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O ano-novo e o homem antigo

Seres humanos na fase agrícola

Praticamente o mundo todo acaba de celebrar mais uma virada de ano. E a esmagadora maioria das pessoas que participam das mais variadas formas de festejar esse acontecimento aproveitou para utilizá-lo como marco de algum tipo de mudança, projetando a esperança de um futuro melhor num novo ciclo que se inicia. Mas ao cultuar o aspecto de “renovação” presente nesse momento, cada um de nós na verdade está praticando uma das mais antigas ações da humanidade. Celebrar a virada de ano é algo tão primário para a espécie humana que praticamente se confunde com a própria história de nossa classe como ser vivo.

Segundo os cientistas, isso está relacionado ao que aconteceu aos nossos ancestrais de aproximadamente 13 mil anos atrás. Eles tinham se tornado excelentes caçadores e a alta performance nessa atividade os levava a ter uma vida nômade, isto é, se deslocavam tendo como referência a possibilidade de encontrar suas vítimas, buscando outro local quando elas se tornavam menos abundantes. Um outro fator importante está presente nesse momento. É que a essa altura nossos ancestrais já tinham se desenvolvido intelectualmente a ponto de sustentar com regularidade algo que os cientistas identificam como instintivo em nossa espécie: o sentimento religioso. Assim que atingem determinado nível de maturidade biológica, todos os agrupamentos humanos começam a praticar alguma coisa que podemos classificar como religião.

O resultado dessa instituição nos grupos sociais daquele momento levava a que os membros se mantivessem mais unidos e coesos, ou seja, as práticas em torno dos rituais religiosos acabavam servindo para criar um sentimento de unidade e pertencimento que pode ser visto como o protótipo daquilo que muito mais tarde, e com outras formulações, vamos chamar de nacionalidade. Confiantes em suas divindades e amparados na coesão tribal, nossos ancestrais “homo sapiens” se transformariam nos maiores predadores da natureza. O resultado, digamos, ambiental dessa evolução seria um primeiro grande problema para nossos antepassados: a caça indiscriminada diminuiu consideravelmente o número de animais que habitualmente serviam de alimento, situação que seria também agravada, segundo os cientistas, por uma espécie de miniaquecimento do planeta ocorrido naquele período. O fato é que esse momento representou uma das primeiras grandes crises por que passaria a espécie humana, que nesse caso tinha seu modo de vida ameaçado por um fator antes de tudo biológico, a escassez de proteínas.

Apesar de não ter sido um fenômeno global, isto é, o problema não apareceu para as várias tribos ao mesmo tempo, pode-se dizer também que não foi algo isolado, até porque, mesmo vivendo em situação de quase total isolamento, os grupos algumas vezes mantinham contato, quase sempre para guerrear, o que certamente passou a ocorrer com mais frequência quando o problema de disputar a caça se tornou mais frequente. A solução encontrada para essa situação não foi muito diferente da que se pratica atualmente no caso de grandes crises econômicas. Só que, em vez de imprimir dinheiro como fazem os bancos centrais, nossos ancestrais apostaram em cultivar sementes e, para tal, inevitavelmente tinham que esperar os ciclos que os produtos da terra precisam cumprir. Dessa maneira de resolver o problema da falta de alimento viria uma grande surpresa. É que nossos antepassados acabaram percebendo que o cultivo de produtos agrícolas permitia que se sustentasse um número maior de pessoas em um mesmo espaço. Assim, os dias de nomadismo foram gradativamente se extinguindo e dando lugar a agrupamentos humanos sedentários, cada vez mais numerosos e consequentemente com instituições mais complexas.

Uma delas seria fundamental para a manutenção daquele novo modo de vida: a observação da natureza e dos seus ciclos, cuja compreensão era necessária para determinar a hora de plantar e colher os alimentos. Surgem assim os primeiros calendários, que marcam, não dias, meses e anos como os atuais, mas períodos relativos às diversas divindades que nossos ancestrais entendem relacionadas ao milagre de fazer brotar da própria terra a alimentação. Nesse momento já dá pra deduzir que nossos antepassados acabaram percebendo que os ciclos têm começo e fim, e que as etapas mais importantes desse processo precisavam ser cultuadas e celebradas.

O início de tudo (o ano-novo) recebia certamente uma atenção especial e a incerteza quanto ao que podia ocorrer com o novo ciclo de atividades da terra levava a que os antigos vissem o começo do novo ciclo como um momento de maior confiança na divindade da natureza, daí ser celebrado com todo envolvimento, afinal era uma esperança que tinha de ser renovada, pois dela dependia a própria manutenção da vida. Qualquer semelhança com nossa maneira otimista e esperançosa de encarar a virada de ano não é mera coincidência.

Outras importantes conquistas da espécie humana também estão de alguma maneira relacionadas a essa fantástica mudança do modo de vida dos nossos antepassados. O avanço científico, por exemplo. Quem poderia imaginar que o extraordinário conhecimento sobre o cosmos e os fenômenos astronômicos teria sua origem na arte de observar o céu e as estrelas, algo indispensável para conhecer os ciclos naturais? Os signos do zodíaco não são nada além de marcações que nossos antepassados começaram a fazer no firmamento para monitorar os movimentos dos astros e orientar seus trabalhos agrícolas.

Para nós do mundo cristão o ano-novo, isto é, o momento em que o ciclo se reinicia, ainda vem acompanhado de uma outra marcação: o auge da estação fria no hemisfério norte também é utilizado para reconhecer o funcionamento da natureza. Era o momento de – copiando outros agrupamentos organizados da natureza, como as formigas – armazenar alimentos. O natal (quando se celebra o nascimento do personagem central da cristandade) assim tão próximo ao ano-novo tem a ver com esse momento determinado pelas estações do ano. Os romanos comemoravam o início do período gelado na Europa como uma celebração especial, o “Natalis Solis Invictum” (Natal do sol invencível), uma tradição que se ornou de um significado extremamente sagrado para aquele povo, mesmo que o sentido de cultuar as divindades como praticavam os nossos ancestrais tivesse se perdido. Assim, não surpreende que, para impulsionar o cristianismo que ganhava cada vez mais força em Roma, o imperador Constantino determinasse, no século IV, que o nascimento de Jesus fosse celebrado na data em que já se comemorava o solstício de inverno do hemisfério norte.

Assim, seja qual for a maneira pela qual você celebra a passagem do ano, saiba que, ao fazê-lo, você está se conectando aos nossos ancestrais de muitos milênios atrás, e está, como eles, prestando algum tipo de culto a alguma força da natureza. Está principalmente se ornando de um sentimento de esperança e otimismo que tem tudo a ver com a aventura humana no planeta. Não é à toa que tendemos a reservar momentos como esse para a tomada de decisões que julgamos necessárias para que a vida melhore. É a esperança de garantir a nossa colheita interior. Um feliz 2017 para todos!!!

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