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Entre perseguições e degredos, povo cigano deixou sua contribuição para a formação da cultura brasileira

A pintura que ilustra a postagem, de autoria de Debret, é intitulada “Interior de casa cigana”, de 1820
Muitas pessoas, habituadas a ver grupos ciganos como figuras misteriosas ou exóticas, sequer imaginam que esse povo originário provavelmente da Índia participa da vida brasileira desde os primeiros tempos da colonização. Isso porque muitos ciganos que viviam na península Ibérica seriam mandados para as terras da América, a partir de 1560 ou 70, seja por degredo ou interessados em que esse povo de cultura predominantemente nômade se espalhasse pelo país, promovendo a ocupação do território e aumentando a população da colônia.

Nos séculos seguintes essas migrações continuariam ocorrendo e a presença de ciganos começaria a se notabilizar já na Bahia do século XVII, então a região mais rica e importante da colônia brasileira. Menos de cem anos depois muitos grupos iniciariam uma importante migração em direção ao Sudeste, principalmente atraídos pelo Ciclo do Ouro das Minas Gerais, já que tradicionalmente grupos ciganos se ocupavam de atividades como a caldeiraria, produzindo objetos como correntes e bijuterias, além, é claro, de poderem tentar na promissora atividade de mineração atingir o enriquecimento. A grande circulação de ciganos pelo território do Brasil colonial também ocorreu devido a muitos degredos internos. É que, persistindo na América a visão negativa que sobre eles pesava na Europa, frequentemente ficavam associados a desordens públicas ou crimes, o que lhes ocasionariam algumas punições, como a condenação a viver em áreas tidas como selvagens ou inóspitas na época, como a Amazônia e as terras do atual Centro-Oeste brasileiro.

Um dos momentos mais marcantes para a cultura cigana no Brasil foi a chegada de um grupo junto com a família real de Portugal no início do século XIX. Alguns historiadores fazem menção a uma certa simpatia de Dom João por esse povo, principalmente pela alegria que proporcionavam devido a seus costumes muito fincados em festas, danças, músicas e celebrações de felicidade. No Rio de Janeiro, capital brasileira de então, acabariam por estabelecer algumas raízes relevantes e se destacarem no cotidiano da cidade. Inicialmente os ciganos se instalariam em áreas desvalorizadas do centro da capital por serem formadas por terrenos pantanosos ou charcos, que por isso eram desprezados pelos proprietários. Um desses locais se tornaria bastante conhecido algumas décadas mais tarde. O “campo dos ciganos” anos mais tarde ficaria conhecido como “Campo de Santana” e seria palco da Proclamação da República. Nas ruas próximas a esse local, muitos ciganos moravam e agitavam as noites regadas a muito vinho, música e danças. Não tardou para que esses locais fossem procurados por todo tipo de gente interessada em bebida e diversão, pois muitos bordéis e botequins passariam com o tempo a funcionar nessa região, que destoava de outras localidades em geral muito carolas e tradicionais. A cultura da boemia carioca tinha assim seu início nas áreas de grande concentração de ciganos, que eram também conhecidos por “raça boêmia”, em virtude de muitos grupos habitarem e serem provenientes dessa região da atual República Tcheca.

Muitos ciganos conseguiriam enriquecer durante o período posterior à chegada da corte portuguesa, sendo a atividade do tráfico de escravos uma das que mais propiciariam essa ascensão social de alguns indivíduos de origem cigana. A pele amorenada, em geral um empecilho para as oportunidades no Brasil daquele período, em grande parte das vezes não era problema para os ciganos, pois muitos dos que chegavam da Europa eram brancos, resultante de cruzamento de ciganos tradicionais com caucasianos, já que ser cigano não é algo que dependa do sangue ou da raça, bastando adotar os costumes desse povo para ser aceito entre eles.

Outros indivíduos de origem cigana conseguiriam viver em condições relativamente dignas, destoando da maioria de seus irmãos, que, sempre muito perseguidos, viviam quase sempre em situação de vida precária. A atividade de meirinho, que corresponde mais ou menos ao que hoje entendemos por “oficiais de justiça”, acabou sendo muito praticada por ciganos. Num tempo em que muito dificilmente alguém desse povo conseguiria uma vaga num dos disputadíssimos postos de trabalho do funcionalismo público, a carreira de meirinho acabava sendo a porta de entrada para muitos ciganos. Primeiro, porque essa era considerada uma atividade muito mal vista pela população, pois a esses funcionários cabia executar atividades muito impopulares como anunciar decretos de prisão ou cumprir decretos de autoridades que determinavam confisco de bens. Assim, em geral ninguém se importava com o fato de essa função pública ser realizada por um cigano. Pra completar, tratava-se de um cargo vitalício, que era herdado pelos descendentes, o que colaboraria para criar uma verdadeira dinastia cigana nesse ramo do funcionalismo. Mas a maioria dos indivíduos de origem cigana vivia em situação de grande penúria social no Brasil, muitas vezes porque só conseguiam viver em paz, escapando a perseguições, em áreas muito afastadas dos grandes centros, o que explica a grande incidência de ciganos na região Nordeste. Na cidade de Sousa, por exemplo, em pleno sertão paraibano, está instalada uma das maiores comunidades ciganas do país, estimada em mais de duzentas famílias.

Só recentemente a situação dos ciganos no Brasil começou a receber reconhecimento por parte das políticas de estado. A constituição promulgada em 1888 consagrou ou ciganos como uma das minorias étnicas do país e, a partir de 2002, começaram a se beneficiar com direitos de cidadania conferidos a toda a população brasileira. Suas tradições também tiveram reconhecimento, com a instituição do Dia Nacional do Cigano no dia 24 de maio, quando esse povo celebra sua padroeira, Santa Sara Kali. É verdade que entre nós a imagem negativa que a eles foi relegada através dos tempos, principalmente de sua instalação no continente europeu, não deixaria de existir, mas algumas manifestações importantes, como a popularidade de grupos dedicados a danças e músicas ciganas e a ocorrência de personagens desse povo em livros e novelas são sinais de que suas contribuições estão entre aquelas legitimadas pela maioria do povo brasileiro.

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