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Hans Staden: uma incrível história nas selvas do Brasil

Gravura pintada em 1505 por Johann Froschauer, uma das primeiras imagens do Brasil.

























Desde os primeiros contatos dos europeus com os povos nativos da América as imagens de estranhamento se destacam, levando os recém-chegados a uma série de visões e julgamentos com relação ao que encontraram. Dentre essas impressões uma salta aos olhos: a identificação de atos tidos como selvagens, com destaque para a prática, para os europeus abominável, da antropofagia. Em um dos primeiros textos escritos sobre o tipo de vida dos nativos do Brasil, Américo Vespúcio já destaca algumas características que impressionam os visitantes e descreve o costume dos indígenas de devorar seus semelhantes, situando-o entre os itens que poderiam comprovar a sua inferioridade cultural. Relatada como aberração ao lado de outros aspectos apontados como positivos, a antropofagia é encarada desde o início como um hábito altamente agressivo aos costumes europeus, mas seu impacto não inibe a ideia de paraíso e de oportunidade de reconstrução de uma ordem edênica a partir do “achamento” de um mundo novo.

Os costumes antropofágicos dos nativos do Brasil só seriam reforçados como um sinônimo de perigo e de inferioridade cultural a partir da chegada à Europa de outro relato, diferente dos primeiros, de autores cronistas como Caminha e do próprio Vespúcio. Falamos das impressões registradas por Hans Staden, o aventureiro prussiano, que viveria a experiência, até então pouco provável, de ficar em poder de povos nativos brasileiros e quase sucumbir vitimado pelos seus costumes antropofágicos. Capturado por tupinambás no Rio de Janeiro em meados do século XVI, acabou submetido a todas as etapas rituais que culminavam no ato final da execução e da consequente deglutição. O seu relato acabaria funcionando como um primeiro grande documento sobre hábitos de algumas culturas do continente, sobretudo pela forma detalhada e bastante minuciosa como Staden contaria sua experiência.

A narrativa afirma, por exemplo, o fato de o prisioneiro, que mais tarde seria submetido ao ritual, receber uma esposa e poder ficar no meio da tribo, sob vigilância mas sem nenhum grande constrangimento físico, partilhando do cotidiano. Por conta disso, pôde descrever aspectos da forma de vida dos tupinambás, como o modo como subsistiam e produziam seus alimentos, a maneira com que enterravam seus mortos e suas principais celebrações religiosas. Pôde também traçar estratégias para escapar, observando no dia a dia as possibilidades. Uma delas foi tentar convencer os índios de que era de origem francesa, aproveitando-se do seu biotipo alourado e de sua barba avermelhada. Fora detido e condenado ao ritual final por estar lutando ao lado de portugueses, naquele momento vistos como adversários pelos nativos. Staden usaria toda a sua vivência de aventureiro, habituado à convivência com indivíduos de vários povos europeus, para assegurar a seus algozes que procedia de um povo amigo. Seu maior sucesso adviria, porém, de uma outra estratégia: utilizou o deus cristão como forma de impressionar os indígenas, apresentando-o como dotado de poderes que os impressionaram e assustaram. Afirmou, por exemplo, que em represália a seu sacrifício o seu deus poderia castigá-los através de grandes catástrofes naturais, como tempestades grandiosas, que sempre amedrontavam os nativos, ou mesmo enviado as temidas doenças, que tantas vidas já haviam ceifado nas muitas epidemias do Brasil do século XVI. Certa ocasião seria bastante ajudado pela sorte. Resolvera colocar na frente da choça em que se achava recolhido uma cruz feita de galhos, que apresentava como um símbolo poderoso. Os índigenas não gostaram daquilo e resolveram tirá-lo dali, mesmo sob a advertência de Staden de que esse ato poderia desagradar o seu deus. Não demorou muito para que uma chuva que durou vários dias e impediu os nativos de tocarem suas plantações intercedesse em seu favor. Os índios passaram a temer o deus cristão e hesitaram em levar adiante as etapas de execução, até que um capitão dos aliados franceses chegasse na aldeia e os ludibriasse assegurando aos líderes a nacionalidade francesa de Staden.

Em 1555, o aventureiro desembarca de novo na Europa, onde o diário com as anotações dos apuros vividos nos quase dez meses como prisioneiro dos tupinambás começa a seduzir muita gente principalmente pelas imagens relatando a forma como os sacrifícios ocorriam. Em 1557, Duas Viagens ao Brasil, como seria intitulada a obra, é lançado e se tornaria um grande sucesso. Além da narrativa de fatos por si só impressionantes, o livro também apostaria fundo na divulgação de imagens, pois seria ilustrado com muitas gravuras desenhadas a partir dos quadros descritos pelo aventureiro. Apesar do tom que ressalta a visão da supremacia ou da superioridade da cultura europeia sobre a dos nativos, a obra de Staden traz alguns pontos de vista importantes para o conhecimento da cultura do continente. Um deles é mostrar que o antropofagismo dos tupinambás não era um simples ato de canibalismo, mas possuía significados culturais e religiosos. Tratava-se de uma cerimônia com certa organização, com etapas rígidas a serem cumpridas e que conferiam ao prisioneiro algo de dignidade, pois era considerado um ato de bravura se submeter ao ritual, ao ponto inclusive de os tupinambás acreditarem que, ao consumir o corpo de seus prisioneiros, estavam também absorvendo seus dotes de guerreiro e lutador.

Mesmo assim, a obra de Staden acabaria sendo uma espécie de divisor de águas, que caracterizaria uma postura cada vez mais assumida pelos países colonialistas europeus, a de que práticas culturais como as relatadas no livro atestariam a inferioridade dos “selvagens” e justificariam que povos “superiores” se lhes impusessem como salvadores e detentores do direito de comandar e explorar. Pelos séculos seguintes, outras frentes colonizadoras além da América apostariam numa estratégia de enfatizar o suposto caráter de barbaria nos povos dominados. Ficariam banalizadas em livros e mais tarde em veículos como o cinema e a televisão as imagens de europeus sendo capturados por nativos e submetido a costumes canibais. Pintados como dispostos à violência e a atos selvagens, autóctones de outros continentes pareciam mostrar que requeriam de culturas “superiores” ações enérgicas, como a repressão física ou mesmo as guerras.

Mesmo se tratando de uma obra de forte cunho documental e, ainda que dotada de certos exageros, de um interessante conteúdo humano (o aventureiro não hesita em falar do medo e do pavor que sentiu), o livro de Hans Staden colaboraria para espalhar a visão de que o poder de culturas invasoras poderia ser justificado, motivando processos de dominação cultural, seja pela força das armas ou pela eficácia da mensagem cultural ou religiosa.


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