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O que há em comum entre o pôr do sol e o teatro?




O século VI a.C. foi sem dúvida um marco no desenvolvimento cultural do planeta. Nesse período nasceu a filosofia, há o surgimento da democracia e grandes pensadores, como Confúcio e Lao-tsé, agregaram seu pensamento ao patrimônio da humanidade. Mas foi também nesse século que teria surgido, segundo certa corrente de historiadores, uma das manifestações culturais mais envolventes e arrebatadoras de todos os tempos: o teatro. A Grécia seria o seu ponto de partida, nos festivais populares em que se celebrava a chegada da primavera, época do ano marcante para esse povo, que na ocasião se entregava a manifestações como a dança, o canto e a música. Daí viria o teatro tal como conhecemos hoje, contando histórias através da interpretação de personagens.


O festival dedicado ao deus Dioniso ficaria entre os mais populares, mobilizando massas que migravam às vezes por longas distâncias até os locais onde os espetáculos se produziam, espaços que em breve seriam projetados especificamente para as encenações (o “theatron”). A cultura atualmente predominante em torno do teatro, ligando-o a expressões elevadas de arte e bom gosto, só apareceria muitos séculos mais tarde. A relação intensa dos gregos com essa arte não fazia questão de posturas que hoje diríamos “politicamente corretas”. Durante os festivais o público se reunia para opinar e julgar a qualidade dos espetáculos e podia protestar quando não agradava, e não era raro que chegasse mesmo a interromper a apresentação se o desagrado fosse muito. Mas dessa manifestação também surgiria a cultura do aplauso, até hoje um símbolo do bom espetáculo e satisfação maior de quem se dedica a essa arte. Foi a fama dos festivais consagrados a Dioniso que desvinculou as encenações de sua origem religiosa e celebrativa e as aproximou de uma atividade ligada ao prazer estético e sensual, afinal, segundo a mitologia grega, trata-se da divindade que teria ensinado aos homens o cultivo da uva e do vinho, com seus prazeres e consequências.

No início do teatro os espetáculos tinham uma considerável ênfase na música, com as peças sempre contendo grandes coros de cantores, alguns dos quais às vezes se destacando dos demais para assumirem falas e diálogos. É daí que surge a figura do ator, que aos poucos vai se transformando em um dos núcleos do espetáculo teatral, à medida que grandes textos vão sendo escritos. Téspis teria sido o primeiro grande ator reconhecido pelo público e se notabilizaria também pelo seu esforço de levar os espetáculos de cidade em cidade, podendo ser considerado por isso o precursor do teatro mambembe, que ficaria tão popular, por exemplo, na Idade Média. O advento da filosofia a partir daquele mesmo século XVI exerceria grande influência nas obras criadas para o palco, que passaram a abordar questões universais e humanas, em substituição aos temas que abordavam os deuses e passagens mitológicas.
"Culto de Dionisio", do pintor italiano Francesco de Mura (1696 - 1782)

Alguns séculos depois o teatro conheceria a sua grande capital, Atenas, na qual diversos locais de encenação seriam construídos e grandes textos e inovações teatrais seriam empreendidos, consagrando essa arte como patrimônio cultural dos gregos. Nesse momento de apogeu das artes cênicas começam a se definir aquilo que atualmente denominamos de gêneros teatrais, classificações que não tinham importância nem sentido no contexto grego. As tragédias não demorariam a se destacar como estilo superior e que gozava de grande respeito do público, tanto por abordar em seus primórdios os temas religiosos e a vida de grandes heróis nacionais, quanto pelo caminho que viriam posteriormente a tomar, focalizando as paixões, dores, sofrimentos e questões humanas, sempre com a finalidade de “purificar” e/ou “moralizar” o espectador.

Sem contar com o conceito elevado destinado às tragédias, as comédias ganham também seu espaço, entre outras coisas por manter a mesma função moralizante, mas trabalhando com uma outra gama de elementos, mais identificados com o riso e a leveza. Ali ocorria a crítica de comportamentos e posturas que, sendo comuns nos seres humanos, eram retratados com toda a carga do ridículo e do jocoso, muitas vezes se encarregando de colocar em foco personagens que representavam pessoas ilustres da sociedade, políticos e governantes. Esses dois gêneros básicos do teatro grego estavam nos festivais bastantes relacionados aos atores, que em algumas celebrações tinham que encenar, cada um, textos dos dois gêneros, a comédia em geral encerrando as apresentações, reforçando o caráter de divertimento e alegria que afinal era o sentido dos grandes festivais de teatro. Essa versatilidade dos textos e de atores ajudaria a consolidar alguns outros gêneros, como as sátiras, tragédias mais curtas recheadas de humor e ironia, e as tragicomédias, nas quais as figuras ilustres e prestigiadas que apareciam nos grandes textos dramáticos apareciam vivendo situações irrisórias e ridículas.

Mesmo com o declínio do mundo antigo e o advento da cristandade, o teatro prossegue como uma arte de forte apelo popular, principalmente porque as temáticas tradicionais do teatro grego dão lugar a temas que igualmente mobilizam as massas, como os religiosos. Há um declínio da produção de textos dramatúrgicos porque passagens bíblicas ou relatos da vida de santos vão se consolidando como roteiros de encenação, daí surgindo as tradicionais versões teatrais da Paixão de Cristo, que se popularizariam pela Idade Média e persistiriam até hoje. Apesar de o teatro daquele período receber grande apoio da Igreja, não deixou de se desenvolver ao mesmo tempo uma arte cênica de caráter profano, onde as peripécias cômicas e irônicas das antigas comédias gregas davam lugar a manifestações de espetáculos onde o burlesco e até o malicioso estavam presentes, representando a irreverência popular do homem comum medieval e ao mesmo tempo servindo de contraponto satírico à severidade de costumes imposta pela Igreja. Na Idade Média o teatro recupera em parte alguns aspectos de sua origem na Grécia antiga, com as peças pouco a pouco deixando de ser realizadas no interior de templos religiosos e sendo encenadas nas ruas, praças e mercados, se configurando como uma arte eminentemente popular. A modernidade, a partir do Renascentismo, buscaria recuperar a força dos grandes textos cênicos da antiguidade, colaborando para a imortalização de autores e obras até hoje encenadas pelo mundo, como as tragédias de Sófocles ou Eurípedes, e as comédias de Plauto e Aristófanes. Obras que se consolidaram como universais, que partindo do contexto da Grécia do século VI a.C. atravessaria toda a história do Ocidente sem perder a sua principal característica, a de arte onde o predomina o humano, que nos palcos de todo o mundo se vê e se reconhece.
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