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O futebol e o complexo de vira-lata

Pelé e Garrincha, nascem dois gênios.

Em 1958, a revista France 
Football lançaria uma edição em que se dedicava a analisar todas as 16 seleções que disputariam o mundial que se realizaria na Suécia. Para chegar a um quadro tanto quanto possível realista a publicação elegeu alguns critérios aos quais submeteu as equipes. Um deles saltaria aos olhos de nós brasileiros: o psicológico. Quatro anos antes, na copa da Suíça, a seleção nacional cairia diante da Hungria, mesmo apresentando um time promissor e considerado forte. O motivo alegado: falta de afirmação, fraqueza psicológica ou, como mais tarde diria o dramaturgo Nelson Rodrigues, complexo de vira-latas.

O fato é que a revista francesa teria colocado o Brasil entre os favoritos, por sua excelência nos quesitos táticos, físicos e técnicos, se não fosse o nosso eterno problema de autoafirmação. Reforçava essa tese o desempenho da seleção nas últimas competições, terceiro e segundo lugares respectivamente nos mundiais de 1938 e 1950, além de uma participação ruim em uma excursão à Europa em 1956, quando, além de mal, protagonizara uma desagradável cena de pancadaria generalizada. Decididamente, não possuíamos virtudes como o autocontrole, a confiança e a frieza, consideradas fundamentais para uma equipe vencedora. Tínhamos a habilidade de um Garrincha, a genialidade de um Didi e a modernidade de um Nilton Santos, mas tudo isso seria insuficiente diante de tanta fraqueza psicológica. Uma opinião partilhada inclusive pela esmagadora maioria dos brasileiros.

Segundo o jornalista esportivo João Máximo, a copa de 1958 seria a primeira em que a nossa seleção entraria em campo para mostrar, antes de tudo, que sabia jogar futebol, sem o peso de carregar o patriotismo ou de atuar como propaganda do “país do futuro”. Pela primeira vez tivemos uma comissão técnica diretamente voltada para atuar em cima das eventuais limitações dos jogadores brasileiros. Na malfadada excursão à Europa dois anos antes, profissionais se aplicavam em analisar detidamente os atletas em busca de identificar possíveis medos, instabilidades ou destemperos, tudo de forma “científica” como se propalava na época. Um relatório gerado após o estudo confirmava a nossa limitação mas sutilmente apresentava uma novidade: a causa do problema estava situada em características raciais, que nos tornariam menos aptos que outros povos, como os gauleses ou os nórdicos, para atividades em que se exigia alta performance no aspecto psicológico. Éramos, além do mais, tipos tendentes a certos arroubos de melancolia, deslocados fora do hábitat natural, nostálgicos, banzudos.

Por mais absurdas que possa soar aos olhos de hoje, as conclusões foram levadas a sério pela comissão técnica, que escalaria muitos atletas de pele clara para o jogo de estreia, deixando de fora jogadores “de cor”, como Djalma Santos. Em lugar de um certo “negrinho” de 17 anos, artilheiro do último campeonato paulista e muito elogiado pela crônica esportiva brasileira, entraria em campo o alourado Mazzola, de ascendência italiana e já conhecido no futebol europeu. Apesar da boa estreia contra a Áustria, a seleção brasileira voltaria a decepcionar na segunda partida, quando não passaria de um teimoso zero a zero com os ingleses. Sinal de inconstância do time? A história começaria a ser reescrita no terceiro e último jogo da terceira fase. Contra a poderosa União Soviética do lendário goleiro Yashin o técnico Vicente Feola decide lançar o tal negrinho e um mestiço de pernas tortas de nome curioso: Garrincha.

Logo nos primeiros minutos do jogo o mundo começa a conhecer um espetáculo jamais visto, e o Brasil ameaçava espantar o vira-lata, depois que o ponta-direita do Botafogo dá um incrível drible no adversário russo e acerta a trave do “aranha-negra”. Daí pra frente a seleção seguiria firme rumo a seu primeiro título mundial, e já no jogo seguinte, pelas quartas de final, foi a vez do garoto Pelé marcar um gol antológico, seu primeiro em mundiais. Na final contra a dona da casa aconteceria o que pode ser entendido como uma última prova de fogo para a autoestima do brasileiro.

A seleção brasileira faria a final contra a Suécia, a dona da casa, cujo uniforme era praticamente idêntico ao nosso. Como mandava o regulamento, um sorteio iria determinar quem teria de entrar com visual diferente. O acaso, assim, obrigaria a seleção a jogar com o seu segundo uniforme, na cor azul. O problema era que, desse jeito, tínhamos sido eliminados no mundial anterior, aquele mesmo a partir do qual passaram-se a construir todas as teorias que buscavam explicar a suposta desvantagem essencial do brasileiro em relação a outras culturas.

Novamente vem à tona toda a insegurança que já parecia superada. Nossa verve supersticiosa parecia apontar para mais uma morte anunciada. A solução, porém, viria de uma maneira bem brasileira, numa sacada genial do chefe da delegação nacional, Paulo Machado de Carvalho, que, antes que qualquer impressão fosse formada, tratou de convencer os atletas de que a sorte sorria para a seleção brasileira. Afinal, lembrou o dirigente, azul é a cor do manto de Nossa Senhora Aparecida, a padroeira e maior devoção do Brasil. Alguns dos jogadores embarcaram com tanta intensidade na observação, que resolveram costurar os números e o escudo na camisa com as próprias mãos.

A vitória arrasadora por cinco a dois sobre os donos da casa, mais que o primeiro título do país na sua maior paixão nacional e a confirmação da fé como atributo inseparável do brasileiro, representou a queda de um discurso enraizado por muitos séculos na mentalidade do país, que sugeria, a partir nossa diversa e pitoresca formação, a causa de nossos eternos males. O futebol, através de sua lógica própria, colaboraria para jogar por terra teorias raciais que ao longo de muito tempo encontraram espaço no pensamento de vários dos nossos intelectuais. De Euclides da Cunha a Oliveira Vianna. De Varnhagen a Silvio Romero. Se não se pode dizer com convicção absoluta que o brasileiro abandonou de vez o estigma vira-lata, a história do futebol, a nossa atividade de maior excelência, trataria de deixar esse incômodo símbolo bem longe de nós.

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