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Quantos são quatro mais três? Pensando fora da calculadora…


Na coluna da semana passada conversamos sobre a diferença entre Competência e Desempenho, baseados nas ideias do sábio Moretto*. Hoje vamos dar sequência ao tema destacando para o modelo criado por Vasco Moretto para explicar o conceito de competência aplicada aos professores. Como Vasco é adepto das ideias do estudioso russo, Vygostsky, ele chamou o seu trabalho (de forma criativa e humorada) de Modelo Waskowsky Morettowsk, para homenagear o russo.

Observe a imagem que representa o Modelo de Vasco:



Para que eu possa explicar o modelo Waskowsky Morettowsk, vamos recordar o conceito de competência elaborado pelo próprio Moretto. Competência é “a capacidade de um sujeito de mobilizar recursos visando abordar e resolver situação complexa”. E é o próprio Moretto que pergunta e responde: Quais são as situações complexas que o professor necessitará resolver em sua profissão? São três: Planejar aulas, Ministrar aulas e Avaliar a aprendizagem. Ele enfatiza que é preciso que o professor seja competente nessas três situações complexas. Mas, para resolver as situações complexas, ele necessitará desenvolver alguns recursos, que conforme o modelo de Moretto são cinco. O primeiro deles é: 1) CC=Conteúdos Conceituais, isto é, o professor precisa dominar os conteúdos, portanto não pode parar de estudar, precisa estar sempre se atualizando, pois a sociedade mudou, os alunos mudaram, o contexto está em transformação constante! Se você estuda sempre, mantém o desenvolvimento da sua competência. Ele ressalta que: “Aprender é construir significados” e “Ensinar é oportunizar essa construção”. Importante compreender que aprender bem envolve ser um “gestor da informação e não um mero acumulador de dados”.

O segundo recurso é: 2) H=Habilidade, que é um componente da competência. Moretto pergunta: “Se eu desenvolver uma quantidade enorme de habilidades serei competente?”. E a resposta é: “Não”. Habilidade significa “saber fazer”, porém a competência é algo mais amplo, pois requer de você pensar e fazer. Vamos abrir um parêntese aqui. Moretto ressalta que a escola que frequentamos privilegiou, e muito, o desenvolvimento de habilidades e não da competência, e por esse motivo estudamos, por exemplo, o que são números primos (decoreba) e não sabemos nem o que é e muito menos para que servem. Habilidade por si só não desenvolve competência.

Ele apresenta, então, o próximo recurso necessário ao desenvolvimento de competência para o professor: 3) L= Linguagem. Esse atributo encerra um pilar muito importante, que é: “Nenhuma palavra tem sentido em si mesma, quem lhe dá o sentido é o CONTEXTO no qual é utilizada. E, para ilustrar a sua fala, Moretto nos dá um exemplo. Ele apresenta uma frase e pede que você a pontue com duas vírgulas e um ponto, dando sentido a ela. Observe-a sem a pontuação completa: “Maria toma banho porque sua mãe disse ela que pegue a toalha”. A frase sem a devida pontuação está sem sentido!

Agora, observe a sentença pontuada corretamente e perceba a diferença: “Maria toma banho porque sua (suor). Mãe, disse ela, pegue a toalha”. Esta brincadeira com as frases nos mostra que a palavra só tem sentido no contexto. Por isso, a linguagem (o que falo e como falo) faz toda a diferença para o aluno. Um dos maiores problemas com a linguagem acontece em momentos avaliativos, em que o professor faz uma pergunta ampla, sem contextualização, esperando a resposta do que não perguntou. Exemplo disso é a seguinte pergunta, feita por uma professora para uma prova: “Como é a organização das abelhas numa colmeia?”. As respostas foram as seguintes: É ótima; É joia; É maravilhosa. De fato, o que a professora queria saber era: Escreva a função de, ao menos, quatro grupos de elementos da colmeia. Portanto, é preciso pensar bem como comunicar esse conteúdo, a linguagem é fundamental!

O quarto recurso que precisamos para desenvolver competência são: 4) VC=Valores Culturais. O professor precisa buscá-los naquele contexto em que vive. Moretto destaca que: “Os valores culturais estabelecem âncoras para a linguagem e para a construção de representações. Toda situação complexa está relacionada a valores culturais, que devem ser analisados, compreendidos e respeitados. Deles derivam a ética e a moral dos grupos sociais”.

E, por fim, o quinto recurso necessário ao desenvolvimento de competência para o professor: 5) AE=Administração do Emocional. É fundamental saber lidar e administrar o seu emocional. Aquele que não se conhece e não sabe como controlar o seu emocional pode levar a cabo a sua competência. Vasco ilustra a explicação dando exemplo de um jogador de futebol que treina muito, mas na hora da jogada perde a cabeça, chuta o adversário, recebe falta, acabando por perder a jogada.

E, para finalizar a explicação do Modelo Waskowsky Morettowsk, temos na imagem um último elemento ainda não apresentado, que são os “e” espalhados por toda a área, como uma espécie de pano de fundo do desenvolvimento de competência. Sim, é exatamente esse o sentido do “e” de ética profissional. Moretto afirma que você pode ter conhecimento, habilidade, linguagem, valores culturais, pode administrar o emocional, porém, se não tiver ética, pode desviar a competência pra um caminho errado, negativo. Exemplos de pessoas com grande potencial, mas sem ética, não faltam. Então, para desenvolver competência, conforme o modelo de Vasco Moretto, é preciso investir ao mesmo tempo nos cinco recursos apresentados tendo como pano de fundo a ética, que se configura como o respeito pela profissão.

E, para finalizar a nossa conversa, vamos matar a charada proposta no título dessa coluna, aliás feita pelo próprio Moretto: Quantos são quatro mais três? Se desenvolvermos apenas a habilidade de usar a calculadora, responderemos que são “sete”, resposta óbvia, porém, para quem desenvolveu competência, haverá outras maneiras de responder. Uma delas você mesmo pode experimentar: dê quatro passos iguais em linha reta, da esquerda para a direita, isto é, você andou quatro passos em linha reta. Agora retorne pelo mesmo caminho, dando três passos em direção ao ponto de partida. E a pergunta é: Quanto são quatro mais três, nesse caso? Resposta para charada: um, isto é, quatro passos de ida, três de volta, no mesmo caminho. Resultado: um passo. Pensando fora da calculadora

Gostou da abordagem? Na próxima semana voltamos com mais conteúdo e aprendizagens pra você. Até lá!

Vasco Moretto é mestre em Didática das Ciências – Univ. de Laval – Québec – Canadá. Também é um estudioso que se debruçou sobre o tema Competência na escola.

Comentários

  1. Ótima abordagem. Outras maneiras de olhar, ter mente aberta.

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  2. Abordagem muito interessante e dinâmico, gostei!

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    Respostas
    1. Leandro, fico muito grata pela sua participação😉.

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    2. Parabéns Andréa,gostei muito da abordagem.

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    3. Obrigada por participar, Claudia Nagaki.

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  3. Parabéns Andrea!! Assunto oportuno e atual, não somente para a sala de aula. Em especial quando falamos sobre administrar nosso emocional. Cada vez mais precisamos aprender sobre como administrar aquilo que comunicamos e aquilo que recebemos. Muitos problemas ocorrem por falha na comunicação, isso porque em geral, na sala de aula estamos lidando com gerações diferentes. São valores e pensamentos divergentes que precisam ser alinhados, e quem deve fazer essa mediação é justamente o professor.

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  4. Obrigada, Maristela. O seu comentário faz todo o sentido, o emocional é parte fundamental nesse processo.

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