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sexta-feira, 28 de outubro de 2016

Inscrições Abertas – I Encontro de Educação Appai





























Estão abertas as inscrições para o I Encontro de Educação Appai – Ações que inspiram e transformam a aprendizagem. Venha bater um papo com profissionais que conhecem e vivem na prática a educação.

Sua participação pode ser feita na página do Benefício Educação Continuada, no Portal da Appai.


Convidados confirmados

Apresentação

Luiz André Ferreira
Professor, Jornalista, Mestre em Bens Culturais e Projetos Socioambientais pela FGV. Foi curador e mediador dos Seminários “Diálogos”, da Revista Carta Capital. Tem passagem pela Folha de S. Paulo, Grupo Estado de S. Paulo, Agência Reuters, Jornal Le Monde - edição em português, Jornal do Brasil, Globo/CBN, Band. Professor e coordenador das IES ESPM, Facha, Estácio, Unicarioca e Universo.


Mesa 1 – de 9 às 12h30

Andréa Schoch
Mestre em Educação pela PUC-PR. Consultora da Appai na modalidade EAD. Colunista da Revista Educar. Experiência na Coordenação de projetos educativos e direção escolar no Sesi. Participação em projetos sobre cooperativismos na Universidade Federal do Paraná. Mais de 15 anos em atividade como docente da
Educação Infantil à Graduação Universitária.


Bárbara Pereira
Apresentadora do programa “Salto para o Futuro”, mais antigo programa sobre educação em rede nacional na TV brasileira. Doutoranda em Memória Social pela UniRio, Mestre em Educação, jornalista com passagens pelo Sistema Globo, TV Educativa e TV Escola. Autora do livro: “Estrela que me faz sonhar - Histórias da Mocidade”, pela Ediouro, e da crônica Aquele Abraço, que faz parte do livro “O meu lugar”.


Carlos Nepomuceno
Doutor em Ciência da Informação pela UFF. Professor de Gestão de Conhecimento e Gestão Estratégica de Marketing Digital. Jornalista e consultor em implantação de redes sociais corporativas. Escolhido como um dos 50 campeões brasileiros de inovação pela Revista Info. Autor de mais de dez livros, entre eles “Educação 3.0”.


Mesa 2 – 13h30 às 16h

Andréa Gouvêa Vieira
Jornalista com passagem pelo Jornal do Brasil, O Globo, Rede Globo e atualmente Colunista da Revista Appai Educar. Colabora com a organização da Rede Sustentabilidade na capital fluminense.

Alex dos Santos (Lemaestro)
Nomeado como um dos Jovens Brasileiros que podem mudar o mundo no Fórum Econômico Mundial, é Diretor de Cultura no Instituto Gerando Falcões e Líder do MCs pela Educação, que busca valorizar o professor e mostrar caminhos para transformação através da educação. Até o momento o grupo já alcançou mais de 400 mil jovens. 

Carlos Damião Correia França
Professor, Especialista em Botânica Estrutural pelo Jardim Botânico e Desenho Científico pela Uerj. Autor do projeto de sustentabilidade “João de Barro”, de conscientizar a comunidade escolar de Itaguaí para a busca de soluções dos problemas ambientais locais.

Waldir Romero
“Tornou o quase impossível em realidade ao reverter o quadro de violência e degradação na diretoria da Escola Municipal de Ensino Fundamental Comandante Garcia D´Ávila, SP.”

Professor, Pedagogo, Jornalista, Pós-graduado em Educação pela Universidade de São Paulo. Experiência como Assessor de Gestão Estratégica da Secretaria de Educação do Estado de SP, Coordenador Regional na Secretaria Municipal de São Paulo, Integrante da Equipe Paulo Freire na prefeitura de São Paulo, gestão Luiza Erundina. Diretor Social da escola de samba Unidos do Peruche.


Encerramento

Wagner Siqueira
Professor, membro da Academia Brasileira de Ciências da Administração, Vice-Presidente da Escolinha de Artes do Brasil e atual Presidente do CRA/RJ – Conselho Regional de Administração do Estado do Rio de Janeiro. Autor de mais de 10 livros, entre eles: “As organizações são morais? Responsabilidade Social, Ética Empresarial e Empresa Cidadã”.


Informações sobre o evento 

Data: 30 de novembro de 2016
Hora: A partir das 9:00
Local: auditório do Centro de Convenções do Bossa Nova Mall, que fica ao lado do Aeroporto Santos Dummont, no Centro do Rio.

PROGRAMAÇÃO SUJEITA A ALTERAÇÃO

A Balaiada, mais uma revolta camponesa no Brasil

A Balaiada no sertão do Maranhão.





























Seguindo o roteiro do Brasil dos anos seguintes à Independência, quando muitos conflitos regionais irromperam, o sertão maranhense se rebelaria contra as principais mazelas que atormentavam a maior parte da população, como a pobreza, as péssimas condições de vida e o mandonismo de líderes locais. No episódio que entraria para a história brasileira com o nome de Balaiada, esses componentes não faltaram, somando a ânsia da população excluída por uma vida menos sofrida com um cenário de importantes mudanças sociais e políticas que tiveram início nas esferas mais altas, com a própria decretação da autonomia em relação ao colonizador, e se espalharam por vários pontos do país, cada uma delas sendo influenciada pelas realidades locais.

Nas primeiras décadas do século XIX, o interior da província do Maranhão mantinha sua população dentro do padrão de vida habitual do meio ambiente sertanejo. Pobreza, miséria, exploração e ainda o pulso firme dos latifundiários muitas vezes extrapolando a esfera da engrenagem produtiva e avançando em direção a excessos de poder e desmandos de toda sorte. Um desses episódios estaria relacionado com os primeiros focos da rebelião que sacudiria o sertão maranhense. O irmão de um certo Raimundo Campos, vaqueiro conhecido em certas regiões sertanejas, fora preso de forma arbitrária pela força policial local, o que despertaria um forte sentimento de revolta na população. É organizada então uma ação para libertar o camponês, liderada por seu irmão, que acabaria bem-sucedida e ficaria conhecido pela alcunha de “Cara Preta”. O fato naturalmente acenderia o ânimo dos sertanejos, que não tardariam a apostar em outras investidas para acabar com o poder desmedidos dos proprietários de terra.

Uma outra figura então surge nesse explosivo ambiente e ajuda a fortalecer o em princípio desordenado movimento. Manoel Francisco dos Anjos Ferreira, conhecido como “Balaio”, por sua atividade de artesão desse artefato, não só daria nome à luta dos camponeses como seria o seu grande referencial enquanto se desenrolavam os atrozes conflitos que duraram em torno de três anos, a partir de 1838. Apesar do início marcado fundamentalmente pelas demandas da população sertaneja, o movimento também despertaria o interesse de uma classe média local, que de alguma forma também sofria os efeitos daquela ordem excessivamente centrada no poder de latifundiários da região.

Tendo na cultura do algodão uma grande fonte de renda, a região sofria com uma forte crise envolvendo esse produto, o que levava certos setores da classe média – em grande medida simpatizante de uma visão republicana que naquele momento começa a se popularizar por todo o país – a também questionar a eterna presença, nos postos de decisão do poder, das mesmas famílias de proprietários rurais e seus representantes. Dessa forma, houve a aproximação entre esses setores e os sertanejos que já vinham patrocinando algumas ações armadas em questionamento aos poderosos locais. De início, o casamento entre esses dois segmentos sociais parecia promissor. No espaço urbano das proximidades da vila de Caxias, era criado o periódico “Bem-te-vi”, voltado para difundir ideias republicanas e que serviria também para popularizar e atrair simpatizantes para as lutas dos balaios pelo sertão. Estes, por sua vez, à medida que obtinham certo sucesso em desafiar as tropas oficiais e de jagunços dos líderes locais, iam conseguindo também a adesão de muitos deserdados e excluídos, que, se por um lado colaborariam para encorpar a revolta, por outro ajudariam a enfatizar a desorganização e o despreparo dos rebeldes para um movimento que cada vez criava mais expectativas para a população mais sofrida do sertão.

O resultado disso foram episódios desordenados que envolviam saques, depredações de patrimônio, desforras e não raro cenas de banditismo, que aos poucos instalaram um quadro de caos social. Um fator que também despontaria no bojo dos acontecimentos foram as muitas fugas de escravos, que injetavam nos grupos rebeldes um contingente que fazia número, por um lado, mas por outro se mostrava totalmente despreparado para ações ordenadas necessárias para o êxito nos pontos de combate. Nesse capítulo da entrada de cativos para a luta dos balaios se destacaria a figura de outro importante líder do movimento, Cosme Bento, que teria comandado algo em torno de três mil escravos, que abandonaram um quilombo em que se reuniam fugitivos de fazendas e se juntaram às tropas. Aliás, foi muito forte o viés antiescravista no movimento, ficando conhecida entre os revoltosos a quadra que dizia: “O Balaio chegou! / Cadê branco! / Não há mais branco / Não há mais sinhô”.

Todo esse quadro, apesar de desarticulado, chegaria a produzir alguns frutos. Em 1839 os revoltosos conseguiram tomar a vila de Caxias e lá instituíram um governo provisório, decretando o fim da Guarda Nacional e expulsando indivíduos de origem portuguesa. Esse último fato revelaria dois importantes vieses do movimento. Primeiro, a presença ainda forte de ideias geradas durante os conflitos que se travaram contra tropas fiéis à coroa portuguesa durante o processo de independência, que levavam a maior parte da população a repudiar a presença dos antigos colonizadores. Em segundo lugar, o caráter sertanejo da revolta, que procurava “limpar” o sertão da presença das elites que herdaram as antigas estruturas latifundiárias que tiveram início na posse de terras por colonos portugueses.

Mas a Balaiada não resistiria a sua falta de organização e à situação caótica que se instalaria em seguida, trazendo consigo o rastro de marginalidade e vandalismo, que não demoraria a ocasionar na deserção da classe média, que ao contrário, sofrendo também aquelas consequências, passaria de apoiadora a perseguidora dos sertanejos rebeldes. O quadro de turbulências sociais não demoraria a despertar a atenção do governo imperial que, atendendo aos pedidos dos proprietários de terra que se viam ameaçados, enviaria tropas para conter os rebeldes. Nesse momento entra em cena o coronel Luis Alves de Lima e Silva, enviado da corte diretamente para a região das proximidades da vila de Caxias, onde os balaios haviam fixado sua sede. Militar hábil e preparado nas fileiras do exército brasileiro, com experiência na luta pela independência e no conflito na Cisplatina, não encontraria muitas dificuldades para dominar a vasta região em que os revoltosos mantinham atividade, atuando como comandante de tropas do Maranhão e de dois estados vizinhos, Ceará e Piauí. A grande competência bélica do oficial permitiria dominar com relativa facilidade as áreas detidas pelos balaios que, além de pouco organizados, não iam além dos conhecimentos limitados de uma guerrilha rural. Mesmo assim, no pouco mais de um ano de duração dos combates entre as tropas oficiais e os balaios, restaria um saldo estimado de aproximadamente doze mil mortes, principalmente entre os sertanejos.

Em 1840, Lima e Silva anunciava o completo domínio sobre as regiões em que os revoltosos tinham se instalado, após acenar com a proposta do governo imperial de anistiar os revoltosos, que faria com que muitos desertassem, enfraquecendo o movimento. O sucesso militar lhe renderia o título de barão, concedido pelo imperador Pedro I, em reconhecimento aos serviços prestados ao país e ainda com a rara honraria de poder escolher o nome do seu título. Como forma de celebrar o seu êxito no sertão maranhense, optou pela alcunha de Barão de Caxias, em referência à cidade em que os balaios conseguiram ir mais longe em sua causa.

O destino dos líderes, que se recusaram a abrir mão da luta, naturalmente seria o mesmo reservado a outras figuras chave de movimentos de revolta contra o poder central no Brasil, como Tiradentes, Antonio Conselheiro ou Samuel Beckman. Em 1841, o líder negro Cosme Bento seria o último grande cabeça do movimento a ser capturado, sendo executado na forca. Antes dele, Raimundo Gomes já havia morrido em condições não bem explicadas, enquanto era levado para o exílio em São Paulo, e Manuel Ferreira, o “balaio”, sucumbia depois de uma gangrena ocasionada por um ferimento em combate.

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terça-feira, 25 de outubro de 2016

A escola dos nativos digitais - Dicas práticas aos professores

Reflita e responda: A escola de hoje, de outubro de 2016, pode ser considerada nativa digital?

Para responder “de pronto” a essa pergunta, talvez você hesite, o que é muito natural considerando as diferentes possibilidades de análise. Mas, pense comigo... Se os alunos que estão na escola atualmente são os Nativos Digitais, e se a sociedade em que vivemos faz uso desenfreado das tecnologias digitais (realidade sem volta), então podemos responder afirmativamente que a escola de hoje é nativa digital. Mesmo que as políticas públicas para educação não consigam dar vazão, efetivamente, às demandas de infraestrutura para a Era Digital, o fato é que as tecnologias existem dentro das escolas, mesmo que seja no interior das mochilas dos alunos, ali escondidas, no formato de smartphones. Portanto, se entendemos que a escola é, em sua essência, representada pelos próprios alunos que a compõem, então temos sim uma escola nativa digital.
E é nesse contexto que eu apresento sugestões aos professores (em especial aos imigrantes digitais) de como encarar a Era Digital.
O que está ao nosso alcance mudar?

  1. O ESPAÇO DE APRENDIZAGEM – É saudável sair daquele espaço fechado da sala de aula e procurar uma diversidade de lugares e processos de aprendizagem individualizados e em grupo. Assim, a paisagem, o retrato da sala de aula não será mais o de 30 ou 45 alunos sentados, mas quatro a cinco num lado atuando em grupo, do outro lado outros cinco trabalhando individualmente, outros em outros espaços, de maneira que a escola se torne um local de enorme diversidade de lugares e processos de aprendizagem. Desta forma, o dia a dia do estudante não será mais feito de “aulas dadas” e sim de um conjunto de atividades significativas (em grupo, pesquisa, individual), muito mais rico e atrativo do que de lições estruturadas como vemos ainda hoje.

  1. O PAPEL DO DOCENTE – Está constatado que durante muitas décadas o acesso ao conhecimento foi feito por meio do professor. Ele transmitia. Na era Digital isso muda, pois os alunos chegam direto às informações, por meio da internet. Portanto, agora o papel do professor não será mais transmitir conhecimentos e sim atuar como um organizador da informação, que ajudará os alunos a construir a sua própria compreensão, para darem sentido a esse conhecimento.
(Se você ainda “dá aulas”, está perdendo o trem da história...)
Caberá ao professor dessa Era conduzir os alunos aos caminhos da pesquisa, dar orientação clara, promover trabalhos em grupo. Dessa forma, ele vai organizando, dando sentido às atividades, e não mais sendo ele o transmissor da própria informação. Sua função agora é disponibilizar as formas de acesso ao conhecimento e não mais “dar conteúdo”.

  1. A FORMA DE RELACIONAMENTO COM OS ALUNOS – Na pedagogia essa mudança se dá de um modo vertical e unilateral (de um professor para um grupo de alunos ensinados simultaneamente, tratando todos da mesma maneira) em direção a uma pedagogia da valorização das relações, não só entre professores e alunos, mas com todas as ligações que existem no espaço da sala de aula: entre alunos, alunos e professores, entre diversos tipos de alunos, entre diversos grupos, uma pedagogia da cooperação. Nóvoa, renomado estudioso da educação, ressalta que os alunos aprendem mais uns com os outros do que com professores (ele cita a experiência da escola de medicina de Harvard). Essa é a base da pedagogia da Era Digital.
E, para finalizar, a mensagem é pra você, professor. Toda mudança em educação requer que deixemos a nossa zona de conforto, mas o resultado nos traz crescimento e realizações. Experimente pequenas mudanças a cada dia, ciente de que: “É fundamental diminuir a distância entre o que se diz e o que se faz, de tal forma que, num dado momento, a tua fala seja a tua prática”. Paulo Freire.

Um abraço e até a próxima semana!


sexta-feira, 21 de outubro de 2016

O futebol e o complexo de vira-lata

Pelé e Garrincha, nascem dois gênios.

























Em 1958, a revista France Football lançaria uma edição em que se dedicava a analisar todas as 16 seleções que disputariam o mundial que se realizaria na Suécia. Para chegar a um quadro tanto quanto possível realista a publicação elegeu alguns critérios aos quais submeteu as equipes. Um deles saltaria aos olhos de nós brasileiros: o psicológico. Quatro anos antes, na copa da Suíça, a seleção nacional cairia diante da Hungria, mesmo apresentando um time promissor e considerado forte. O motivo alegado: falta de afirmação, fraqueza psicológica ou, como mais tarde diria o dramaturgo Nelson Rodrigues, complexo de vira-latas.


O fato é que a revista francesa teria colocado o Brasil entre os favoritos, por sua excelência nos quesitos táticos, físicos e técnicos, se não fosse o nosso eterno problema de autoafirmação. Reforçava essa tese o desempenho da seleção nas últimas competições, terceiro e segundo lugares respectivamente nos mundiais de 1938 e 1950, além de uma participação ruim em uma excursão à Europa em 1956, quando, além de mal, protagonizara uma desagradável cena de pancadaria generalizada. Decididamente, não possuíamos virtudes como o autocontrole, a confiança e a frieza, consideradas fundamentais para uma equipe vencedora. Tínhamos a habilidade de um Garrincha, a genialidade de um Didi e a modernidade de um Nilton Santos, mas tudo isso seria insuficiente diante de tanta fraqueza psicológica. Uma opinião partilhada inclusive pela esmagadora maioria dos brasileiros.


Segundo o jornalista esportivo João Máximo, a copa de 1958 seria a primeira em que a nossa seleção entraria em campo para mostrar, antes de tudo, que sabia jogar futebol, sem o peso de carregar o patriotismo ou de atuar como propaganda do “país do futuro”. Pela primeira vez tivemos uma comissão técnica diretamente voltada para atuar em cima das eventuais limitações dos jogadores brasileiros. Na malfadada excursão à Europa dois anos antes, profissionais se aplicavam em analisar detidamente os atletas em busca de identificar possíveis medos, instabilidades ou destemperos, tudo de forma “científica” como se propalava na época. Um relatório gerado após o estudo confirmava a nossa limitação mas sutilmente apresentava uma novidade: a causa do problema estava situada em características raciais, que nos tornariam menos aptos que outros povos, como os gauleses ou os nórdicos, para atividades em que se exigia alta performance no aspecto psicológico. Éramos, além do mais, tipos tendentes a certos arroubos de melancolia, deslocados fora do hábitat natural, nostálgicos, banzudos.


Por mais absurdas que possa soar aos olhos de hoje, as conclusões foram levadas a sério pela comissão técnica, que escalaria muitos atletas de pele clara para o jogo de estreia, deixando de fora jogadores “de cor”, como Djalma Santos. Em lugar de um certo “negrinho” de 17 anos, artilheiro do último campeonato paulista e muito elogiado pela crônica esportiva brasileira, entraria em campo o alourado Mazzola, de ascendência italiana e já conhecido no futebol europeu. Apesar da boa estreia contra a Áustria, a seleção brasileira voltaria a decepcionar na segunda partida, quando não passaria de um teimoso zero a zero com os ingleses. Sinal de inconstância do time? A história começaria a ser reescrita no terceiro e último jogo da terceira fase. Contra a poderosa União Soviética do lendário goleiro Yashin o técnico Vicente Feola decide lançar o tal negrinho e um mestiço de pernas tortas de nome curioso: Garrincha.


Logo nos primeiros minutos do jogo o mundo começa a conhecer um espetáculo jamais visto, e o Brasil ameaçava espantar o vira-lata, depois que o ponta-direita do Botafogo dá um incrível drible no adversário russo e acerta a trave do “aranha-negra”. Daí pra frente a seleção seguiria firme rumo a seu primeiro título mundial, e já no jogo seguinte, pelas quartas de final, foi a vez do garoto Pelé marcar um gol antológico, seu primeiro em mundiais. Na final contra a dona da casa aconteceria o que pode ser entendido como uma última prova de fogo para a autoestima do brasileiro.


A seleção brasileira faria a final contra a Suécia, a dona da casa, cujo uniforme era praticamente idêntico ao nosso. Como mandava o regulamento, um sorteio iria determinar quem teria de entrar com visual diferente. O acaso, assim, obrigaria a seleção a jogar com o seu segundo uniforme, na cor azul. O problema era que, desse jeito, tínhamos sido eliminados no mundial anterior, aquele mesmo a partir do qual passaram-se a construir todas as teorias que buscavam explicar a suposta desvantagem essencial do brasileiro em relação a outras culturas.


Novamente vem à tona toda a insegurança que já parecia superada. Nossa verve supersticiosa parecia apontar para mais uma morte anunciada. A solução, porém, viria de uma maneira bem brasileira, numa sacada genial do chefe da delegação nacional, Paulo Machado de Carvalho, que, antes que qualquer impressão fosse formada, tratou de convencer os atletas de que a sorte sorria para a seleção brasileira. Afinal, lembrou o dirigente, azul é a cor do manto de Nossa Senhora Aparecida, a padroeira e maior devoção do Brasil. Alguns dos jogadores embarcaram com tanta intensidade na observação, que resolveram costurar os números e o escudo na camisa com as próprias mãos.


A vitória arrasadora por cinco a dois sobre os donos da casa, mais que o primeiro título do país na sua maior paixão nacional e a confirmação da fé como atributo inseparável do brasileiro, representou a queda de um discurso enraizado por muitos séculos na mentalidade do país, que sugeria, a partir nossa diversa e pitoresca formação, a causa de nossos eternos males. O futebol, através de sua lógica própria, colaboraria para jogar por terra teorias raciais que ao longo de muito tempo encontraram espaço no pensamento de vários dos nossos intelectuais. De Euclides da Cunha a Oliveira Vianna. De Varnhagen a Silvio Romero. Se não se pode dizer com convicção absoluta que o brasileiro abandonou de vez o estigma vira-lata, a história do futebol, a nossa atividade de maior excelência, trataria de deixar esse incômodo símbolo bem longe de nós.



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segunda-feira, 17 de outubro de 2016

Quem é o NATIVO DIGITAL que o PROFESSOR vai encontrar na escola?


























.Os professores que atuam, hoje, conhecem bem as características dos alunos com quem vão topar nas escolas?

Para que você possa compreender e mergulhar nesse texto conosco, descubra antes a qual geração você pertence, analisando os dados abaixo:

Geração dos Baby Boomers (nascidos no período do pós-guerra, entre 1946 e 1960)
Geração X (nascidos entre 1960 e 1980)
Geração Y (nascidos entre 1980 e 1995)
Geração Z (nascidos depois de 1995)

Agora que você já se localizou, vamos avançar compreendendo quais gerações fazem parte do grupo chamado “NATIVO DIGITAL”.

Da geração “Y” para frente é que a tecnologia digital foi se tornando presente por meio de videogames, Internet, telefone, celular, MP3, iPod. Portanto, é a partir dessa geração que a classificação “Nativo Digital” passou a existir.

Conheça o conceito de Nativo Digital (ND), formulado pelo próprio autor da expressão, Mark Prensky (2001), especialista em Tecnologia e Educação, pela Harvard School:

“Nativos digitais são aqueles que cresceram cercados por tecnologias digitais. Para eles, a tecnologia analógica do século XX – como câmeras de vídeo, telefones com fio, informação não conectada (livros, por exemplo), internet discada – é velha. Os nativos digitais cresceram com a tecnologia digital e usaram isso brincando, por isso não têm medo dela, a veem como uma aliada”.

A geração dos ND tem uma forma diferente de pensar, de aprender, não diferenciando o on-line do off-line. Essa forma se distancia muito da maneira de proceder dos chamados IMIGRANTES DIGITAIS, que são aquelas pessoas que chegaram mais tarde à tecnologia digital e, por isso mesmo, têm uma menor facilidade para abandonar antigos métodos, mostram medo do novo, preferindo ficar com o que já conhecem. 

Mark Prensky menciona como exemplo da utilização de métodos antigos dos imigrantes digitais: “Imprimir e-mails e não usar a internet como primeira fonte de informação”, sendo essa distinção de caráter mais cultural e atitudinal. Em geral, são aqueles nascidos de 1946 a 1980, gerações que não cresceram imersas num mundo conectado e tecnológico. Dessa forma, é muito natural que não tenham a mesma facilidade (com as tecnologias digitais) encontrada nas gerações Y e Z.

Agora, uma questão nasce: como professores e alunos, de diferentes gerações, vão interagir já que a aprendizagem dos ND está mergulhada até a cabeça nas tecnologias digitais? É preciso que o professor pense sobre isso, pois temos em nossas escolas, hoje, os aprendizes do novo milênio, que pensam e aprendem de forma diferente das gerações analógicas.

E, pensando no tema, separamos dicas práticas aos professores de como se adaptar à ERA DIGITAL:

  1. Abandone as expressões saudosistas do tipo: “No meu tempo, o aluno ficava em silêncio e só ao final de toda a explicação é que fazia uma pergunta”. A verdade é que os tempos são outros, a conexão digital traz respostas imediatas às dúvidas, por isso o papel do professor também é outro. Ele não tem que ter todas as respostas, ele é, hoje, um “orientador” nesse processo fantástico que se chama aprendizagem.
  2. Procure conhecer as diferentes tecnologias digitais que estão a sua disposição, quer sejam materiais de aprendizagem, softwares para planejamento de aulas ou Recursos Educacionais Abertos. Entenda a dinâmica de um videogame, sim, jogue com o filho ou neto e aprenda a ver as possibilidades dentro do que encanta os indivíduos Y e Z. As gerações dos Baby e dos X precisam compreender que são imigrantes digitais e precisam fazer o seu “puxadinho” para a tecnologia.
  3. Muito importante que você tenha humildade e deixe que essa geração lhe apresente o que houver de novo em tecnologias, que lhe mostre como pensa, o que sente e como age. O comportamento de escuta, humildade e compreensão só vai aproximar as gerações e promover crescimento e desenvolvimento num clima amistoso, como deve ser o da aprendizagem.
  4. Cabe, também, ao professor buscar novas práticas de ensino, novos encaminhamentos que aproximem o aluno da escola, lembrando que a educação deve estar voltada para o tempo em que eles (alunos) vivem, a ERA DIGITAL.

No próximo texto da coluna, mais dicas práticas para o professor.

Até lá!




sexta-feira, 14 de outubro de 2016

As rebeliões pernambucanas no Brasil do século XIX

Estudo para Frei Caneca (1918), por Antonio Parreiras
Quando passamos o olhar pela história das nossas rebeliões políticas, uma constatação nos vem à mente: Pernambuco definitivamente é a terra do inconformismo no Brasil. Já no século XVII ocorria lá uma das mais importantes batalhas travadas em solo brasileiro até então, quando a população da província expulsou os holandeses. No início do século seguinte, foi a vez dos Mascates desenharem na história o que seria um dos mais emblemáticos movimentos nativistas do Brasil. Mas no alvorecer do século XVIII o espírito inconformista dos pernambucanos ganha toques de pensamento republicano. É quando têm curso dois movimentos revolucionários que seriam fundamentais para as importantes transformações políticas que aquele período reservaria ao país.

O primeiro deles é a chamada Revolução Pernambucana, o último grande movimento de rebelião do Brasil colônia, e que, diferentemente de muitos outros que não passaram da fase de conspirações, chegou a ações concretas de tomada de poder, sendo de certa forma uma espécie de sinal de alerta para os governantes de Portugal sediados no Rio de Janeiro, de alguma maneira influindo na decretação da Independência apenas cinco anos mais tarde. Aliás, medidas adotadas pela Família Real a partir de sua transferência para a colônia na América estariam entre os elementos motivadores do movimento pernambucano de 1817. Aumentando tributos e concedendo privilégios a setores ligados à burguesia inglesa, a Coroa portuguesa rompe o chamado Pacto Colonial, o que se revelaria extremamente prejudicial à população de um modo geral, mas principalmente aos proprietários rurais, o principal pilar da economia da colônia.

Em Pernambuco tais medidas cairiam como uma bomba entre os senhores de engenho, o que serviria para instalar um ambiente fortemente hostil contra a monarquia portuguesa, que com suas deliberações colaborava para aumentar ainda mais uma grave crise financeira, que levava ao empobrecimento de uma região antes próspera para a economia nacional. Uma violenta seca que teve seu ápice no ano de 1816 também contribuiria para o acirramento dos ânimos, levando a que os ideais sustentados pela bem-sucedida Revolução Francesa encontrassem naquele estado da região Nordeste um solo fértil. Membros da Igreja e de movimentos maçônicos muito atuantes na província se encarregariam de levar adiante o ideal de derrubar o sistema monárquico, expulsando Portugal e instituindo uma república.

Quando o movimento se encontrava em fase de estruturação, a notícia da conspiração chega ao governador da província Caetano Pires de Miranda, que manda prender os principais envolvidos. A reação popular, porém, seria grande, e tropas rebeldes iniciaram um movimento de tomada do palácio, resistindo às forças militares que tentavam garantir a integridade do governo monárquico. O episódio fortaleceu os revolucionários, que não demoraram a se espalhar por todo o Recife e decretar um governo provisório, composto por membros de vários setores e classes sociais. Algumas medidas então são tomadas com a finalidade de atrair a população como um todo e principalmente as elites para o movimento, como a extinção de alguns impostos e dos títulos de nobreza, a libertação de presos políticos e o aumento do salário dos militares.

Os revolucionários, interessados em solidificar suas pretensões, tentaram estender a rebelião a outros estados do Nordeste, como a Bahia e o Ceará, mas encontraram a resistência das tropas oficiais lotadas nessas províncias, bem como um menor interesse por parte da população. Também buscaram externamente apoio para seu movimento de independência, realizando contatos com pessoas influentes nos Estados Unidos, Inglaterra e até na vizinha Argentina. Isso seria decisivo para as ações de repressão por parte de dom João, que mandaria iniciar uma intensa ação militar contra os revoltosos, que não resistiria ao melhor preparo bélico das tropas da coroa. Os 75 dias de governo provisório revolucionário teriam fim, com a prisão de muitos rebeldes e a exemplar condenação à morte de líderes como Teotônio Jorge Martins e de Miguel Joaquim de Almeida Castro, o padre Miguelinho.

A Independência do Brasil não seria suficiente para frear o ímpeto revolucionário dos pernambucanos. Apenas dois anos depois da autonomia em relação a Portugal, já uma outra rebelião republicana movimentava a província. Em 1821, um pouco antes da independência, é organizada a chamada Junta Constitucionalista, um movimento autônomo que, paralelamente ao governo que se instalaria depois da derrota da rebelião de 1817, procurava disseminar um discurso liberal, de teor semelhante ao presente no ideário da Revolução Pernambucana – até porque as condições de insatisfação que motivaram essa rebelião ainda permaneciam –, mas encontravam a resistência das elites locais que estavam mais interessadas em participar do governo de D. Pedro I do que em movimentos separatistas. Os descontentes, novamente abrigados na igreja e nas lojas maçônicas, levaram adiante seus objetivos republicanos e decretaram em 1824 a Confederação do Equador. Como em 1817, os rebeldes buscaram obter êxito através do apoio de outras províncias, sendo novamente malsucedidos. Entre as novidades da nova rebelião estava a preocupação com a questão racial, algo praticamente inexistente na Revolução Pernambucana. Os revoltosos decretaram o fim do tráfico negreiro à província, o que acabaria sendo um elemento de discórdia, já que nem todos os segmentos participantes estavam interessados num rompimento tão profundo com as condições econômicas até então predominantes, como seria abdicar da mão de obra escrava.

Uma importante característica dos confederados era a participação popular entre os revoltosos, com destaque para a participação de pessoas de todas as raças e tipos sociais nas tropas. Essa presença de segmentos entre os menos favorecidos da província é apontado por historiadores como um dos fatores de enfraquecimento do movimento, pois muitos senhores de engenho e membros das elites temiam que essas forças populares alcançassem força após o êxito da revolução e assumissem uma situação de protagonismo na nova república que se formaria. Desse modo, premidos pela voracidade com que as tropas de d. Pedro I avançaram sobre os rebeldes e tendo ainda de enfrentar exércitos de mercenários como o comandado pelo famoso almirante Cochrane, os revolucionários acabaram sucumbindo. O destino de seus principais personagens seria, como se poderia esperar, dos mais trágicos, com degredos, confisco de bens e, naturalmente, pena de morte, como aconteceria com uma das figuras que mais emblematicamente passaria à história do pensamento republicano no Brasil, o Frei Caneca, imortalizado no Auto do Frade, do também pernambucano João Cabral de Mello Neto. Por conta da atitude revoltosa, a província de Pernambuco seria punida pelo governo imperial com a perda de muitas terras, dentre outras severas restrições. O sonho de um Brasil republicano, porém, não se apagaria e o final do século veria a queda da monarquia e marcaria definitivamente na história a memória do Leão do Norte como um lugar de inconformismo e luta a favor do ideal da igualdade.


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terça-feira, 11 de outubro de 2016

Pedro II abre concurso federal para professor





























Segue até o próximo dia 17 as inscrições para o concurso para preenchimento de vagas para novos professores no tradicional Colégio Pedro II. São 14 cargos efetivos nos ensinos Básico, Técnico e Tecnológico. Além disso os organizadores aproveitam para criar um banco de reservas para cada disciplina oferecida.

As inscrições são somente virtuais pelo site www.cp2.g12.br. Após preencher a ficha é necessário imprimir a GRU - Guia de Recolhimento da União - e efetuar o pagamento da taxa no valor de R$ 160,00. O concurso terá validade de 1 ano e poderá ser prorrogado por igual período.

Pertencente ao Governo Federal, o Pedro II é o terceiro colégio mais antigo do país ainda em atividade, depois do Ginásio Pernambucano e do Atheneu Norte-Riograndense. O Pedro II tem 13 mil alunos que estudam em 14 campi, sendo 12 no município do Rio de Janeiro, um em Niterói e um em Duque de Caxias, além de uma unidade de educação infantil.

Salário pode dobrar com titulação profissional
O salário básico é de R$ 4.014,00 mas pode mais que dobrar, ou seja, chegar a R$ 8.639,50 no caso do aprovado ter título de doutor ou chegar a quase R$ 6 mil para os diplomados com mestrado. Por isso, faz parte da terceira fase de classificação a análise curricular do candidato. A oportunidade exige dedicação exclusiva com jornada de 40 horas semanais.
Benefícios:

Além do salário, os profissionais podem receber:

Auxílio refeição: R$ 458,00
Auxílio transporte: (opcional)
Auxílio creche: R$ 321,00 por dependente de até 5 anos
Saúde: Auxílio no pagamento do plano

Prova de Seleção

Para todas as disciplinas serão aplicadas provas escritas, contendo questões objetivas de múltipla escolha e discursivas realizadas no dia 11 de dezembro. Serão realizadas no Rio de Janeiro, Duque de Caxias e Niterói. Os horários e locais ainda serão escolhidos e portanto essas informações não constam no edital.

O processo seletivo conta ainda com uma aula teste com temática dentro do cargo pretendido. Essa etapa tem caráter eliminatório e classificatório. Esses exames serão agendados entre 30 de janeiro a 4 de fevereiro.

Vagas
As oportunidades são para 14 áreas de ensino.

Idiomas: Francês, Inglês e Português
Exatas: Informática, Desenho e Matemática
Humanas: Artes, Música, Geografia, História, Sociologia e Educação Infantil

Ciências: Biologia e Educação Física

Professores Ilustres:


Uma das marcas do Pedro II sempre foi a excelência de seus docentes. Fizeram parte de seus quadros grandes nomes nas áreas das artes, literatura, política, medicina, advocacia e outras profissões como: Arnaldo César Coelho, Aurélio Buarque de Holanda, Cecil Thiré, Euclides da Cunha, Heitor Villa-Lobos, José Veríssimo, Manoel Bandeira, além de Osório Duque-Estrada, autor do Hino Nacional.


Educação na Era Digital – REA, que negócio é esse?






























Uma tarde dessas estava sentada em frente ao computador, trabalhando, quando de repente ouvi uma chamada sonora. Era uma professora me chamando por meio do Skype. Atendi. Ela cumprimentou-me desejando uma boa tarde e foi logo perguntando: Você já ouviu falar em REA? Conheci essa tarde e estou deslumbrada com os benefícios e o que ele pode fazer por nós, disse ela.

Quem ouve uma frase como essa pensa logo em um remédio milagroso ou algo parecido. Mas, muito embora seja uma ideia maravilhosa sim, nada tem a ver com remédios: os REAs são “Recursos Educacionais Abertos”, definidos pela comunidade REA como:

“Materiais de ensino, aprendizado e pesquisa em qualquer suporte ou mídia, que estão sob domínio público, ou estão licenciados de maneira aberta, permitindo que sejam utilizados ou adaptados por terceiros.”



O conceito é amplo e se desdobra. Estes recursos educacionais abertos podem ser conteúdos de aprendizado (cursos, coleções, periódicos...), podem ser, também, ferramentas (softwares para auxiliar na criação e busca de conteúdos, comunidades de aprendizagem...) e chegam ao nível das licenças de propriedades intelectuais, que são chamadas de recursos para implementação (envolvendo, por exemplo, indexação e arquivamento).

REAs podem ser: livros, games, planos de aula, softwares, jogos, resenhas, trabalhos escolares, infográficos, diagramas, vídeos, animações, áudios, imagens e qualquer outro recurso que sirva para todo e qualquer processo educacional e cultural. Como bem apontado pela comunidade REA, a ideia principal é que qualquer coisa que você publique possa ser utilizada e recombinada por outras pessoas, aumentando o conhecimento de todos. Como blocos que podem ser conectados por pessoas diferentes, em locais diferentes e de modos diferentes, para satisfazer uma necessidade específica de conhecimento.

Importante frisar que há uma diferença entre um conteúdo ser de “livre acesso” ou ser um “REA”.  O conteúdo de “livre acesso” só pode ser utilizado exatamente no formato em que estiver disponível – por exemplo, assistir a um vídeo. Nenhum outro direito de uso e recombinação é dado ao usuário do conteúdo gratuito. Por vezes alguns deles apresentam notas como “todos os direitos reservados” (do termo em inglês “all rights reserved”). Já os REAs são disponibilizados por licenças abertas menos restritivas, como uma Creative Commons, que permitem diversos usos. Para o tipo CC, o autor da obra decide compartilhar parte de seus direitos patrimoniais com a comunidade. Por isso, se define que “REAs são materiais de aprendizado livremente disponíveis para uso, recombinação e redistribuição”.


Mesmo dentro da licença do tipo CC (Creative Commons), existem diferentes tipos. Algumas não permitem comercialização, outras sim, mas todas autorizam o uso dos recursos desde que citada a fonte. Fique atento e consulte sempre o tipo de licença de um REA.

Exemplos de sites que apresentam muitos REA para utilizar em sala de aula:



sexta-feira, 7 de outubro de 2016

Shakespeare e a nossa visão do que é ser um gênio

"Romeu e Julieta", do pintor inglês Ford Madox Brown (1821-1893).

Willian Shakespeare viveu e produziu sua prodigiosa obra no século XVI, em um momento em que a criação artística era concebida a partir do reconhecimento da excelência dos nossos antepassados da Antiguidade greco-romana, conforme propunham os ideais do Renascimento. No entanto, a enorme contribuição do bardo inglês para a história intelectual do Ocidente seria muito melhor aproveitada quase três séculos depois, quando a Europa do Oitocentos, depois de passar pelas experiências intelectuais de escolas como o Iluminismo e o Empirismo, redescobriria seu valor e, mais que isso, o ergueria à condição de uma das maiores referências, não só da arte e da cultura, mas também da própria capacidade de entender a condição humana.


Shakespeare não seria inicialmente concebido com a aura de genialidade com a qual hoje o entendemos. No século XVII, por exemplo, fora quase que completamente esquecido e, no seguinte, sua obra apareceria algumas vezes ironizada em trabalhos de críticos altamente tributários da razão, como Voltaire. Alguns fatores ajudam a explicar a causa desse ostracismo. Um deles talvez esteja ligado a sua biografia e às condições em que produziu seus textos. Shakespeare vinha de origem popular e sua formação destoava em alguns pontos daquela que foi recebida por outros grandes nomes de referência.


Esse fato levaria a um certo exagero por parte de críticos mais acirrados de sua obra, pois, apesar da ausência de certas insígnias acadêmicas, o bardo jamais deixou de contar com uma formação de alto nível, o que significa dizer que teve acesso a conhecimentos, como a cultura clássica, a mitologia greco-romana, a tradição narrativa de autores italianos e tudo o mais que, podia-se dizer, estaria ligado a uma formação artística e literária de alto padrão. A forma com que constituía suas peças deve também ter colaborado para uma visão de que certas discrepâncias de suas obras podiam ser explicadas por uma formação deficiente ou pela origem popular.


Shakespeare é tido como um ator avesso a uma disciplina na organização dramática considerada pelos críticos como essencial na tarefa do dramaturgo. Procedimentos teatrais tipicamente shakespeareanos como interpenetrar elementos da tragédia com os da comédia, introduzir subtramas nas peripécias principais da peça e conduzir a história em vários locais diferentes, o que forçava a existência de muitos cenários em um mesmo espetáculo, eram tidos como inaceitáveis no entendimento de críticos fortemente influenciados por uma concepção francesa de obra de arte, que apostava no cumprimento de padrões historicamente consagrados por autores do passado como um caminho obrigatório para o bom dramaturgo. Shakespeare também não se preocupava com a divisão dos atos da peça, que se alternavam de forma às vezes bastante sutil, dando aos críticos uma impressão de indisciplina e insubmissão aos padrões clássicos, que levaram muitas vezes a tentativas de ironizar os seus textos e atribuir tais características à ausência de uma origem nobre.


As condições de produção e encenação das peças de Shakespeare também colaborariam para a disseminação dessa visão sarcástica e desvalorizada por parte dos críticos a ele contemporâneos. Influenciado pelas condições da vida sob o reinado de Elisabeth I, o teatro era visto tanto por sua filiação à herança de grandes autores da Antiguidade Clássica, quanto por uma atividade que podia servir ao entretenimento das massas. Isso faria com que os textos de Shakespeare fossem muito assistidos por gente do povo, o que levaria o autor a incluir em sua criação elementos que pudessem causar impacto também nesse segmento da sociedade, como o uso de sumários e a tradução de palavras quando eram origem estrangeira.


Tal presença de um público homogêneo, uma característica da Inglaterra Elisabetana, também influenciaria nas temáticas a serem abordadas nos textos shakespereanos. Elementos relacionados a antigas tradições folclóricas e a opção pela predominância de heróis e até por cenas de movimento e ação são citados por estudiosos da obra do bardo inglês como resultado de preferências temáticas capazes de seduzir um público de características mais afastadas de um perfil erudito. Em outras palavras, Shakespeare fazia um teatro popular, capaz de agradar a diversos segmentos sociais, incluindo aqueles ligados à nobreza inglesa, como se pode constatar pelo patrocínio que muitas de suas montagens receberiam por parte da própria família real, que não raro comparecia aos espetáculos.


Essa peculiaridade da cultura teatral na Inglaterra, destoando da realidade de países como a Itália e a França, onde a dramaturgia cada vez mais se configurava como arte “superior”, seria o cenário ideal para o desenvolvimento da singularidade do teatro de Shakespeare e também seria o motivo pelo qual sua obra seria redescoberta no século XIX, quando começaria a ganhar o reconhecimento de que desfruta até hoje. Os românticos não só se identificariam com sua dramaturgia como também o colocariam como uma das maiores influências de sua arte. Arredios com a hegemonia das concepções culturais francesas e sua insistência numa visão da arte como trabalho da razão, muitos produtores de cultura daquele momento veriam na obra do bardo as condições ideais de uma nova forma de produzir cultura.


As obras shakeaspereanas permitiam penetrar numa nova noção do humano, em geral ausente nas obras de arte submetidas aos cânones do classicismo. Daí surgiria o conceito romântico de “gênio original”, que valoriza a espontaneidade da criação, a liberdade de conceber e o mundo íntimo como espaço primordial do fazer artístico, onde reinam a inspiração, o sentimento e a espiritualidade. A popularidade presente nos textos de Shakespeare também cairia sob medida nos anseios de uma ordem social marcada pela ascensão da burguesia, onde o povo e suas criações originais começam a ser erguidos à condição de padrão cultural eleito em detrimento de uma cultura aristocrática.


Os alemães estariam entre os que mais se seduziriam por elementos presentes na arte de Shakespeare, e o movimento conhecido como Sturm um Drang (tempestade e ímpeto) aparece como um bom exemplo. Entediados com uma noção da arte que acreditavam tolher a criatividade humana, então jovens escritores como Goethe e Herder veriam nas peças de Shakespeare uma bela reunião de componentes que permitiam praticar uma arte promotora da espontaneidade do ser. O encontro com a obra do bardo premiaria a busca por novas referências textuais que os tinha feito enveredar por obras tão díspares como a poesia de Homero ou a Bíblia na versão luterana. Esse processo iniciado com os alemães, que abriria caminho para um novo universo de questões, como a valorização da cultura popular e a celebração da natureza e seus mistérios, não demoraria a seduzir os artistas e filósofos em outros importantes centros de produção de cultura na Europa.


Autores como Lord Byron e Victor Hugo, bem como pensadores como Diderot e Schiller, são frutos da renovação do conceito de criação sugeridos pela vitalidade dos textos shakespearianos. Mais do que afetar a arte e o pensamento, o universo posto em movimento pelos textos do bardo inglês haveria também de imprimir na mentalidade ocidental uma nova noção das próprias dimensões humanas. A concepção sobre o talento, ainda que mantendo a conexão com a ideia de “dom”, deixa de estar relacionada a elementos como o apuramento da técnica ou a perfeição e equilíbrio de uma obra, e passa a ser compreendida a partir de critérios como a originalidade e o poder de instituir novos padrões de criação e de beleza.

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