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Um conflito entre dois mundos no sul do Brasil

Obra do pintor catarinense Willy Alfredo Zumblick (1953) retratando a heroína Maria Rosa

Pouco mais
 de 10 anos depois do conflito de Canudos, uma outra grande revolta camponesa, agora no sul do país, voltaria a tocar na eterna questão da posse de terras no Brasil. Assim como ocorreria na resistência liderada por Antonio Conselheiro, as turbulências sociais da região do Contestado tinham um pano de fundo comum: a nova ordem de coisas instituída pela então jovem república brasileira. O nome se daria em função de as terras que serviriam de cenário aos terríveis episódio de violência se situarem nos limites de Paraná e Santa Catarina, sendo contestadas pelos dois estados. Em virtude dessa disputa já de muitos anos, que cada vez mais acirrava essa rivalidade, a região já vivia em permanente estado de tensão, pois coronéis e suas tropas frequentemente entravam em combate, mesmo com a questão já tendo sido encaminhada para a resolução do governo federal.

Mas não viria da disputa entre estados vizinhos a maior motivação para os graves conflitos que ocorreriam pelos anos seguintes. Uma quantidade muito grande de terras havia sido repassada pela união para o milionário estadunidense Percival Farquart, que deu início há vários empreendimentos no país, como a ferrovia Madeira-Mamoré na fronteira com a Bolívia. Ali no sul do Brasil o empresário investiria na construção de uma grande estrada de ferro. As terras a ele cedidas, que abrangiam partes dos dois estados adversários, eram antes ocupadas por muitos colonos, camponeses pobres, que retiravam dali seu sustento em regime de economia de subsistência. Expulsos de seu lugar de origem, começariam a migrar para outras localidades, carregando seus parcos pertences e levando junto o fardo de revolta contra a perda de seu pedaço de chão. Nesse cenário, muitos deles, já de alguma forma participantes das lutas envolvendo seus estados de origem, se mostrariam em condição propícia para lutar contra as opressões e os poderes que se impunham na região, sejam o do capital de grandes empreendimentos, seja o dos coronéis da região.

O fermento que faltava nesse quadro seria o mesmo que daria suporte ao conflito de canudos: o forte componente religioso, que permitiria a eclosão de lideranças messiânicas que conduziam os camponeses para a luta, baseados numa suposta intervenção divina em favor dos pobres e injustiçados. A grande figura do messianismo no Contestado seria o beato José Maria. À frente de um extenso grupo de camponeses expulsos das terras em que viviam, o religioso decidiria por assentar as pessoas na localidade catarinense de Taquaruçu, de onde não demorariam a ser expulsos por um coronel da região temendo conflitos em seus domínios. Os agricultores então se deslocaram para outra cidade, Irani, já na região contestada. A chegada dessa multidão de pessoas seria tomada como uma investida dos paranaenses para se ocupar de novos quinhões, motivo pelo qual sofreriam um rude ataque, que redundaria em muitas mortes, incluindo o grande líder, José Maria. Os que restaram não desistiriam. Tornariam a se organizar e tomariam o ataque, não como parte do conflito entre os estados, mas como mais um episódio de repressão dos poderosos sobre a população de camponeses pobres. Os inúmeros conflitos na região e outros muitos casos de expulsão de agricultores de suas terras de origem levariam muitas outras pessoas a se juntar aos camponeses que se reorganizavam, após rápida dispersão, engrossando o contingente de gente simples disposta a se entregar totalmente numa luta contra os poderosos, em nome de ideais “divinos”.

A morte do beato José Maria não arrefeceria o ímpeto dos camponeses, muito pelo contrário. Em breve novas crenças passariam a sustentar-lhes o ânimo, como a certeza que muitos manteriam de que o beato voltaria do céu, e ainda acompanhado do exército de São Sebastião. Não faltaram pessoas que diziam tê-lo visto ou sonhado com ele a conclamar os camponeses para a vitória final. Uma das pessoas que afirmava se comunicar com José Maria se converteria num dos grandes personagens do Contestado. Maria Rosa, uma cabocla valente e de impressionante espírito de liderança, conduziria pelos campos de batalha uma multidão de rebeldes, se tornando uma verdadeira lenda nas crônicas da guerra, que aliás revelariam a existência de outras figuras femininas que desempenharam importante papel.

O caráter místico-religioso do movimento ficaria bem patente na bandeira adotada como símbolo do regime que os rebeldes almejavam implantar: uma cruz verde, à maneira de antigas ordens monásticas como os templários, seria o estandarte da sua “Monarquia Celestial”. Com ingredientes como esses, típicos da cultura sertaneja do Brasil, o movimento ganharia força e em breve sairia do controle das autoridades, reforçado cada vez mais por descontentes que esperavam desfrutar das conquistas após uma eventual vitória. Aí estavam pessoas perseguidas por coronéis, desempregados, desterrados de outras regiões, indivíduos em dívida com a justiça e toda sorte de brasileiros de alguma forma excluídos dos projetos das elites e dos rumos da república. Enfim, o Contestado ganharia todo um desenho de guerra. Uma guerra de ricos contra pobres.

A resposta do poder público e das autoridades locais viria na mesma proporção em que a revolta ganhava força. As várias cidades na região do Contestado que serviram de cenário para os rudes combates presenciaram lamentáveis cenas de morte, devastação e atrocidades de lado a lado. Líderes revoltosos dispostos a derrotar as tropas oficiais e ceifar o poder dos coronéis cada vez mais se destacavam no movimento e em breve eram tão influentes do ânimo dos camponeses quanto os próprios beatos. Uma dessas figuras era Adeodato Ramos, que aos poucos se destacaria como um grande líder, que na localidade Santa Maria conduzia as tropas rebeldes, inclusive impedindo deserções de camponeses. Valente e decidido, ganharia fama durante o conflito, sendo retratado pela imprensa como um verdadeiro demônio, capaz das maiores atrocidades, o que na verdade não o diferenciava de nenhum dos comandantes das tropas oficiais, que não hesitaram em propiciar os piores atos de selvageria nas comunidades rebeladas. Quando da destruição da última vila rebelde no Contestado, um capitão do exército brasileiro afirmava em um relatório ter dado fim a algo em torno de cinco mil casas e 10 igrejas.

Em 1915, o último reduto dos camponeses foi debelado e o conflito teve seu fim. O líder Adeodato, que fugiria para as matas de araucária daquela região do sul do Brasil, só seria capturado no ano seguinte, num evento coberto com toda ênfase pela imprensa da época e comemorado pelas tropas oficiais. O saldo dos quase quatro anos do conflito revelaria números assustadores: em torno de 10 mil mortes, incluindo muitas mulheres e crianças, numa guerra que chegaria a ocupar metade do contingente do exército nacional em certos momentos. Naquele mesmo ano de 1916, Paraná e Santa Catarina finalmente assinariam um tratado intermediado pelo presidente Wenceslau Brás, que poria fim às contestações de território. As terras de onde os camponeses foram expulsos seriam exploradas até ficarem totalmente desmatadas com a atividade de madeiramento. A partir da redemocratização, nos anos 1980, a guerra do Contestado voltaria a despertar o interesse dos historiadores e acadêmicos, e em 2009 uma seção do Senado seria dedicada a debates parlamentares sobre o episódio, quando ficariam reconhecidos o caráter de revolta social do movimento e a responsabilidade do estado brasileiro, tanto pela ausência na assistência a uma população que pleiteava a posse de terras que cultivava para sustento próprio, quanto pelas ações militares contra uma população mal armada e com parcas condições de se defender.


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