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Reforma Ortográfica – Agora é para valer


Esse ano letivo não vai ser igual àquele que passou... Professores e alunos voltam às salas de aula, em fevereiro, já regidos exclusivamente pelas normas padronizadas do Acordo Ortográfico entre os países de Língua Portuguesa, que passou a vigorar oficialmente no dia 1º de janeiro.

Mudanças essas que, diga-se de passagem, não são tão novas assim. Foram seis anos de transição em que conviveram as duas formas: a antiga e a atual. Só que com a virada do calendário de 2015 para 2016 o formato anterior, que era até então tolerado, passou a ser considerado automaticamente errado.

Justiça seja feita, os profissionais de ensino foram os primeiros a aderir ao novo acordo. Afinal, nenhuma categoria trabalha mais a língua do que o professor. Além de ter a autocobrança de se expressar com o português correto, ainda tem a missão de repassar esses conhecimentos aos alunos. Isso sem falar na responsabilidade da correção e desconto de notas de provas e trabalhos que não estejam dentro do formato exigido.

O comportamento da categoria influenciou a adoção antecipada do novo padrão pelo Programa Nacional do Livro Didático (PNLD) já em 2009. Na mesma linha seguiu a maioria das editorias dos veículos de Comunicação, independente da plataforma: impresso, on-line, rádio e TV. Apesar disso, a previsão inicial era que as regras fossem cobradas oficialmente a partir de 1° de janeiro de 2013, mas, após polêmicas, o governo brasileiro adiou a entrada em vigor para o primeiro dia de 2016. Mesmo com todo o rebuliço criado em torno das reformas, no “português brasileiro” a estimativa é de que apenas 0,8% do total de palavras usadas tenham sofrido alteração na grafia.


Prós e Contras

Reações não faltaram às mudanças. Entre as críticas, a de que alteraria a evolução natural da língua falada. Muitos enxergaram interesses econômicos para comercializar os mesmos produtos impressos independente do país falante do português. Outros ainda não viram sentido, já que alegam que as mudanças não vieram para facilitar o uso do idioma, pois não solucionam as principais dificuldades no exercício da língua: acentuações (entre elas a crase) e uso de sílabas diferentes com o mesmo fonema, como X ou CH, ou, ainda, S, SS ou Ç. Do outro lado, muitos receberam as mudanças com boas-vindas, considerando até mesmo tardias essas alterações.


Padronização


Ao todo oito países falam oficialmente a língua portuguesa: Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Timor-Leste, Moçambique, Portugal e São Tomé e Príncipe. A Guiné Equatorial foi aceita somente em 2014, quando decretou o português como uma de suas línguas oficiais. O objetivo justificado para a unificação foi o de padronizar e facilitar a comunicação e o intercâmbio entre essas nações.

O acordo foi ratificado pelo Brasil em 2008 e implementado de forma híbrida no ano seguinte. Já com os outros estados-membros da Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP) foi assinado em 1990.

O Brasil é o terceiro a tornar obrigatórias as mudanças. Com sua implementação oficial eleva-se para 215 milhões os falantes de português a usar a nova grafia. O país onde a língua surgiu deu o exemplo. Portugal foi o primeiro a fazer vigorar a medida, em 13 de maio do ano passado, seguido, logo depois, por Cabo Verde, em 1º de outubro de 2015.

Porém nem tudo é harmonioso nessa mudança. Por motivos diversos, Angola, Moçambique, Guiné-Bissau, Timor-Leste, São Tomé e Príncipe ainda não aplicam oficialmente as novas regras ortográficas. Em Angola, apesar de assinarem o acordo inicial de intenções e investirem financeiramente na plataforma digital do Vocabulário Ortográfico Comum, na prática a sua implantação não foi realizada pelo governo.

Em Moçambique a norma aguarda ratificação pelo parlamento, atraso atribuído a mudança de governo. Em Guiné-Bissau a instabilidade política também trava a implementação.


Reformas anteriores

Isoladamente dos irmãos de idioma, o Brasil promoveu várias reformas ortográficas. A primeira de que se tem notícia aconteceu em 1911, defendida pelo filólogo Gonçalves Viana e já pregava a simplificação do idioma. Durante a Era Vargas, no início dos anos 30 algumas mudanças foram incorporadas por pressão dos professores. Outras foram promovidas em 1943 e 1971, com a substituição do “Z” pelo “S”, a queda do trema e acentos em algumas palavras, além do fim do “PH” com som de “F”.
Veja como era essa frase:

O rapaz saiu sòmente de caza após o almôço. Passou na Pharmacia e depois foi tomar um cafèzinho com um amigo que trabalha para o govêrno. Logo depois voltou para casa pois estava com saüdade da esposa.


Recapitulando as Principais Mudanças


Embora a absorção esteja avançada, muita gente ainda se perde para identificar o que mudou. Entre as alterações mais complicadas estão o uso do hífen e a acentuação.

* Uma das regras diz que as palavras compostas nas quais letras iguais se encontram são separadas com o sinal de pontuação. Já naquelas onde acontece o encontro entre letras diferentes, ocorre a junção. Exemplo: “anti-inflamatório” e “neoliberalismo”.

* A acentuação gráfica se altera, por exemplo, em palavras paroxítonas que contenham vogais repetidas. É o caso de “voo”, “enjoo”, “leem” e “veem”.

* As paroxítonas terminadas em ditongos crescentes, como “eia” e “oia”, não recebem mais acento. Por exemplo: “boia”, “jiboia”, “ideia” e “assembleia”.

* Como o trema foi abolido, agora escrevemos “frequente” e “sequestro”. O sinal pode ser usado apenas em nomes próprios. OBS.: a mudança vale apenas para a escrita, e palavras como “linguiça”, “cinquenta” e “tranquilo” continuam com a mesma pronúncia.

* Entre as principais mudanças, está a ampliação do alfabeto oficial para 26 letras, com o acréscimo de “k”, “w” e “y”. As letras já eram usadas em várias palavras do idioma, como nomes indígenas, palavras de idiomas estrangeiros e abreviações de medidas, mas estavam fora do alfabeto oficial.

* Acentos diferenciais também deixaram de existir, eliminando a diferença gráfica, por exemplo, entre “para” (do verbo “parar”) e “para” (preposição).
Exceções: mantiveram o acento diferencial: “pôr” (verbo), diferenciando-se de “por” (preposição), e “pode” (presente do indicativo), que se escreve “pôde”, quando se referir ao pretérito do indicativo.


* O hífen deixou de ser usado quando o prefixo terminar em vogal e a segunda parte da palavra começar com “s” ou “r” (que ficam dobrados), como no caso de “contrarregra”. Quando o prefixo terminar em “r” e a palavra também se iniciar por essa letra, usa-se o hífen (ex.: super-resistente).


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