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Os passos para o planejamento de uma ação significativa


A palavra “plano”, etimologicamente, vem do latim: “Planu” – projeto claro; manifesto; lançar adiante; que inclui uma série ordenada de operações e de meios destinados a atingir um fim; intenção. É exatamente da falta de planejamento, isto é, de projeto claro, de intenções, que sofre o campo educacional nos dias de hoje. O pano de fundo dessa nossa realidade aponta uma crise marcada pela escola desvinculada da vida, passiva, apresentando aulas monótonas, com ranços de 600 anos atrás.

Embora haja experiências pontuais de avanço educacional, ainda temos um quadro de alto índice de reprovação, desinteresse e falta de motivação por parte de alunos e professores, entre outros problemas. O desafio e a mudança são necessários. A escola precisa assumir o seu lugar de humanização, de abertura, de desenvolvimento do ser humano e do prazer de aprender.

Um bom caminho para o avanço sonhado é a revisão da ação do professor, que precisa ser fonte de estímulo para que alunos cresçam e se desenvolvam por meio da aprendizagem significativa.

O primeiro passo para proporcionar isso ao estudante é conhecê-lo, através do diagnóstico, que é um dos elementos fundamentais para que se realize o planejamento do processo de aprendizagem. Conhecer a realidade implica conhecer os alunos, a comunidade local, ter um retrato geral do seu universo social, político, econômico e cultural.

Porém, só o retrato social do aluno e de seu contexto não bastam. É fundamental considerar como o estudante se desenvolve do ponto de vista biopsicossocial, o segundo passo. Entra em campo, então, a psicogênese, que é o estudo da origem e do desenvolvimento das funções psíquicas, considerando o homem biológico e social, participante de um processo histórico (conforme apontam Piaget e Vygotsky).

Cientes de como as funções psíquicas ocorrem e com o diagnóstico feito, então é hora de fazer escolhas pedagógicas iniciando por pensar em como comunicar, terceiro passo. Esta etapa, que é fundamental, é tratada por Vasconcellos como o momento de possibilitar o vínculo significativo inicial entre sujeito e o objeto a ser conhecido. É preciso, segundo o autor, “provocar a necessidade, acordar, desequilibrar”.

Ao planejar sua ação, o professor precisará lançar mão de estratégias para que o aluno dirija sua atenção, seu pensar, seu sentir e seu fazer sobre o objeto do conhecimento, e esta é uma ação intencional. Por isso mesmo, é fundamental que elabore um roteiro junto com os alunos para as aulas (quarto passo), lançando mão de estratégias adequadas à faixa etária em questão, lembrando que, dentre diferentes encaminhamentos pedagógicos e recursos didáticos, temos a história, que é um recurso altamente significativo para a aprendizagem.

A história captura o aluno, como bem esclarece Lili Flor, que é arte-educadora: “Desde sempre o homem precisou contar histórias para entender a vida”. Carla Passos, atriz e arte-educadora do Instituto Brincante, também reforça que “a narração de histórias está muito ligada à formação das pessoas, à construção do caráter da pessoa. A história não só traz vários ensinamentos, mas também faz com que nos identifiquemos nas personagens”.

Após a escolha de um bom enredo (história), entra o quinto passo, em que indicamos um olhar atento para com os elementos visuais dos recursos que serão utilizados em sala para conduzir, para orientar a aprendizagem, seja esse recurso um cartaz, um PowerPoint ou mesmo um atlas. Dicas práticas: verifique, minimamente, se a fonte está legível (para PowerPoint, no mínimo fonte 44 para títulos e 38 para o corpo do texto); se as imagens escolhidas estão coerentes com o enredo e com o objetivo da aula, lembrando que uma imagem vale por mil palavras.

Sugerimos, como sexto passo, que os professores procurem aperfeiçoar a sua oratória (dom de falar para melhor orientar) e sua retórica (dom de argumentar), por se tratar de elementos que conferem qualidade à ação educativa.

E, para fechar o texto de hoje, leia na sequência a história da Dona Comunicação, que, além de ser um recurso didático de grande expressão e significado, traz também um alerta sobre a necessidade de “realmente” conhecermos aqueles com quem vamos interagir, caso contrário corremos o risco de não nos comunicarmos efetivamente, pois “falar nem sempre é dizer”.


Dona Comunicação: História não escrita
Otávio, o caixa, por certo nunca ligara para problemas de comunicação. Falava e dizia. Pronto. O interlocutor que entendesse. Ignorava, talvez, que cada universo de ouvintes corresponde a um linguajar específico, um repertório.
Palavras como “isótopos” e “fissão” só costumam ser inteligíveis entre os iniciados em Física Nuclear. Expressões como “Malagueta diz que vai apagar o macaco” pode ser corriqueira entre os policiais e malandros, mas para outros mortais carece de tradução (Malagueta diz que vai matar o policial).
Otávio não atentava para isso e se julgava, decerto, possuidor de comunicação universal, acessível a qualquer repertório. Fazia e dizia. Quem ouvisse, que escutasse.
Assim, quando Terezinha lhe apresentou o cheque, ele nem imaginou que a cliente talvez não entendesse o idioma bancário.
– Por favor, moça, seu cheque é nominal a Terezinha Gomide, precisa de endosso.
Terezinha escutou, mas não ouviu.
(Pensando alto): – Nominal? Endosso? Endosso tem sabor de açúcar. Não, não é possível, não tem nada a ver.
– Desculpe seu Otávio, não entendi.
Otávio olha Terezinha com ar de estranheza diante da pergunta da cliente. Levanta seus olhos e diz:
– Simples, moça. Coloque sua firma aqui no verso.
Ainda sem ouvir, a cliente espichou-lhe o olhar interrogante.
(Pensando alto): – Verso? Firma? Que diabos. Antes “nominal”. Agora “verso”, “endosso” e também “firma”. Ora, eu não sou sócia de nada! Nem poeta!
Terezinha, atônita e envergonhada, achou de perguntar novamente.
– Perdão, seu Otávio, desculpe estar chateando o senhor. É que eu não sou muito boa para entender as coisas. Será que o senhor pode me explicar de novo?
Otávio, já sem nenhuma paciência, resmunga alguma coisa. De repente, deu-se o estalo. Pensou no repertório de Terezinha e tratou de adivinhá-lo. Fácil, pensou. Com sorriso de “psicologice”, foi virando o cheque e apontou com jeito de cúmplice:
– Olhe com atenção, coloque aqui seu nome. Assim como você faz no final da carta que manda pro seu namorado.
Terezinha iluminou-se. Decidida, pegou firme na caneta e lascou no verso do cheque: Com todo amor, um grande beijo, Terezinha.
Diante daquela Terezinha sorridente, Otávio, o caixa, foi apresentado à “Dona Comunicação”. Sentiu que há repertórios e repertórios. E que falar nem sempre é dizer.
Autor desconhecido.

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