Pular para o conteúdo principal

Jesus nos primeiros séculos da cristandade

"Batismo de Jesus" (1482), por Pietro Perugino.

Quem se depara hoje com os quatro evangelhos canônicos, que servem de base para as doutrinas da maioria das religiões cristãs, muitas vezes não tem noção da movimentação de ideias e possibilidades que se estabeleceram nos primeiros quatro séculos de cristianismo, quando finalmente a Igreja de Roma, amparada na força do Império Romano, chegaria a definir os escritos de Lucas, Marcos, Mateus e João como principais em detrimento de outros documentos cristãos. As muitas reflexões e hipóteses levantadas pelos seguidores ditos primitivos de Jesus acabariam por formar um rico acervo teológico que pode ser tranquilamente estudado por interessados no assunto em acréscimo aos textos considerados oficiais.

Uma dessas ideias começariam a ganhar destaque já no século II da Era Cristã, com os docetas, seguidores de uma visão que entendia que, sendo Jesus de natureza divina, não podia ter a mesma constituição das pessoas normais. Logo, o seu nascimento, o corpo e as sensações que sentia não eram reais, isto é, não passavam de uma aparência de realidade. O Docetismo parte das ideias de Marcião, um filósofo e pensador cristão, profundo estudioso dos escritos de Paulo de Tarso, que se fixa na ideia de que o deus hebraico, ao se mostrar vingativo e por vezes cruel, não poderia ser o mesmo que conceberia Jesus e o ofereceria à humanidade. Sendo assim de origem totalmente divina, o Cristo seria uma criatura diferenciada de todos os demais seres, os atos de sua vida apenas se revestindo de uma aparência de acontecimento real para entendimento dos mortais. As ideias de Marcião acabariam por despertar muitos seguidores a tal ponto que se tornou bastante influente em Roma, onde conseguiu divulgar sua visão através de uma vasta obra escrita. Bispos influentes da Igreja da época, como Irineu de Lião e Ignácio de Antioquia, se dedicaram também a uma relevante produção teológica para refutar os textos de Marcião, preservando o consenso até então formado pela maioria das igrejas cristãs.

Uma outra ideia teológica levantada pelos cristãos primitivos é o Arianismo, que nada tem a ver com as doutrinas de superioridade racial que se espalharam pela Europa no século XIX. O nome vem de seu principal formulador e defensor, Ário, um presbítero de Alexandria do século IV, que negava a existência da consubstancialidade entre Jesus e Deus, ou seja, para ele, embora uma criatura especial, preexistente à própria criação do mundo, o Cristo não se confundia com o criador e não era constituído da mesma natureza divina. Para Ário, Jesus seria algo situado entre Deus e os homens, uma espécie de semideus, que não se enquadraria em nenhuma das duas naturezas, nem a divina, nem a humana. Como dado interessante, em boa medida as visões de Ário seriam divulgadas através de canções populares, o que acabaria por estender seu pensamento para além do campo dos estudiosos eclesiásticos e aproximá-lo dos cristãos comuns. Por isso (e por outros fatores) a doutrina ariana seria causadora de grandes debates entre os bispos e religiosos da igreja, não raro redundando em conflitos que extrapolavam a esfera religiosa e se tornavam sérias questões diplomáticas envolvendo líderes e governantes a favor ou contra suas ideias.

O fato é que o arianismo ganharia força e de alguma forma abalaria a unanimidade das igrejas cristãs, o que culminaria na convocação de um dos mais importantes concílios da história da igreja, o de Niceia, no ano 325, que se reuniu para deliberar sobre a validade das teses de Ário, que apesar de derrotadas no debate eclesiástico continuaram a dividir os cristãos, influenciando muitas igrejas e seitas, transformando-se numa heresia. Só no século V, quando o cristianismo se torna a religião oficial do Império Romano, é que a visão arianista é definitivamente extinta entre os cristãos, isso após muitas perseguições.

Num sentido diferente das ideias propostas no arianismo começa a se destacar no século V o Monofisismo, que pregava que, após a chegada de Jesus ao mundo terreno (a encarnação), as duas naturezas, a humana e a divina, teriam se fundido numa coisa só, com predomínio da última. O Cristo, dessa forma, apesar de ser constituído originalmente de duas naturezas, tornara-se divino ao assumir sua tarefa redentora. Um contraponto dessa ideia, o Diofisismo, pregava que Jesus teria preservado as duas naturezas de forma distinta ao ingressar no mundo. Essas ideias, como outras que se apresentavam como variantes desse pensamento, deixariam profundas marcas na Igreja da época, suscitando muito debates e ajudando a formar muitos cismas. O Monofisismo seria condenado no concílio de Calcedônia realizado no ano 451, que confirmaria o Diofisismo como crença predominante.

Vinte anos antes, num concílio convocado em Éfeso, uma outra variante dessas ideias sobre a natureza de Jesus já havia sido negada e classificada como heresia. Trata-se do Nestorianismo, filosofia que declarava a desunião entre essas duas naturezas na pessoa do Cristo, ou seja, humanidade e divindade entrosavam-se na natureza de Jesus, de forma distinta, apesar de afeiçoadas uma a outra, sendo empregadas pelo Cristo em sua missão salvadora. Mesmo derrotada, essa visão cristológica desenvolvida por Nestório, patriarca da igreja de Constantinopla, se fortificaria em várias igrejas que se separariam da base principal do cristianismo e ganharia importante relevância em núcleos cristãos espalhados pela Ásia, que mais tarde se configurariam em instituições independentes do catolicismo de Roma.

Por fim, vale a pena citar também a crença Adocionista, defendida por Paulo de Samósata, bispo de Antioquia. Segundo essa ideia, Jesus não passava de um homem comum, mas se teria mostrado tão virtuoso e identificado com Deus, que este lhe teria delegado a missão redentora junto aos homens. O Cristo então teria iniciado um caminho de altíssima iluminação e progressivo aperfeiçoamento até atingir a situação análoga a de filho de Deus, tal sua capacidade extraordinária de transcender a condição humana e aproximar-se da essência do criador, condição que tem seu momento de confirmação quando do batismo de Jesus por João Batista. O Adocionismo seria também considerada uma crença herética no século II, mas não desapareceria por completo. Uma nova onda dessa visão cristológica ressurgiria no século VIII, sendo combatida e finalmente condenada no segundo concílio de Niceia, em 787.

Visões da natureza de Jesus como essas abordadas aqui e várias outras que propuseram interpretações variadas da presença do Cristo constituem um importante acervo da cultura cristã, cujo estudo revela toda uma gama de tentativas de compreender a fundo esse acontecimento que, apesar de todas as vozes, adeptas ou não, que se levantaram ao longo do tempo, continua marcante, principalmente na história do Ocidente, mas de alguma forma influindo em toda a cultura humana.

Se você gostou desse texto, deixe seu comentário, compartilhe com seus amigos e curta a página: facebook.com/arteseletras2016

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Pedro II abre concurso federal para professor

Segue até o próximo dia 17 as inscrições para o concurso para preenchimento de vagas para novos professores no tradicional Colégio Pedro II. São 14 cargos efetivos nos ensinos Básico, Técnico e Tecnológico. Além disso os organizadores aproveitam para criar um banco de reservas para cada disciplina oferecida.
As inscrições são somente virtuais pelo site www.cp2.g12.br. Após preencher a ficha é necessário imprimir a GRU - Guia de Recolhimento da União - e efetuar o pagamento da taxa no valor de R$ 160,00. O concurso terá validade de 1 ano e poderá ser prorrogado por igual período.
Pertencente ao Governo Federal, o Pedro II é o terceiro colégio mais antigo do país ainda em atividade, depois do Ginásio Pernambucano e do Atheneu Norte-Riograndense. O Pedro II tem 13 mil alunos que estudam em 14 campi, sendo 12 no município do Rio de Janeiro, um em Niterói e um em Duque de Caxias, além de uma unidade de educação infantil.
Salário pode dobrar com titulação profissional O salário básico é de R$ 4…

Passo a passo para utilizar o Benefício Boa Viagem

Olá, associado! Ainda tem dúvidas em relação ao Benefício Boa Viagem? No post de hoje vamos esclarecer essas questões e ainda mostrar o passo a passo de como utilizar este benefício.
1 – Leia o Regulamento O primeiro passo é ler o regulamento e ficar atento às regras, cláusulas e condições do benefício. O regulamento está disponível em: http://www.appai.org.br/beneficio-boa-viagem.aspx
Site da Appai → Benefício Boa Viagem → Regulamento

2 – Pousadas Conveniadas O associado e beneficiário, regulares na Appai, deverão verificar os hotéis e pousadas no Guia do Associado ou em nosso site e fazer a sua escolha. São diversas opções de roteiros, que vão desde a calmaria da região serrana até as mais belas praias do Estado do Rio de Janeiro.
Site da Appai → Benefício Boa Viagem → Destinos e Pousadas

3 – Reservas Depois de escolher o destino e a pousada de sua preferência, o associado e/ou beneficiário deverão entrar em contato diretamente com o estabelecimento conveniado para fazer a reserva de estad…

A fotografia e o poder da imagem no mundo moderno

Da pintura como única forma de reproduzir o que os olhos presenciavam até as modernas maneiras de registrar a realidade, a fotografia descreveu uma trajetória cercada de muitas discussões a respeito do lugar que essa atividade deveria desempenhar no cotidiano das pessoas e no engrandecimento da cultura. O inventor francês Louis Daguerre foi o primeiro a criar algo que sugerisse a substituição dos artistas como forma de reproduzir visualmente a realidade. Em 1839 é anunciado o daguerreótipo, o primeiro ancestral das máquinas fotográficas. Na verdade muitos pesquisadores autônomos já haviam trabalhado e obtido alguns êxitos em desenvolver maneiras de reproduzir a imagem.
O mérito de Daguerre foi desenvolver uma máquina que dava início ao que iria se transformar numa das características que mais colaborariam para a popularização do ato de retratar: a possibilidade de cada pessoa poder utilizar sua própria câmera e produzir suas imagens, em substituição à habilidade individual de artistas …

Prestigiar o professor é o grande barato desta bienal

Conheça o trabalho de professores como você, participando das nossas tardes de autógrafo. Serão mais de 30 autores de diversos gêneros, como o colunista do blog da Appai e revisor da Revista Appai Educar, Sandro Gomes.

As três edições do Altos Papos já estão com inscrições abertas na página da Educação Continuada no Portal do Associado. Leia atentamente as condições de horário e transporte antes de confirmar sua presença.
Aproveite a visita e “seja capa” da Revista Appai Educar. Marque suas fotos com #SouAppai e apareça em nosso Facebook.
E ainda divirta-se em nosso espaço interativo e conheça um pouco mais sobre a appai.
PROGRAMAÇÃO COMPLETA


A construção da imagem de Tiradentes

Uma abordagem básica possivelmente revelará que Tiradentes é o herói preferido dos brasileiros, ficando à frente de nomes de grande apelo popular, como o líder Zumbi dos Palmares ou o arrojado D. Pedro I. Apesar de a história popularmente divulgada do Mártir da Inconfidência estar repleta de elementos de valor universal, como os ideais de liberdade e justiça, o fato é que a boa imagem do inconfidente é fruto da tentativa de acomodar esse momento da história aos objetivos de quem esteve nas proximidades do poder.
Foi na República que a imagem de Tiradentes começa a ser trabalhada de forma consciente e intencional. O movimento militar, de base positivista, que derrubou a Monarquia tinha em mente o objetivo bem explícito de atuar no imaginário da população, reduzindo a influência que o sistema colonial imprimira ao longo de mais de três séculos. Tiradentes era alferes, lutava pela instalação de um regime republicano e único condenado à morte na conspiração. Elementos, portanto, bastante i…