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Um outro olhar sobre os jesuítas no Brasil

Pintura de Johann Moritz Rugendas, retratando rituais de indígenas brasileiros

.Um dos aspectos que pouco são comentados quando se faz referência à presença das missões jesuíticas no inóspito Brasil do século XVI diz respeito às dificuldades naturais e ambientais que membros da ordem tiveram de enfrentar para levar a cabo sua empreitada. Normalmente são evocadas as questões religiosas e culturais relacionadas à ação das nações que chegariam com o objetivo de explorar as terras do continente, o que frequentemente monopoliza as análises e nos faz deixar de lado alguns ângulos pitorescos do encontro cultural, se assim se pode chamar.

Foram sempre muitos os perigos e obstáculos enfrentados pelos padres para levar adiante o que acreditavam ser sua missão civilizadora às terras da América. A começar pela própria hostilidade do meio ambiente selvagem dos trópicos. Pode-se imaginar os missionários habituados à vida nos mosteiros e seminários na Europa, tendo que se mover pela selva, habitar casas improvisadas, alimentar-se com as estranhezas encontradas pelo caminho, enfrentar insetos nunca vistos e principalmente o calor intenso. Os exercícios espirituais, uma prática bem característica da ordem jesuíta e considerada essencial na formação do missionário, seriam sem dúvida fundamentais no fortalecimento da fé e na consciência da importância de um trabalho feito em prol da igreja Católica e para engrandecimento da obra de Deus, como afirmava o lema da Companhia. A disciplina e a obediência exigidas com todo rigor na educação dos padres também colaborariam para não fazê-los esmorecer diante de tantas dificuldades.

As doenças estavam entre elas. Expostos a insetos e animais peçonhentos e ao sol lancinante dos trópicos, os jesuítas desde sempre conviveram com febres, disenterias e dores, provenientes da exposição ao meio e à ingestão de água e alimentos. Isso sem falar nas epidemias que normalmente chegavam devastadoras e atingiam as vezes tribos inteiras, causando dezenas ou centenas de óbitos. Situação que os tornaria um dos pioneiros nos tratamentos de saúde no Brasil (além, é claro, da medicina nativa, em cuja fonte muito beberam), criando hospitais, descobrindo medicamentos e inventando soluções improvisadas para os problemas que atingiam o corpo.

Os deslocamentos ao longo das selvas do Brasil foram outro grande obstáculo que tiveram que superar. O terreno altamente irregular e acidentado de boa parte das terras, coberto de matas densas e vigorosas, exigiu muito dos missionários na sua busca por almas para a salvação. Guiados pelos nativos, tiveram de aprender a sobreviver em meio tão hostil. Dominaram técnicas e instrumentos indígenas como o arco e a flecha, navegaram em pirogas pelos inúmeros rios do país, caçaram, pescaram, escalaram paredões, desenvolveram técnicas de construção, inventaram objetos e tecnologias. Um bom exemplo dessas dificuldades com a hostilidade da natureza é o chamado Caminho do Padre José de Anchieta, uma trilha de quase 70 km aberta ao longo da serra da Paranapiacaba, no atual estado de São Paulo. Ativa desde 1554, a rota, íngreme em quase toda a sua extensão, ligava São Vicente, no litoral, ao colégio fundado em São Paulo de Piratininga, no alto do planalto. O cansativo caminho era uma alternativa a outro percurso, menos severo, mas que apresentava o perigo de atravessar terras de índios que naquele momento eram hostis aos missionários.

No entanto, mesmo com todas essas dificuldades os jesuítas estariam entre os primeiros a desbravar o interior do Brasil ao lado dos bandeirantes e sua obsessão pelos veios de ouro que esperavam encontrar. Inauguraram também aldeamentos na gigante Amazônia, nas regiões secas do Nordeste e do extremo sul do continente, sempre enfrentando e muitas vezes vencendo os obstáculos presentes nos vários biomas brasileiros. O resultado dessas aventuras foi que muitos missionários tiveram nas terras dos trópicos o destino final de suas existências. Vários sucumbiram ante os inúmeros surtos epidêmicos que assolaram os primeiros séculos de colonização. Venenos, picadas de cobras, acidentes nos perigos oferecidos pela selva e ataques de animais ferozes, entre outros, se encarregaram de abreviar a vida de vários missionários. As guerras também faziam vítimas. Imersos no cotidiano de algumas tribos, não raro jesuítas acabaram não mão de adversários, sendo considerados e tratados como inimigos. Não faltaram os que pegaram em armas pra lutar ao lado de etnias amigas. Alguns, enfim, perderam suas vidas ironicamente devorados justo por aqueles que esperavam catequizar e pacificar.

Os episódios de antropofagia foram bastante comuns nos primeiros tempos de Brasil colônia e alguns deles vitimaram missionários. Em 1554, poucos anos depois da chegada dos jesuítas, o convertido Pero Corrêa, um dos primeiros tradutores de idiomas nativos para os missionários (os conhecidos “línguas”), muito considerado pelos companheiros da catequese, perdia a vida assassinado por índios carijó. E na Amazônia outro jesuíta, o irmão Luis Figueira, teria parado, em 1643, no estômago de nativos do grupo aruã.

Mas o caso mais famoso de jesuítas devorados por povos praticantes de antropofagia seria sem dúvida o do primeiro bispo do Brasil, Pero Fernandes Sardinha. Apesar de não ser um jesuíta, seu cargo o colocava em contato direto com os missionários da Companhia de Jesus. Conservador e mal-humorado, se envolveu em várias discussões com o provincial Manoel da Nóbrega por discordar dos “improvisos” que às vezes os missionários precisavam realizar para prosseguir com o trabalho nas rudes condições de vida dos trópicos. Sardinha não teria simpatizado com os índios e achava abomináveis seus hábitos, talvez intuindo o futuro que lhe estaria reservado. Em 1556, quando retornava para a Europa depois de exercer cinco anos de bispado no Brasil, seu navio naufraga no litoral de Alagoas. Teria então sido capturado por índios caetés, que o teriam submetido a um ritual que incluía antropofagia. Apesar de certa discordância entre os historiadores quanto à forma como o fato se deu, a devoração do frade entrou para o imaginário do país como um símbolo do costume antropofágico de várias tribos que viviam em terras brasileiras.

Quando Oswald de Andrade publica em 1928 seu Manifesto Antropofágico, texto no qual atrela esse costume dos indígenas brasileiros a certas questões da cultura brasileira, encerra ironicamente a carta datando-a com a frase: “Piratininga, ano 374 da deglutição do Bispo Sardinha”, numa referência bem-humorada a esse mais eloquente caso de antropofagia registrado nos primeiros tempos da colonização. Como se esse acontecimento de 1556 tivesse sido, esse sim, o atestado de nascimento do Brasil.

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