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O turbulento século XVII brasileiro


O século XVII seria o da consolidação da presença portuguesa no Brasil. Com o avanço de instituições colonizadoras em praticamente todo o país, seria necessário também tratar de remover de alguns pontos tentativas de fixação nas terras, iniciadas por outras Coroas, como foi o caso dos franceses no Rio de Janeiro e no Maranhão e principalmente dos holandeses no litoral da capitania de Pernambuco.

Os conflitos que culminaram na expulsão dos holandeses aconteceram no rastro da Restauração portuguesa, em torno de 1640, quando Portugal derrota tropas da Espanha, recupera sua autonomia e as energias então se voltam para a preocupante presença batava em Pernambuco. Durante o tempo em que a Coroa espanhola exerceu sua soberania sobre Portugal, muitas questões referentes à colônia brasileira ficaram em segundo plano. Envolvida em muitas querelas durante aqueles tempos, os espanhóis minimizavam a ocupação holandesa no nordeste brasileiro. O sentimento português, ao contrário, era de grande indignação, pois, mais que uma disputa territorial, estava implicada uma preocupação que dizia respeito à própria Igreja, na medida em que a presença holandesa era também uma presença calvinista.

Os holandeses, que se fixaram em Pernambuco por volta de 1630, organizaram um tipo de colonização bem diferente do instalado por Portugal e, aos olhos de muitos, mais promissor por evitar certos ranços que dificultavam o desenvolvimento na colônia. O nobre Maurício de Nassau, colocado no comando da empreitada pela Companhia das Índias Ocidentais, empresa criada para a exploração colonial, desfrutava de bastante prestígio entre a população local e dava a aparência de que a vida naquela parte do país transcorria de forma harmônica, sobretudo porque havia um clima de certa liberdade religiosa.

Em 1643, no entanto, é deliberado seu retorno à Europa, e o modelo de exploração colonial que é imposto por seus substitutos não faz mais que reproduzir os quadros de autoritarismo e violência já conhecidos na colonização ibérica. O resultado foi a insatisfação geral por parte da população, o que criou o clima para insurreições e questionamento da ordem. Assim, o vigor recuperado pela Coroa portuguesa restaurada ajudaria para que a crença na possibilidade de expulsar os holandeses fosse cada vez maior.

A igreja, uma das forças mais atuantes naquele Brasil do século XVII, tratou de atuar nos bastidores enquanto as batalhas campais avançavam por terras pernambucanas. Interessados em manter a hegemonia portuguesa e prosseguir na obra catequética, os religiosos tinham, porém, muita cautela quanto a uma possível presença da Inquisição em terras brasileiras. Atuando a todo vapor na Europa e sediado nos países ibéricos, havia o risco de que o Santo Ofício despertasse para a iminente vitória portuguesa, pois sabia que, durante o domínio batavo, muitos cristãos novos e até mesmo judeus declarados, além de calvinistas, viviam livremente em Pernambuco.

Uma atuação mais presente dos inquisidores preocupava principalmente os jesuítas até por razões da própria visão religiosa mantida pela Ordem. Enquanto o Santo Ofício agia sempre obcecado pela ideia de pureza da fé católica, os inacianos tendiam a promover um tipo qualquer de adaptação da doutrina católica à fé dos catequizandos, criando muitas vezes uma religiosidade singular em cada lugar em que instalavam seus núcleos missionários. Além disso, eram muitas vezes tolerantes com protestantes e judeus, por manterem a crença de que poderiam converter os indivíduos dessas religiões para o seio da Igreja. O padre Vieira, por exemplo, se destacaria por enfrentar a Inquisição ao manter alianças com judeus portugueses, que acreditava serem úteis à causa da Restauração, questão que o jesuíta julgava de suma importância, posição que lhe valeria a alcunha de “amigo dos judeus”.

Em 1654, após muitas e sangrentas guerras, já não havia mais muitos vestígios da presença holandesa no Brasil. Mas algumas consequências restaram dos anos em que os batavos se instalaram em Pernambuco, principalmente em função de uma certa simpatia, por parte da população daquela região do país, pelo tipo de colonização que foi implantado por ali. Os conflitos que quase simultaneamente ocorreram nas capitanias do Norte também ajudaram para que se acendesse uma espécie de sinal vermelho quanto à insatisfação geral com os rumos da colonização.

Como defensores da fé, mas também do Império, os jesuítas haveriam de concentrar suas forças sobre o que poderia ser visto como um risco para a integridade das possessões portuguesas. Entre esses movimentos estava o de Palmares, à época pertencente à capitania de Pernambuco. Naqueles meados do século XVII, as fugas de escravos negros para a Serra da Barriga haviam aumentado consideravelmente, em função principalmente da substituição de Maurício de Nassau no comando da administração holandesa. Com a chegada dos novos gestores, os métodos de condução dos escravos nas fazendas e engenhos se revelaram mais cruéis do que aqueles praticados pelos próprios portugueses. Durante a Insurreição a situação ficaria ainda pior, pois, além do trabalho compulsório, os cativos eram forçados a lutar numa guerra cujo único estímulo era a manutenção da própria vida.

A recuperação das possessões onde estavam instalados os holandeses passou pela revitalização da catequese, que buscou expandir-se mais, a fim de firmar a presença portuguesa e cristã. Nesse projeto, era necessário confirmar os ideais católicos para os índios e também para os africanos, pois muitos deles haviam lutado ao lado dos batavos, em troca de liberdade ou da promessa de melhores condições de vida. Os religiosos, naquele Brasil em turbulência, talvez tivessem percebido antes de todos que naturais da terra e africanos seriam uma realidade cada vez mais presente e inseparável daquela colônia que um dia se tornaria uma nação.

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