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Primeira Infância: um conto da realidade brasileira



















Foram mais de sete horas refletindo e ouvindo as mais diversas opiniões e experiências acerca da Educação infantil e, sobretudo, da necessidade de universalização desse segmento em prol da qualidade, como garantia de uma base segura no desenvolvimento da primeira infância e nos resultados no rendimento escolar. Esse foi o cenário do seminário “Educação 360 Infância”, realizado em junho, com o apoio da TV Globo e do Canal Futura.

Na abertura do evento, a Chefe da Divisão de Educação do BID, em Washington, Emiliana Vegas atestou que os investimentos realizados na primeira infância devem ser o centro da estratégia de desenvolvimento de um país. Segundo Vegas, a parceria entre o ambiente familiar e atores do Governo federal, estadual e municipal é a base de um dos principais vieses para se chegar a bons resultados no desenvolvimento cognitivo e social na vida da criança de hoje e do adulto de amanhã.

Mas o que fazer quando nos deparamos com uma realidade brasileira em que apenas 10% das creches do país tem um padrão considerado bom e mais de 50% são tidas como de qualidade inadequada? “Podemos melhorar, selecionando bem os nossos profissionais; treinando melhor os mais novos; pagar melhor dependendo do desempenho que têm. E, por final, ter um sistema em que se precisar demita os professores ruins”, garantiu Vegas ao acrescentar que o olhar daquilo que está acontecendo em sala de aula é um fator determinante nessa busca qualitativa. “Não apenas avaliar o comportamento, mas também se a criança está confortável em seu aprendizado, medir como elas estão aprendendo para que se possa a partir dali alavancar subsídios para uma futura avaliação e acompanhamento de onde se pode melhorar”.

Já Daniel Santos, Professor Doutor da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da USP, questionou o ganho de quem faz a pré-escola versus aqueles que não a frequentam, ao falar que a educação infantil amplifica, em vez de diminuir, a lacuna da desigualdade social entre pobres e ricos. “Se os vulneráveis e os não vulneráveis se matriculassem na mesma creche, na mesma proporção o índice de desvio de padrão cairia em até 18%”. Essa responsabilidade, segundo Daniel, está também na qualidade das creches, no trabalho de formação e, sobretudo, na constante rotatividade que serve como barreira para o alicerçamento do vínculo necessário na Educação infantil.

“Crianças deveriam entrar nas creches a partir de 1 ano de vida”. Essa afirmativa feita pela Diretora Global de Educação Mundial e ex-secretária Municipal de Educação Claudia Costin trouxe à tona questionamentos não tão atuais sobre os desafios da Educação Infantil no Brasil. Para ela, precisa-se de uma política pedagógica clara, objetiva para as crianças da primeira infância.

Isto significa, segundo Costin, universalizar esse currículo e avaliar o desenvolvimento dos bebês numa visão integrada de saúde e educação, com detecção precoce de indicadores de autismo, por exemplo, feita até 2 anos de idade. “Um outro aspecto preponderante é capacitar os profissionais da Educação Infantil, uma vez que uma educação de qualidade custa caro”, disse a diretora lembrando que o professor tem que ser bem pago, não apenas por uma questão social, mas para atrair talentos.

Em sua fala o ex-secretário de educação do Ceará, Maurício de Holanda, afirmou que o desenvolvimento infantil, em especial das crianças de 0 a 3 anos, é uma grande oportunidade para rompermos o círculo da exclusão, empoderar famílias e agentes comunitários. Essa mesma visão foi compartilhada por Julia Ribeiro, da Unicef, que também acredita no fortalecimento dos municípios e gestores para mudar essa realidade atual da exclusão escolar no Brasil. “Atualmente são mais de 3 milhões de crianças e adolescentes fora da escola, com grande número de negros e indígenas, famílias de baixa renda e que vivem em zonas rurais. Qualidade é condição para a universalização do acesso”, garantiu Julia.

César Callegari, do Sesi-SP, também justificou seu discurso em prol de uma educação de qualidade destacando que não há educação de qualidade sem considerá-la prioridade em investimento. “Pois em um país em que 50% das crianças não estão alfabetizadas tem alguma coisa errada”, frisou Callegari em consonância com Larry Schweinhart, ao frisar que é possível produzir alunos melhores no início de suas vidas, com reflexo a longo prazo.

A sensação absorvida ao final do evento foi a de que, mesmo com 89% das crianças de 4 e 5 anos atendidas, segundo números mostrados pelos participantes, a meta de universalização da Pré-escola até 2016 ainda se mostra uma realidade distante para o país. Principalmente quando traduzimos em números essa porcentagem restante de 11%, ou seja, mais de 690 mil crianças não atendidas na pré-escola em diferentes situações regionais. Se a situação delas na faixa etária de 4 e 5 anos não é nada confortável, imagine a situação dos pequenos de 0 a 3 anos, em que apenas 30% conseguiram uma vaga em uma creche pública este ano.

A conclusão extraída dos números nos mostra que estamos cada vez mais longe de cumprir a meta do Plano Nacional de Educação (PNE) e quiçá conquistar a garantia da universalização desse segmento em prol da qualidade no desenvolvimento da primeira infância e nos resultados do rendimento escolar. Mas continuamos acreditando sempre, pois educação é um direito de todos!

Por: Antônia Lúcia Figueiredo

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