diante dos vestígios materiais que resultaram da presença holandesa no Nordeste brasileiro, se sentem inclinados a afirmar a supremacia da nação batava sobre a portuguesa, o que, em regra geral, teria resultado num processo de colonização que melhor preparasse o Brasil para o futuro como país independente. Apesar de alguns argumentos parecerem sedutores a respeito dessa tese, um olhar mais acurado, resultante do apoio em estudos históricos, poderá revelar uma realidade bem diferente, que aponta para um projeto de colonização que, sob alguns pontos de vista, não reuniu as características necessárias para prosperar nos trópicos.

Um fator que muitos historiadores colocam como uma possível causa do menor êxito colonizatório dos holandeses está no fato de que, ao contrário dos ibéricos, os batavos não tinham muitos motivos para deixar as boas condições de vida de sua terra natal para ir se aventurar em uma realidade incerta e inóspita como a que se apresentava do outro lado do Atlântico. Isso teria forçado a Companhia das Índias Orientais, a empresa encarregada do empreendimento na América, a buscar auxílio em outros grupos sociais espalhados pela Europa e menos providos de esperanças em seu continente de origem. Tais eram os casos de indivíduos de várias nacionalidades que acabaram recrutados para integrar os exércitos que invadiram as terras e que posteriormente as colonizariam. Um contingente cosmopolita, muito pouco tendente a criar raízes, traço que se revelaria fundamental para o bom êxito econômico.

Esses europeus que atenderam ao chamado de tocar a colonização holandesa em Pernambuco se organizaram em torno de um estilo de vida fundamentalmente urbano, povoando áreas mais desenvolvidas como o centro do Recife e a região onde ficava a ilha de Antonio Vaz, onde Maurício de Nassau construiu sua residência, sede do governo, junto aos quais se encontravam prédios que buscavam expressar o nível cultural predominante nas principais metrópoles europeias, como templos de várias religiões (que na capitania conviveram de forma consideravelmente livre), museus, praças, teatros.

Essa situação contrastava frontalmente com a realidade da colonização portuguesa, profundamente baseada no campo, em torno dos engenhos e fazendas. Os modestos espaços urbanos na verdade não passavam de apêndices das grandes propriedades rurais, abrigando não mais que alguns serviços essenciais à burocracia e ao escoamento da produção. O grande crescimento da vida urbana no Recife sob dominação holandesa antecipava assim, em muito tempo, a situação que posteriormente se instalaria nas outras regiões brasileiras, quando a imensa riqueza dos proprietários de terras permitiria a instalação de novas formas de vida que pouco a pouco vão deixando de caber no cenário bucólico das fazendas do interior.

Ao contrário, o espaço urbano da Nova Holanda sugeria o grande sucesso econômico do empreendimento batavo no Nordeste brasileiro. Palácios suntuosos como o Vrijburg figuravam ao lado de grandes parques públicos destinados a exibir a fauna e a flora do país, bem como a cultura material dos indígenas da terra. Expedições científicas que permitiram revelar as riquezas naturais do Brasil e obras de arte que se tornariam referências do período, como a produção de pintores do porte de Frans Post e Albert Eckhout, ajudavam a reforçar o caráter de exceção representado pela imponência da capital pernambucana frente ao restante do país, de cidades pouco equipadas e em quase nada diferindo dos ambientes rurais. Nem o lado obscuro do desenvolvimento urbano estaria ausente da cidade erguida pelos invasores batavos. Escritos deixados pelos muitos missionários calvinistas que vieram para Recife revelam a perplexidade destes diante dos verdadeiros antros de corrupção e vícios, que são as zonas próximas ao porto da cidade na metade do século XVII.

Mas essa grandiosidade presente na organização urbana do Brasil holandês não encontra correspondência nos resultados extraídos da produção agrícola nas áreas rurais. De caráter excessivamente rígida e metódica, a postura dos colonizadores em poucas ocasiões mostrou a sabedoria necessária para lidar com todas as dificuldades próprias da propriedade rural tal como trabalhada nos trópicos. Não espanta que já quase uma década depois de se fixarem em Pernambuco tenham se alarmado diante da constatação de que a maior parte das terras produtivas da capitania estava nas mãos de portugueses. A tentativa de trazer da Holanda camponeses para dar origem a gerações de descendentes ligados à terra também não obteve resposta satisfatória, reforçando a ideia bastante corrente da inaptidão dos norte-europeus para atuar nas pouco previsíveis condições de vida encontradas por aqui.

Essa tese fica bem provável quando se observa algumas diferenças entre batavos e portugueses no que diz respeito a aspectos culturais bastante relevantes num processo colonizatório. Por exemplo, o entrosamento que os ibéricos demonstraram com as “gentes de cor” com que tiveram que conviver na própria dinâmica da vida colonial jamais seria alcançado pelos holandeses excessivamente convencidos da superioridade de sua raça e cultura. Pareceram inábeis inclusive em traços fundamentais, como a implantação de sua língua, como constataram vários missionários protestantes, que logo perceberam que indígenas e africanos respondiam melhor à catequese quando era usada a língua portuguesa (ainda pouco empregada), e principalmente a língua-geral, que os religiosos católicos tão bem dominavam. Os calvinistas logo abririam mão da pregação em sua língua de origem, adotando as da terra.

A religião, aliás, ao que parece também jogou contra os holandeses. Muitos estudiosos, como Sérgio Buarque de Holanda, por exemplo, apontam o caráter mais universalista da Igreja Católica. Além disso, uma liturgia contendo muitos eventos de perfil socializante espalhados por procissões, festas e encenações que serviriam de modo muito mais eficaz para a mobilização, não só de indígenas e africanos, mas também de outros grupos necessários para o êxito da exploração econômica das terras. O cotidiano mais rígido e até certo ponto monótono da religiosidade calvinista, muito baseado no estudo da Bíblia num país de quase total analfabetismo, não permitiu que a atividade missionária realizasse o papel fundamental de promover uma integração que pudesse se refletir no projeto colonial.

As belezas materiais que Nassau implantaria no Recife tinham, entre outras coisas, a finalidade de atrair investidores europeus para a colaboração na empreitada cara e trabalhosa que era extrair riqueza na América. A necessidade de suprir as lavouras do trabalho escravo, sem o qual a exploração econômica traria resultados apenas medianos, e introduzir técnicas modernas para o plantio, como imaginavam os holandeses, demandava uma soma de recursos que não poderiam vir apenas do investimento de uma organização privada, como era a Companhia das Índias Orientais. O aparente esplendor da presença batava não passou portanto de uma fachada destinada a impressionar eventuais parceiros comerciais e nem de longe podia ser encarado como um reflexo dos altos ganhos auferidos com a terra. Estes sempre foram obtidos muito mais pelos portugueses, com sua maior habilidade em lidar com as condições que se colocavam do lado de cá do Atlântico.

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quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

“Zumbis digitais” ganham semáforo para evitar acidentes



















Em tempos da tecnologia de ponta, é muito comum andarmos na rua e vermos alguém com os olhos grudados em seus smartphones. Entretanto, os “zumbis digitais”, como são chamados, têm causado muitos acidentes de trânsito nesses últimos anos.

De acordo com pesquisas mais recentes, 20% dos pedestres europeus podem ser considerados “zumbis digitais”. Nos Estados Unidos, uma em cada três pessoas caminha focada no celular, distraída e vulnerável a acidentes. Um estudo da Universidade de Stony Brook, de Nova York, mostrou que as pessoas distraídas chegam a desviar até 61% da rota enquanto mandam uma mensagem. Segundo o Detran-RJ, o tempo de reação fica reduzido em 35% quando um pedestre digita ou lê mensagens no smartphone.

Pensando nisso, a prefeitura de Augsburgo, uma cidade ao sul da Baviera, na Alemanha, decidiu implantar um semáforo diferente para alertar os zumbis. As luzes foram colocadas na beirada das pistas e nos cruzamentos, além das sinalizações tradicionais.

De acordo com Stephanie Lerman, porta-voz da prefeitura, a administração pública percebeu, depois que duas pessoas foram atropeladas por um bonde enquanto mexiam no celular, que os semáforos convencionais não estavam no campo de visão dos pedestres.


















Outras medidas…

Augsburgo não foi a única cidade a criar métodos para prevenir acidentes. Em Nova Jersey, nos Estados Unidos, as medidas foram mais rigorosas. Quem for pego usando o celular ou outros aparelhos eletrônicos enquanto caminhar nas ruas é multado em 50 dólares ou leva 15 dias de prisão. No Japão, calçadas específicas foram criadas para os zumbis digitais, numa forma de evitar atropelamentos, empurrões, tropeços e quedas.


terça-feira, 31 de janeiro de 2017

O que há para além das linhas em 2017?





















Aconteceu comigo, Andréa Schoch.

“Há anos, quando era gerente sênior em uma empresa, eu estava numa mesa de reunião com outros colegas gerentes (pessoas e profissionais maravilhosos), quando (não me lembro bem do motivo que desencadeou a questão) surgiu o assunto sobre descendência, e cada um começou a falar sobre a sua. Um dos colegas contou que era descendente de poloneses, outro, de italianos, outro, de portugueses, e por aí foi, até que chegou a minha vez de falar...

Eu disse que era descendente da tribo Pataxó Hãhãhãe. Todos acharam que era piada, embora eu estivesse falando sério, e riram muito.

Sem a intenção de julgar ninguém, esse fato me levou a pensar sobre o quanto sabemos a respeito dos povos indígenas...”
E você, o que sabe sobre esses povos?


Povoamento da América

Depois de muitos estudos, ficou conhecida, em linhas gerais, a origem dos índios que povoaram a América, os chamados ameríndios, bem como a partir de quando isso aconteceu. Por volta de 14 a 12 mil anos atrás, esses povos teriam chegado por via terrestre, por meio de um subcontinente chamado Beríngia, no extremo nordeste da Ásia.


E no Brasil?

Antes da “invasão/ocupação/descoberta” dos portugueses, nos anos 1500, uma população gigantesca de povos indígenas vivia no Brasil. Estimativas apontam um número de 5 milhões de pessoas, com aproximadamente mil povos diferentes, dentro do território que hoje leva o nome de Brasil.
Analisamos, por meio da história, que, com a invasão, ocupação e as descobertas ocorridas no século XV, quando os navegadores portugueses e outros entraram em contato com outros povos, constataram diferenças físicas e culturais que os fizeram até mesmo duvidar se esses nativos eram pessoas ou “feras”, animais irracionais. Os invasores não só escravizaram os índios como os consideraram seres inferiores, e de lá para cá muitos foram dizimados.

Em 500 anos, o número de índios baixou muito. Atualmente, conforme dados do IBGE, há no Brasil aproximadamente 896 mil indígenas, com mais de 300 tipos de povos, que falam de 150 a 270 línguas diferentes. Essa diversidade já existia quando ocorreu a invasão. Eles se relacionavam, havia guerras, alianças, eles circulavam pelo território, deixando marcas que perduram até hoje, conforme relata a antropóloga Tatiane Klein, especialista no tema, e cita como exemplo a palavra “Araraquara”, que denomina uma cidade de São Paulo, mas é também um termo da língua Tupi, marcando o nome de um rio da Amazônia. Portanto, temos aí uma representação clara de que os povos ocupavam o território brasileiro, mas infelizmente esse direito de ocupação lhes foi tirado de forma hostil e injusta, pois os indígenas são cidadãos brasileiros, estavam aqui antes de nós, que nos denominamos brasileiros.

Tatiane Klein conta que, no ano 2000, o Instituto Socioambiental encomendou uma pesquisa ao IBOPE para averiguar o que pensa o brasileiro (não indígena) sobre os índios. Os resultados apontaram que “essa ideia do bom selvagem ainda viceja, principalmente nos centros urbanos”. Porém, apesar de parecer positiva, a realidade apresentada nas regiões em que vivem povos indígenas é negativa por conta dos conflitos fundiários e da demarcação de terras.
Conforme salienta Tatiane Klein, a avaliação política demonstra que, há muito tempo, e ainda atualmente, esses povos estão sendo massacrados, injustiçados, discriminados e mortos. Mas quem faz isso, diretamente? Pessoas interessadas em posses e terras, em geral. Temos visto nos noticiários uma série de episódios de ataques aos povos indígenas e ao seu território, para extração de madeira, por exemplo, ou atividades como garimpo, entre outras, tirando deles o direito à terra, previsto na Constituição Brasileira.

Além do direito à terra, os povos indígenas têm direito à alfabetização, a aprender a sua língua nativa, porém somente em 1988 é que isso lhes foi garantido na Constituição, o que nos faz pensar no débito do Brasil para com esses povos.

Mas, além dos que atacam e violentam os direitos dos índios, há aqueles que desconhecem que, assim como as pessoas com maior incidência de melanina na pele, olhos e cabelos (chamados de negros), os indígenas também sofrem por serem considerados inferiores, de raça inferior, a raça dos vermelhos (assim são chamados).

A história é longa e repleta de detalhes nos quais você pode e deve se aprofundar. Nossa missão aqui é lançar a curiosidade sobre um tema tão importante e deixar uma recomendação de como pais e professores podem fazer para combater o preconceito contra o índio.
Revise os seus conceitos sobre o povo indígena. Você os considera inferiores? Se sim, é preciso buscar mais conhecimento sobre o tema. Lembre-se de que a criança por si só não é preconceituosa e discriminadora, isso ocorre com frequência porque ela convive com adultos, ouve e vê, cresce construindo ou não o preconceito seguido da discriminação.

Por vezes, afirmamos não ter preconceito, mas, se víssemos duas crianças juntas, uma branca de olhos claros e a outra indígena, diríamos logo, sem nos darmos conta, que a bela e boa é a branquinha. A criança que está sob nossa responsabilidade cresce observando até mesmo o que sai de nós, não necessariamente verbal, como olhares, gestos e expressões (linguagem não verbal), então imita, toma como verdadeiro. Como diz o ditado, a palavra ensina, mas o exemplo arrasta.

Pense nisso...

Até a próxima.

Para mostrar às crianças curiosidades sobre a cultura indígena, acesse: https://mirim.org/.