Pular para o conteúdo principal

Quando uma causa se converte em projeto de cultura

"Abolição dos Escravos no Ceará", do artista plástico cearense Raimundo Cela (1890-1945).






















Desde o início da segunda metade do século XIX a economia da província do Ceará começa a adquirir contornos que a diferenciam dos padrões de produção vigentes na região Nordeste do Brasil. Geograficamente fora do circuito da produção açucareira, os cearenses ainda teriam sua capacidade produtiva profundamente afetada pela terrível seca que assolou a região em torno da década de 1870.

A essa situação se somavam outros aspectos referentes à economia nacional. É que, por um lado, as muitas restrições ao tráfico negreiro haveriam de diminuir a oferta de cativos no país e, de outro, a intensa produção cafeeira no Sudeste brasileiro cada vez mais necessitava da mão de obra escrava para suprir suas demandas produtivas. O resultado desse quadro é que o Ceará veria na atividade de venda doméstica de cativos uma fonte de renda importante para a subsistência da província, que em 1880 havia se convertido na maior fornecedora de escravos para outras partes do país.

Cada vez menos dependente do trabalho servil e ingressando pelo caminho de outras atividades geradoras de riquezas, começa a surgir na província espaço para a introdução de novas diretrizes, dentre as quais se encontra a luta abolicionista que, como em todo o país, já era travada ao longo das últimas décadas, sem no entanto obter maiores sucessos justamente em função da grande demanda por trabalho escravo para a economia. O ano de 1881 pode ser compreendido como um grande marco na luta pelo fim da escravidão no Ceará. É quando o objetivo de extinguir o trabalho cativo completamente das terras da província entra definitivamente para a agenda dos militantes abolicionistas.

Um dado emblemático desse processo seria o documento firmado nesse ano pela Sociedade Libertadora Cearense, uma das mais combativas entidades envolvidas na luta pela liberdade dos escravos, que assim sinaliza sua disposição de encarar a questão de forma resoluta. Através de métodos nem sempre lícitos de promover sua militância, não hesitaria em se lançar a ações como o rapto de escravos e até estratégias empregando violência.

Mas o movimento abolicionista do Ceará não tarda a constatar a viabilidade de outros rumos para a luta contra a escravidão. Com a diminuição drástica dos meios de produção ligados à atividade rural, aos poucos se estabeleceria um caminho para outras atividades, como a mercantil, que naturalmente enfraquecia o poder das antigas oligarquias locais e abria espaço para uma mentalidade liberal. Além disso, a ênfase em atividades ligadas ao comércio atraía para a província gente vinculada a outros horizontes culturais, como advogados, representantes comerciais e mercadores, para as quais a presença do trabalho escravo se revelava uma condição inconcebível.

O resultado é que a causa abolicionista cada vez mais se afasta da iniciativa isolada de grupos mais radicais e verve revolucionária e passa a figurar como um objetivo promotor da província como um lugar capaz de se notabilizar por valores renovados e de representar um novo modo de vida no país. Em outras palavras, a abolição da escravatura passa a ser uma causa coletiva, com a qual os cearenses esperam promover a sua província no horizonte de um Brasil maior, ombreado às grandes nações do planeta.

Uma prova dessa disposição é a fundação da Centro Abolicionista 25 de Dezembro, que nasce com a missão expressa de lutar pela abolição, diferenciando-se porém dos métodos muitas vezes ofensivos às leis do país praticados por grupos abolicionistas de primeira hora. No manifesto que marca a fundação da entidade aparece claramente a disposição pacífica das atividades, inclusive citando processos abolicionistas em outros países, nos quais o fim da escravidão seria obtido à custa de muitas desordens e turbulências, como ocorreria na América do Norte.

Ao contrário, uma grande característica do abolicionismo cearense seriam as muitas festas públicas organizadas para comemorar – e alardear – conquistas importantes do movimento. O caráter pioneirístico da extinção da escravidão em terras cearenses era sempre evocado ajudando a fortalecer o projeto de “civilização elevada”, que cada vez mais se fortalecia na província. Essa intencionalidade ficaria bem evidente na festividade promovida para celebrar a inexistência de escravidão da capital.

Em janeiro de 1883 a Assembleia Legislativa de Fortaleza resolve estipular o dia 25 de maio como data limite para que a cidade se declarasse absolutamente livre da escravidão, aproveitando ser essa data aquela em que o país celebrava um outro importante feito: sagrava-se definitivamente vitorioso da Guerra do Paraguai, feito para o qual concorreram vários filhos da terra. Para tal, toda a capital do Ceará foi mobilizada para atingir o intento, o que incluiu verdadeiros mutirões para viabilizar a meta, como a coleta de doações para a compra dos últimos escravos que restavam e até a tentativa de convencer os poucos proprietários a alforriar gratuitamente seus cativos.

Mesmo antes de Fortaleza vários municípios da província se apressavam em obter as condições de total ausência de escravos com a finalidade de poder anunciar em grandes festividades públicas o pioneirismo dessa conquista que, no discurso de promoção da província, representava a glória de ingressar num alto padrão de civilidade. Apesar da relevância do acontecimento, não se pode deixar de apontar que, assim como em todo o país, pouco se faria no Ceará para a melhoria das condições e de inclusão do ex-cativo.

As festas para celebrar os feitos abolicionistas, contudo, se tornariam uma grande marca do movimento pela extinção da escravidão no Ceará, o que daria, além da visibilidade, o reconhecimento de outras partes do país, a começar pela corte, lugar onde a luta abolicionista seria decisiva para o desfecho da situação. Os intelectuais do Rio de Janeiro, em sua intensa atividade jornalística, não perderiam a oportunidade de aproveitar as festividades cearenses para turbinar a opinião pública da corte. Em 1883 é publicada na capital federal a primeira edição de um jornal editado pela colônia de cearenses que viviam na corte, voltado para a abordagem das atividades abolicionistas.

Nesse número inaugural, muitos vultos das letras nacionais radicados no Rio de Janeiro apareceriam como colaboradores. Um Machado de Assis, muitas vezes acusado de indiferente à causa abolicionista, escreveria: “A escravidão é a mancha negra. O Ceará inventou a mancha crystallina”. Outro expoente, Aluisio de Azevedo, deixaria também o seu timbre ao afirmar “Se o Rio de Janeiro é a capital do Brazil, o Ceará é a capital dos brasileiros”. Angelo Agostini estampa na capa de sua Revista Illustrada a litogravura de Francisco Nascimento, o popular Chico da Matilde, líder dos jangadeiros cearenses que, ao se negarem a conduzir escravos em suas embarcações, inviabilizariam o tráfico de seres humanos para o sul do país. O Dragão do Mar, como viria a entrar para a história, era assim transformado num ícone nacional do movimento abolicionista, sendo a sua figura de “homem do povo” bastante utilizada para enfatizar o caráter generalizado do abolicionismo cearense.

As festas realizadas na província para celebrar o fim da escravidão seriam assim capitalizadas pela causa abolicionista em todo o país. Os frutos culturais não tardariam a aparecer. Com esse nefando instituto sendo abolido em todo o Brasil, o Instituto do Ceará, fundado em 1887, tomaria o caminho de usar o pioneirismo abolicionista da província para a construção daquilo que se poderia chamar “um jeito cearense de ser”. As pesquisas e trabalhos ali produzidos haveriam de manter sempre acesa a chama do combate à escravidão naquelas terras e seriam um dos principais motivadores de um consenso histórico sobre o papel da província nessa conquista de importância nacional, figurando desde cedo nos livros escolares e suprindo todos os cearenses do orgulho pioneiro de uma terra de liberdade.

Se você gostou desse texto, deixe seu comentário, compartilhe com seus amigos e curta a página: facebook.com/arteseletras2016




Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Pedro II abre concurso federal para professor

Segue até o próximo dia 17 as inscrições para o concurso para preenchimento de vagas para novos professores no tradicional Colégio Pedro II. São 14 cargos efetivos nos ensinos Básico, Técnico e Tecnológico. Além disso os organizadores aproveitam para criar um banco de reservas para cada disciplina oferecida.
As inscrições são somente virtuais pelo site www.cp2.g12.br. Após preencher a ficha é necessário imprimir a GRU - Guia de Recolhimento da União - e efetuar o pagamento da taxa no valor de R$ 160,00. O concurso terá validade de 1 ano e poderá ser prorrogado por igual período.
Pertencente ao Governo Federal, o Pedro II é o terceiro colégio mais antigo do país ainda em atividade, depois do Ginásio Pernambucano e do Atheneu Norte-Riograndense. O Pedro II tem 13 mil alunos que estudam em 14 campi, sendo 12 no município do Rio de Janeiro, um em Niterói e um em Duque de Caxias, além de uma unidade de educação infantil.
Salário pode dobrar com titulação profissional O salário básico é de R$ 4…

Passo a passo para utilizar o Benefício Boa Viagem

Olá, associado! Ainda tem dúvidas em relação ao Benefício Boa Viagem? No post de hoje vamos esclarecer essas questões e ainda mostrar o passo a passo de como utilizar este benefício.
1 – Leia o Regulamento O primeiro passo é ler o regulamento e ficar atento às regras, cláusulas e condições do benefício. O regulamento está disponível em: http://www.appai.org.br/beneficio-boa-viagem.aspx
Site da Appai → Benefício Boa Viagem → Regulamento

2 – Pousadas Conveniadas O associado e beneficiário, regulares na Appai, deverão verificar os hotéis e pousadas no Guia do Associado ou em nosso site e fazer a sua escolha. São diversas opções de roteiros, que vão desde a calmaria da região serrana até as mais belas praias do Estado do Rio de Janeiro.
Site da Appai → Benefício Boa Viagem → Destinos e Pousadas

3 – Reservas Depois de escolher o destino e a pousada de sua preferência, o associado e/ou beneficiário deverão entrar em contato diretamente com o estabelecimento conveniado para fazer a reserva de estad…

A fotografia e o poder da imagem no mundo moderno

Da pintura como única forma de reproduzir o que os olhos presenciavam até as modernas maneiras de registrar a realidade, a fotografia descreveu uma trajetória cercada de muitas discussões a respeito do lugar que essa atividade deveria desempenhar no cotidiano das pessoas e no engrandecimento da cultura. O inventor francês Louis Daguerre foi o primeiro a criar algo que sugerisse a substituição dos artistas como forma de reproduzir visualmente a realidade. Em 1839 é anunciado o daguerreótipo, o primeiro ancestral das máquinas fotográficas. Na verdade muitos pesquisadores autônomos já haviam trabalhado e obtido alguns êxitos em desenvolver maneiras de reproduzir a imagem.
O mérito de Daguerre foi desenvolver uma máquina que dava início ao que iria se transformar numa das características que mais colaborariam para a popularização do ato de retratar: a possibilidade de cada pessoa poder utilizar sua própria câmera e produzir suas imagens, em substituição à habilidade individual de artistas …

Prestigiar o professor é o grande barato desta bienal

Conheça o trabalho de professores como você, participando das nossas tardes de autógrafo. Serão mais de 30 autores de diversos gêneros, como o colunista do blog da Appai e revisor da Revista Appai Educar, Sandro Gomes.

As três edições do Altos Papos já estão com inscrições abertas na página da Educação Continuada no Portal do Associado. Leia atentamente as condições de horário e transporte antes de confirmar sua presença.
Aproveite a visita e “seja capa” da Revista Appai Educar. Marque suas fotos com #SouAppai e apareça em nosso Facebook.
E ainda divirta-se em nosso espaço interativo e conheça um pouco mais sobre a appai.
PROGRAMAÇÃO COMPLETA


A construção da imagem de Tiradentes

Uma abordagem básica possivelmente revelará que Tiradentes é o herói preferido dos brasileiros, ficando à frente de nomes de grande apelo popular, como o líder Zumbi dos Palmares ou o arrojado D. Pedro I. Apesar de a história popularmente divulgada do Mártir da Inconfidência estar repleta de elementos de valor universal, como os ideais de liberdade e justiça, o fato é que a boa imagem do inconfidente é fruto da tentativa de acomodar esse momento da história aos objetivos de quem esteve nas proximidades do poder.
Foi na República que a imagem de Tiradentes começa a ser trabalhada de forma consciente e intencional. O movimento militar, de base positivista, que derrubou a Monarquia tinha em mente o objetivo bem explícito de atuar no imaginário da população, reduzindo a influência que o sistema colonial imprimira ao longo de mais de três séculos. Tiradentes era alferes, lutava pela instalação de um regime republicano e único condenado à morte na conspiração. Elementos, portanto, bastante i…