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Nossos ancestrais da América

Índios do Brasil, por Jaime Trindade.

Em 1639, o jesuíta Antonio Ruiz de Montoya escreve uma obra intitulada “O tesouro da língua guarani”, uma das primeiras fontes de conhecimento do idioma e da cultura desse povo. Ali podemos encontrar a palavra “tekó”, que o religioso traduziu como algo como “bem viver”. E é exatamente a partir desse sentido que podemos começamos a entender como os valores guaranis poderiam ser interessantes para uma sociedade envolta em tantos conflitos como a ocidental. “tekó” reflete a milenar experiência dos povos guarani na sua busca por uma felicidade baseada na harmonia entre a natureza e os seres que nela estão incluídos. Para esse povo, dentro dessa visão, não cabe a ideia de posse sobre a terra, por exemplo, uma vez que é a terra que contém todas as coisas, incluindo o homem. Daí a extrema valorização da natureza e de seus inúmeros recursos.

Na visão guarani, é na natureza que se estabelece um grande palco onde a reciprocidade e a inter-relação são praticadas, onde os seres trocam incessantemente e assim vão sustentando a harmonia da criação. Nesse contexto, compartilhar experiência é um requisito fundamental. Muito distante das hierarquias ocidentais nas quais deter um conhecimento representa possibilidades de conquistas sociais, os guaranis transmitem tudo o que sabem. Tanto entre si quanto com aqueles de outras culturas que porventura venham a conviver com eles. Um bom exemplo disso é a ciência da cura pelos elementos presentes na natureza, a sua medicina, fruto de uma elaboração milenar forjada no conhecimento da terra. Mesmo sendo prerrogativa dos líderes religiosos os procedimentos e rituais de cura, todos os integrantes detêm em algum grau o conhecimento sobre as ervas e plantas com suas propriedades curativas.

Num mundo como o ocidental, marcado por uma verdadeira guerra pelo direito de construir as narrativas e consequentemente alcançar o poder e a hegemonia, salta aos olhos a forma como os guaranis entendem a palavra. Originada da expressão dos mitos e deuses, a palavra é entendida como um bem supremo da natureza, que a ninguém pode negado. Ela se expressa não apenas como uma forma de reciprocidade, já que todos podem dispor dessa faculdade, como também no sentido do ritual. Por isso, o dia a dia dos guaranis é marcado pelo muito espaço concedido às rezas e cantos, através dos quais a palavra funciona como um elemento harmonizador da vida a dos seres. Ela é tão importante que aos líderes religiosos é delegada a tarefa de estabelecer o nome das crianças, o que acontece através de um meticuloso ritual no qual acontece a revelação da maneira como aquele indivíduo será chamado, o que, segundo sua crença, vai ser decisivo por toda a vida. Ao contrário do que acontece na cultura ocidental, onde quem detém o discurso também acumula o poder, para os guaranis a palavra é algo que emana dos mistérios da natureza.

A educação que os guaranis dispensam às crianças é um capítulo à parte nas lições que podemos retirar da cultura desses nossos ancestrais da América. Para eles, a condição de infância em nada os desqualifica frente aos mais velhos. Por isso, desce cedo os pequenos estão inseridos no dia a dia e nas questões que envolvem o grupo, podendo inclusive ter sua opinião acolhida numa eventual tomada de decisões. É no próprio convívio com a coletividade que ocorre, segundo eles, a formação do indivíduo. Por outro lado, os guaranis não partilham da ideia de que as pessoas possam ser moldadas pela sociedade. Cada um, sendo uma potência da natureza, pouco adianta desenvolver maneiras específicas de ensinar, pois toda criatura é uma obra em si, que por esse motivo aprende e ensina por si só. Uma visão que tem como resultado um profundo respeito pela personalidade alheia, o que inclui as crianças.

Esse sentimento de liberdade que o indivíduo guarani mantém em relação ao outro expressa-se na própria maneira como esse povo entende as finalidades da vida e seu papel na existência. Para eles, viver é desvendar o mistério que há em tudo e consequentemente nas outras pessoas. Tudo o que existe tem direito à vida e a ser preservado justamente porque existe pra revelar o mistério da vida. Não há consequentemente o sentido em classificar ou separar as criaturas em denominações como raça, cultura ou religião. É através desse olhar que grupos guaranis têm se mantido por muitos séculos, mantendo suas crenças e tradições, sem deixar de conviver com a cultura de não-índios e às vezes parecendo totalmente incorporado a ela.

Impotentes frente as concepções que presidem o caráter exploratório e mercantilista que predomina nas nações sul-americanas, os guaranis têm travado lutas atrozes e inglórias pelas terras que um dia puderam ser desfrutadas por seus antepassados, e não foram poucos os prejuízos que sofreram não apenas ao longo do processo de colonização como ainda hoje. Mas de qualquer forma aí estão, mantendo suas visões de mundo e oferecendo sempre a oportunidade para que os filhos do continente, independente das referências culturais que trazem, possam renovar a vida e resolver as grandes e difíceis questões do mundo atual, fazendo um futuro a partir do passado e da sabedoria dos primeiros americanos.

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