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Do morro ou do asfalto? Afinal, qual é o mistério do samba?

"Roda de Samba", de 1957, do compositor, sambista e pintor Heitor dos Prazeres.

Muita gente já se aventurou a responder essa pergunta, que procura revelar a origem daquele que é, para a grande maioria, o mais brasileiro de todos os estilos musicais. Vêm dos próprios praticantes do ritmo as hipóteses mais criativas e, até por isso, sedutoras. Um bom exemplo é a levantada por Carlinhos Brown, que situou o samba para além das terras brasileiras: para o músico baiano, ele teria nascido nos navios negreiros, no compasso do balanço das águas, embalando a dor dos desterrados da África. Essa relação, aliás, entre o samba e a tristeza (ao contrário do que poderia sugerir o sorriso estampado no rosto de quem ouve ou faz samba) seria destacada outras vezes. De alguma forma dialogando com a tese de Brown, Vinícius e Baden afirmariam que “o samba é a tristeza que balança”. E é na própria letra do “Samba da Bênção” que vem outra ideia sobre a origem do samba: “o samba nasceu lá na Bahia”, dizem os dois compositores. Agora quem pode ser evocado pra continuar o diálogo é o antropólogo baiano Antonio Risério, que poeticamente descreve a Bahia como aquela velha negra, patriarca da cultura africana a comandar o samba de roda, enquanto o Rio de Janeiro aparece como a “moleca” que lindamente dança ao som do sempre irresistível ritmo. Uma ligação entre as duas cidades mais africanas do Brasil, que também apareceria numa genial frase em letra de outro grande do samba, agora de Aldir Blanc: “O céu abraça a terra, desagua o rio na baía”.

Mas, explicações poéticas à parte, o fato é que o samba como cultura se fortalece principalmente no Rio de Janeiro, à sombra do contato entre a cultura europeia e aquela da imensa quantidade de cativos que habitava a então capital do país. Das esquinas do centro da cidade sairia o choro, apontado como o ancestral do samba, praticado inicialmente por músicos virtuoses, de excelente formação musical, como o flautista e compositor Joaquim Calado, que executaria suas polcas e valsas, sem a menor preocupação de que esses estilos em voga na Europa do século XIX fossem complementados pelos toques dos batuques, cateretês e lundus, que circulavam na atmosfera carioca, em virtude da intensa presença africana. Assim nascia o choro e, segundo estudiosos, de sua simplificação (com arranjos menos complexos, mas com o aparecimento e valorização das letras), nasceria o samba. Nesse ponto de vista o samba teria tido um percurso inverso ao do seu “primo” americano, o jazz, que seria uma complexificação a partir de outro estilo de música praticada pelos afrodescendentes nos EUA, o blue.

À medida que se firma no Rio de Janeiro, o samba vai sendo identificado principalmente com a população afrodescendente da cidade e seguindo o percurso de marginalização a que esse grupo seria submetido desde que as reformas urbanas comandadas pelo prefeito Pereira Passos obrigariam a população de origem africana a se refugiar nos morros da capital. É quando o samba vai definitivamente se ligando a uma cultura de exclusão, sem perder o tom sempre irreverente e jamais abrindo mão da alegria, mesmo quando traz como tema a dura vida dos pobres do Brasil. Mas essa relação entre o samba e a população marginalizada que vive nas favelas não deve nos enganar: o samba originalmente é um fenômeno do asfalto. Pelo menos é o que dizia João da Baiana, um dos nomes históricos dos primeiros tempos do samba, compositor, instrumentista e passista. A prova disso, afirmava, era a grande presença de figuras das classes média e alta que subiam os morros para acompanhar as rodas de samba, regadas a muita dança, boa comida e amores, como as que ocorriam na casa da lendária baiana Tia Ciata. João apontaria ainda que era com autorização de políticos e autoridades do império e da Primeira República que as rodas podiam funcionar sem serem perturbadas pelos “pés-na-porta” da polícia.

A partir do Estado Novo o samba começaria a passar por um processo de desmarginalização. A política cultural de Getúlio Vargas haveria de alçar à condição de patrimônio cultural brasileiro colaborações culturais relacionadas à presença africana entre nós, como o samba e a capoeira. É nesse momento que começam a se destacar as escolas de samba e com elas grandes compositores, como Silas de Oliveira, um mestre na arte de compor letras que exaltavam as coisas e os valores nacionais, como se pode ver na ode nacional “Aquarela do Brasil” e no didático samba que aborda a vida e os feitos de Tiradentes, cuja primeira estrofe serviu para ilustrar aulas de história de muitas gerações de brasileiros.

O samba também ultrapassaria as fronteiras da música popular e passaria a figurar em obras de compositores eruditos como Guerra-Peixe e Radamés Gnattali. Estaria também na concepção de uma música brasileira sem fronteiras entre clássico e popular, como propunha Heitor Villa-Lobos, que aliás costumava na infância pular o muro de sua casa, no subúrbio do Rio de Janeiro, para ouvir a música que os chorões (era assim que se chamavam os primeiros sambistas) praticavam em suas rodas noite adentro.

Hoje parece não caber discussões sobre a origem do samba ou de que classe social ele provém. O samba é de todo o Brasil e virou matéria de abordagem de estudiosos de todos os matizes, seja de historiadores da música brasileira como José Ramos Tinhorão ou Mario de Andrade, seja de pensadores da cultura e da história do Brasil, como um Roberto Porto, um Haroldo Costa ou um Hermano Vianna. O samba transformou-se na trilha sonora de todos os momentos dos brasileiros. Evocados em situações de efervescência política, nas mesas de bar, nas casas de família. Afinal, desde que o samba é samba ele é depositário de um “sentimento renovador”, ou, para usar a frase de uma de suas grandes damas, D. Ivone Lara, “é a raiz da liberdade”.


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