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Os "línguas", os primeiros tradutores do Brasil

Jesuítas aprenderam a se comunicar com índios brasileiros.





























Quando, em 1549, os primeiros religiosos jesuítas chegaram às terras do Brasil, provavelmente jamais tinham imaginado o que encontrariam e, principalmente, o tipo de civilização que ajudariam a fundar. Se para converter à fé católica na Ásia e na África tinham que aprender a falar e escrever na língua dos futuros cristãos, como rezavam os métodos jesuítas, para realizar semelhante trabalho com os nativos do Brasil teriam que participar de uma experiência linguística ainda mais radical. Além dos mais de trezentos idiomas que eram praticados pelas várias nações indígenas, havia o fato de todas serem culturas de tradição unicamente oral. O que era um grande problema para os objetivos da catequese cristã, já que se tratava de uma religião baseada numa escritura.

Essa língua base atendia às necessidades de comunicação dos habitantes da então incipiente colônia que, além de milhares de nativos da terra, reunia também alguns poucos estrangeiros, em sua maioria portugueses, que ali tinham chegado como náufragos, degredados ou aventureiros, uma já bem heterogênea população que utilizava a chamada língua brasílica para se comunicar, não obstante os idiomas próprios de cada grupo indígena continuarem a ser empregados nas relações domésticas. Na verdade, tratava-se de um dialeto que reunia dois troncos linguísticos principais, o tupi e o guarani. Ao longo da costa brasileira, as inúmeras nações indígenas praticamente se dividiam nesses dois grupos, formados por etnias autônomas, mas que conservavam traços linguísticos e culturais muito próximos entre si. Essa herança linguística foi o que encontraram os primeiros jesuítas que aqui chegaram. Mas, ao empregá-la em suas atividades missionárias, acabariam colaborando para que, séculos mais tarde, se estabelecesse uma modalidade da língua portuguesa que haveria de atender às necessidades de comunicação de mais de duzentos milhões de pessoas.

Mas essa história envolvendo a língua-geral e a catequese jesuítica seria formada à custa de muitas dificuldades para os primeiros missionários. Sem nenhum conhecimento prévio acerca de como se comunicar com os nativos da terra, teriam de recorrer às poucas fontes de que dispunham. É aí que entram em cena os “línguas”, como passaram a ser chamados, criaturas um tanto misteriosas para os religiosos, em virtude dos hábitos já há muito adquiridos com a vivência dentro das tribos indígenas. Nos primeiros tempos da catequese jesuítica, um “língua” era algo extremamente valioso, de preferência se pudesse ser também um bom cristão. Mas à medida que o trabalho missionário avança em terras brasileiras, os padres vão aperfeiçoando suas formas de comunicação, que inicialmente era apenas oral. É quando essa fase, pode-se dizer “romântica”, dos primeiros “línguas” é superada, dando lugar a um novo período da missão catequética.

Enquanto não era possível atingir a situação desejada, de todos os irmãos dominarem bem a língua da terra e poderem atuar diretamente com os índios, os missionários iam avançando por meio de alguns recursos que tentavam explorar. Dentre eles estava o de empregar crianças nas tarefas da catequese. Foi sobretudo para elas que foram fundados os vários colégios jesuítas do Brasil, para “criar meninos do gentio”, no dizer de Nóbrega. A ideia corrente era a de que os pequenos seriam o caminho mais fácil para empreender a catequese em larga escala, pois, uma vez educados e catequizados, funcionariam como instrumentos de conversão para os adultos, segundo os padres, muito impregnados de seus “maus costumes”. Para facilitar a preparação dos pequenos filhos da terra, os jesuítas chegaram a trazer da Europa meninos órfãos que viviam em instituições da Ordem espalhadas por Portugal. Houve também a tentativa de se utilizarem mamelucos, aproveitando seu parentesco com portugueses, mas não foram muitos os que responderam satisfatoriamente, até porque mal conheciam a língua de seus pais.

Não era fácil reunir a condição de “língua” aos atributos necessários para desempenho da tarefa de catequese. Afinal, isso implicava, às vezes, a prática de elementos fundamentais para a liturgia católica, como as confissões. Era inevitável que os “línguas” ouvissem os confidentes e traduzissem para o padre, em seguida ouvindo destes e transmitindo de volta. Esse método, aliás, uma adaptação promovida pelos jesuítas para viabilizar a catequese enquanto não havia bom domínio da língua, foi objeto de algumas contestações por parte de outros religiosos, não envolvidos diretamente no trabalho com os índios, até porque também apareciam mulheres e crianças realizando essa função, o que lhes parecia uma confusão do ritual cristão com o dos “da terra”.

Mas o caminho natural da missão era avançar para o estabelecimento de um corpo de “línguas” formado pelos próprios religiosos, especialmente talhados para as exigências da difícil empreitada que era evangelizar os habitantes da colônia. E isso não demorou a acontecer, mediante algumas medidas ligadas à própria formação do sacerdote nas congregações que os jesuítas fundaram para preparar novos irmãos. O ensino da língua grega, obrigatório na formação tradicional dos inacianos, poderia ser deixado de lado para aqueles seminaristas que se dedicassem a estudar a língua-geral. Para tal, tinham que imergir numa vivência nas tribos, pois inicialmente não havia nenhum método estabelecido para o ensino da língua.

A situação só começa a ficar favorável aos objetivos jesuítas quando aparecem os primeiros métodos que permitiam sistematizar o aprendizado da língua-geral. A dificuldade inicial residia sobretudo no fato de que, para criar um método para ensinar o idioma, seria necessário desenvolver uma escrita, algo que absolutamente não existia para os índios. Ainda nos primeiros anos da catequese jesuítica, o irmão Juan Azpilcueta Navarro encontra em Porto Seguro um português conhecedor da língua-geral capaz de traduzir conceitos cristãos. Graças a ele apareceram as primeiras composições escritas retratando sermões, rezas e elementos da liturgia católica. Com isso já era possível a alguns padres – e não mais exclusivamente a outros tipos de “línguas” – catequizar comunidades indígenas na sua própria língua. Os missionários memorizavam essas composições e às vezes até sermões inteiros e os levavam como mensagem cristã aos índios

Em torno de 1555 aparece o primeiro grande tratado escrito sobre a língua-geral, a “Arte de gramática do tupi”, que José de Anchieta escreve a pedido do superior Manoel da Nóbrega. Cinco anos depois o método já era obrigatório para os irmãos que se formavam nos colégios da colônia. É necessário lembrar que essa primeira gramática, destinada a orientar o aprendizado da língua-geral pelos missionários, é concebida tendo como parâmetro as obras escritas em latim e voltadas para o exercício da oratória religiosa, o que inclui toda uma arte de palavras e efeitos retóricos direcionados para seduzir e encantar quem as recebe. A língua-geral, até então língua prática e oral, começa aí a ter o seu curso alterado, assim como a visão de mundo dos naturais da terra. Esse movimento é decisivo para a catequese jesuítica na América e para o destino dos indígenas. Isso porque, a partir da institucionalização das gramáticas em língua-geral, ser um “língua” falante não era mais requisito principal para atuar nas frentes missionárias. O que importava na realidade era ter aprendido o idioma por meio do método preconizado pela gramática, o que significava poder construir pregações e criar pelo discurso, seduzindo a quem ouvia.


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