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Santo Antonio de Pádua: ícone popular no Brasil

Imagem: Debora Mancilla
Santo Antonio nasceu em Lisboa, em algum momento entre os anos de 1191 e 1195, e foi batizado com o nome de Fernando de Bulhões e Taveira de Azevedo. Alguns biógrafos afirmam que sua família descendia de Godofredo de Bouillon, um dos líderes da primeira Cruzada, no século XI, que teria sido o primeiro a governar a Terra Santa tomada dos muçulmanos. Mesmo sendo de uma origem nobre e abastada, o jovem Fernando muito cedo deu mostras do seu pendor para os estudos e demonstrou sua tendência à vida monástica. Resolve então abrir mão dos títulos de nobreza herdados de família e dedicar-se à vida religiosa. Já adolescente, ingressa no mosteiro de São Vicente de Fora, vinculando-se à Ordem de Santo Agostinho. Essa instituição se caracterizava por valorizar a meditação e a penitência, mas também investindo na tarefa de propagação da doutrina cristã, principalmente para as populações dos centros mais desenvolvidos da Europa. Nessa Ordem influente e prestigiada na época, Fernando teve oportunidade de receber excelente formação teológica, aprofundando-se principalmente no conhecimento das Escrituras, campo em que seria sempre uma referência para todas as comunidades religiosas com quem veio a conviver. Ali aprendeu também a desenvolver o seu inato talento para dirigir-se às massas, o que consolidou a fama de grande e requisitado pregador do Evangelho que manteria ao longo da sua atividade religiosa.

Um marco importante ocorre quando ele resolve trocar a Ordem de Santo Agostinho pela franciscana. A mudança foi motivada pelo conhecido acontecimento histórico dos cinco mártires do Marrocos, quando no ano de 1219 um grupo de jovens religiosos foi severamente seviciado no Oriente por defenderem a fé cristã em ambiente de predomínio do Islã. Daí em diante o religioso se lançaria à intensa dedicação que o tornaria uma das figuras mais populares do mundo cristão. Um bom exemplo disso são os escritos denominados Fioretti de Santo Antônio (em analogia com os Fioretti de São Francisco de Assis, que têm a mesma finalidade), que consistem em narrativas populares sobre feitos dos santos. São a prova da imensa popularidade de Santo Antônio, conquistada não apenas frente às grandes massas como também perante a própria igreja por suas muitas colaborações, como a que ocorreria durante a grave crise envolvendo os albigenses, cujas teses seriam refutadas brilhantemente pelo religioso, como relatam as histórias eclesiásticas, numa prova inconteste da erudição e da capacidade retórica que apresentava como sacerdote. Mas seria no Brasil que Santo Antonio se converteria numa figura histórica que muito simbolizaria a singular relação do povo com as questões religiosas ou teológicas. Basta citar a ironia de um frade de orientação franciscana ser identificado com uma figura propiciadora de vitórias em conflitos militares. A confiança no santo para as situações bélicas fica bem explícita, quando se percebe que Espanha, Portugal e Brasil o incluíram nas suas fileiras como valioso reforço para as guerras de que participaram. Em 1668, D. Pedro II (o lusitano, não o brasileiro) expediu decreto ordenando que o santo sentasse praça como soldado, no 2º regimento de infantaria. Como se vê, começou de baixo sua carreira militar, mas em 1780 já havia atingido a patente de capitão. Porém foi no Brasil que a atuação de Santo Antônio nos campos de guerra mais ganhou vulto. Durante o Brasil Colônia vários estados lhe ofereceram patentes, nas mais diversas especializações. Foi tenente de artilharia em Pernambuco e capitão de cavalaria em Vila Rica. Através de decreto expedido em 1814, D. João, futuramente D. João VI, promovia Santo Antônio a tenente-coronel de infantaria. O grande feito militar do santo em terras brasileiras havia ocorrido no início do século anterior, com a invasão do Rio de Janeiro pelo almirante francês Duclerc em 1710. Quando a situação parecia insustentável, o governador Francisco Castro Menezes mandou que a imagem do santo fosse mostrada do alto do convento a ele consagrado (no hoje Largo da Carioca, centro do Rio de Janeiro), com a finalidade de apontar os caminhos aos que defendiam a cidade. O fato é que o que parecia perdido foi recuperado, e a cidade não passou para o domínio francês. Vale dizer que todas essas promoções militares recebidas eram acompanhadas de seus respectivos soldos, que aliás o santo só deixaria de receber quando foi “reformado” por um decreto do Marechal Hermes da Fonseca, logo após a proclamação da República.
"Santo Antonio de Pádua com Cristo criança", do artista barroco espanhol Antonio Pereda (1611 - 1678)



Aliás, foram muitas e criativas as “adaptações” de Santo Antonio na cultura brasileira. Já o padre Antonio Vieira, numa pregação em 1633, dizia em tom de advertência: “Se vos adoece o filho, Santo Antonio! Se vos foge o escravo, Santo Antonio! ...E talvez se quereis os bens alheios, Santo Antonio!”. Outro exemplo que ilustra esse “desencaminhamento” do santo pelas práticas populares encontramos no hábito de alguns senhores de engenho no Brasil colônia de invocar os préstimos de Santo Antônio para ajudar na captura de escravos que fugiam do cativeiro e dos maus-tratos de que eram vítimas nesse triste instituto que vigorou por muito tempo em nosso país que foi a escravidão. Não se podem também deixar de lado as “maldades” impetradas à imagem quando o devoto que ver seu pedido atendido. Uma das mais frequentes é a retirada do menino Jesus do colo de Santo Antônio, uma das mais comuns simbologias do santo. Acredita-se assim que, separado da bela criança, Santo Antônio haverá de aumentar seus esforços para que o devoto encontre o companheiro, já que deverá fazer de tudo para recuperar a honra de segurar o menino Jesus. Santo Antonio se transformaria no santo mais popular do Brasil, compondo a tríade de personagens cristãos celebrados em uma das maiores festividades profano-religiosas do mundo, como são os festejos joaninos. Uma devoção que, trazida pelos portugueses, permaneceu ao longo de todos os séculos da colonização e de abrangência em todas as regiões brasileiras. Mais que uma devoção ou artigo de fé, uma cultura.

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