Páginas

quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

O ano-novo e o homem antigo

Seres humanos na fase agrícola

Praticamente o mundo todo acaba de celebrar mais uma virada de ano. E a esmagadora maioria das pessoas que participam das mais variadas formas de festejar esse acontecimento aproveitou para utilizá-lo como marco de algum tipo de mudança, projetando a esperança de um futuro melhor num novo ciclo que se inicia. Mas ao cultuar o aspecto de “renovação” presente nesse momento, cada um de nós na verdade está praticando uma das mais antigas ações da humanidade. Celebrar a virada de ano é algo tão primário para a espécie humana que praticamente se confunde com a própria história de nossa classe como ser vivo.

Segundo os cientistas, isso está relacionado ao que aconteceu aos nossos ancestrais de aproximadamente 13 mil anos atrás. Eles tinham se tornado excelentes caçadores e a alta performance nessa atividade os levava a ter uma vida nômade, isto é, se deslocavam tendo como referência a possibilidade de encontrar suas vítimas, buscando outro local quando elas se tornavam menos abundantes. Um outro fator importante está presente nesse momento. É que a essa altura nossos ancestrais já tinham se desenvolvido intelectualmente a ponto de sustentar com regularidade algo que os cientistas identificam como instintivo em nossa espécie: o sentimento religioso. Assim que atingem determinado nível de maturidade biológica, todos os agrupamentos humanos começam a praticar alguma coisa que podemos classificar como religião.

O resultado dessa instituição nos grupos sociais daquele momento levava a que os membros se mantivessem mais unidos e coesos, ou seja, as práticas em torno dos rituais religiosos acabavam servindo para criar um sentimento de unidade e pertencimento que pode ser visto como o protótipo daquilo que muito mais tarde, e com outras formulações, vamos chamar de nacionalidade. Confiantes em suas divindades e amparados na coesão tribal, nossos ancestrais “homo sapiens” se transformariam nos maiores predadores da natureza. O resultado, digamos, ambiental dessa evolução seria um primeiro grande problema para nossos antepassados: a caça indiscriminada diminuiu consideravelmente o número de animais que habitualmente serviam de alimento, situação que seria também agravada, segundo os cientistas, por uma espécie de miniaquecimento do planeta ocorrido naquele período. O fato é que esse momento representou uma das primeiras grandes crises por que passaria a espécie humana, que nesse caso tinha seu modo de vida ameaçado por um fator antes de tudo biológico, a escassez de proteínas.

Apesar de não ter sido um fenômeno global, isto é, o problema não apareceu para as várias tribos ao mesmo tempo, pode-se dizer também que não foi algo isolado, até porque, mesmo vivendo em situação de quase total isolamento, os grupos algumas vezes mantinham contato, quase sempre para guerrear, o que certamente passou a ocorrer com mais frequência quando o problema de disputar a caça se tornou mais frequente. A solução encontrada para essa situação não foi muito diferente da que se pratica atualmente no caso de grandes crises econômicas. Só que, em vez de imprimir dinheiro como fazem os bancos centrais, nossos ancestrais apostaram em cultivar sementes e, para tal, inevitavelmente tinham que esperar os ciclos que os produtos da terra precisam cumprir. Dessa maneira de resolver o problema da falta de alimento viria uma grande surpresa. É que nossos antepassados acabaram percebendo que o cultivo de produtos agrícolas permitia que se sustentasse um número maior de pessoas em um mesmo espaço. Assim, os dias de nomadismo foram gradativamente se extinguindo e dando lugar a agrupamentos humanos sedentários, cada vez mais numerosos e consequentemente com instituições mais complexas.

Uma delas seria fundamental para a manutenção daquele novo modo de vida: a observação da natureza e dos seus ciclos, cuja compreensão era necessária para determinar a hora de plantar e colher os alimentos. Surgem assim os primeiros calendários, que marcam, não dias, meses e anos como os atuais, mas períodos relativos às diversas divindades que nossos ancestrais entendem relacionadas ao milagre de fazer brotar da própria terra a alimentação. Nesse momento já dá pra deduzir que nossos antepassados acabaram percebendo que os ciclos têm começo e fim, e que as etapas mais importantes desse processo precisavam ser cultuadas e celebradas.

O início de tudo (o ano-novo) recebia certamente uma atenção especial e a incerteza quanto ao que podia ocorrer com o novo ciclo de atividades da terra levava a que os antigos vissem o começo do novo ciclo como um momento de maior confiança na divindade da natureza, daí ser celebrado com todo envolvimento, afinal era uma esperança que tinha de ser renovada, pois dela dependia a própria manutenção da vida. Qualquer semelhança com nossa maneira otimista e esperançosa de encarar a virada de ano não é mera coincidência.

Outras importantes conquistas da espécie humana também estão de alguma maneira relacionadas a essa fantástica mudança do modo de vida dos nossos antepassados. O avanço científico, por exemplo. Quem poderia imaginar que o extraordinário conhecimento sobre o cosmos e os fenômenos astronômicos teria sua origem na arte de observar o céu e as estrelas, algo indispensável para conhecer os ciclos naturais? Os signos do zodíaco não são nada além de marcações que nossos antepassados começaram a fazer no firmamento para monitorar os movimentos dos astros e orientar seus trabalhos agrícolas.

Para nós do mundo cristão o ano-novo, isto é, o momento em que o ciclo se reinicia, ainda vem acompanhado de uma outra marcação: o auge da estação fria no hemisfério norte também é utilizado para reconhecer o funcionamento da natureza. Era o momento de – copiando outros agrupamentos organizados da natureza, como as formigas – armazenar alimentos. O natal (quando se celebra o nascimento do personagem central da cristandade) assim tão próximo ao ano-novo tem a ver com esse momento determinado pelas estações do ano. Os romanos comemoravam o início do período gelado na Europa como uma celebração especial, o “Natalis Solis Invictum” (Natal do sol invencível), uma tradição que se ornou de um significado extremamente sagrado para aquele povo, mesmo que o sentido de cultuar as divindades como praticavam os nossos ancestrais tivesse se perdido. Assim, não surpreende que, para impulsionar o cristianismo que ganhava cada vez mais força em Roma, o imperador Constantino determinasse, no século IV, que o nascimento de Jesus fosse celebrado na data em que já se comemorava o solstício de inverno do hemisfério norte.

Assim, seja qual for a maneira pela qual você celebra a passagem do ano, saiba que, ao fazê-lo, você está se conectando aos nossos ancestrais de muitos milênios atrás, e está, como eles, prestando algum tipo de culto a alguma força da natureza. Está principalmente se ornando de um sentimento de esperança e otimismo que tem tudo a ver com a aventura humana no planeta. Não é à toa que tendemos a reservar momentos como esse para a tomada de decisões que julgamos necessárias para que a vida melhore. É a esperança de garantir a nossa colheita interior. Um feliz 2017 para todos!!!

Se você gostou desse texto, deixe seu comentário, compartilhe com seus amigos e curta a página: facebook.com/arteseletras2016




segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

Proposições para uma educação inovadora em 2017






























O movimento Maker surgiu na Califórnia, em 2005, com o objetivo de dar às pessoas a oportunidade de consertar seus objetos e máquinas e construir outros, além de reduzir o descarte e o consumo. O movimento parte da tônica “faça você mesmo”, tendo como base a ideia de que qualquer pessoa pode “construir, consertar, modificar e fabricar“ os mais diferentes tipos de projetos e objetos usando a mente e as próprias mãos. A cultura Maker teve impulso com o lançamento da revista Make Magazine e a partir de uma feira anual, a Make Faire, idealizada e lançada pelos fundadores do movimento, que reunia um universo significativo de pessoas, entre 50 e 125 mil, em três das maiores cidades dos Estados Unidos. A partir de então, muitos se juntaram aos makers (fazedores) e foram, inclusive, apoiados e seguidos por empresas e por pessoas de espírito empreendedor.
E foi com essa lógica que o movimento maker, encabeçado por educadores e especialistas, estendeu-se à área da educação, como uma estratégia para estimular o desenvolvimento do raciocínio lógico e o pensamento criativo, colocando o educando para pensar em como é possível construir ou consertar, assumindo o papel de protagonista no processo de elaboração e criação. Entre os estudiosos da educação que defendem a relação entre cultura Maker e aprendizagem está o professor Luciano Meira, da Universidade Federal de Pernambuco, que aponta a necessidade de os alunos mergulharem no que é de ordem prática, em contraponto ao modelo atual, centrado na teoria desvinculada da prática.
A estratégia de aplicação do “faça você mesmo” se apresenta tanto nas mais simples criações, realizadas por meio de ferramental simples, quanto na adoção de tecnologias de programação mais sofisticadas. Existem escolas que contam com laboratórios bem equipados e ferramental específico, como, por exemplo, impressoras 3D que cortam a laser, mas há outras que, mesmo não tendo aparatos tão sofisticados das novas tecnologias, organizam-se e abrem espaços para o exercício do maker, que pode ser realizado de forma simples, quando a escola dá aos alunos a oportunidade de colocar a mão na massa e aprender, tendo como possibilidade o pensar criativo e buscando soluções para questões que se apresentam no dia a dia e que podem ser solucionadas por eles mesmos.
Essa prática, além de resultar em belos frutos, tem gerado aumento no rendimento escolar de muitos alunos. E a pergunta que surge é: como fazer para colocar em prática essa ideia na escola?
Cristiano Sieves, especialista em Ludopedagogia, oferece três sugestões iniciais e certeiras para a implantação do maker na escola:
  1. A criação de um espaço maker, que pode ser uma sala de aula transformada em laboratório ou oficina, de forma que os alunos disponham de bancadas para manipular os objetos, criar, consertar, projetar. Sieves também sugere que o laboratório criado disponibilize materiais diversificados, tais como botões de roupa até materiais reciclados, cola, madeira e tantos quantos nossa criatividade aportar.
  2. Estímulo à formação da comunidade maker na escola, em que professores e alunos se unam com esse propósito. É preciso planejamento claro entre os educadores para que as aulas sejam espaços de enriquecimento prático.
  3. Intercâmbio entre makers, isto é, participação em workshops, outras oficinas realizadas fora da comunidade escolar ou troca de experiências que podem ser feitas por meio de videoconferência ou webconference, utilizando as novas tecnologias de comunicação de forma criativa para aproximar os distantes.


E o que os alunos testemunham?
O Instituto Porvir publicou recentemente o depoimento da aluna Maria Seixas Braga, do colégio Visconde de Porto Seguro, unidade Panamby, em São Paulo. Com 12 anos, ela já criou o próprio abajur, que conta com um sensor inteligente de luminosidade, cujo projeto foi desenvolvido com uma cortadora de vinil e um software de programação para Arduino. Em depoimento ao portal Porvir, a aluna explica: “Aqui a gente desenvolve muito esse trabalho maker. O professor explica o projeto, e o restante a gente faz por conta”.
Outro case de aplicação em escola, que atende crianças em situação de vulnerabilidade social e apontou resultados muito satisfatórios, ocorreu recentemente por meio do Projeto Âncora, em Cotia, São Paulo. Um professor da escola percebeu que, em dado momento de descontração, os alunos estavam brincando em volta de uma torneira, desperdiçando água potável sem perceber. A partir daquela situação, ele lançou para a classe a problemática da crise hídrica de São Paulo. Depois de oito meses de trabalho, os estudantes construíram um captador de água da chuva, depois de terem estudado física, química, geografia e matemática para entender a questão da seca. Pura aplicação de cultura maker.
Conheça outras boas experiências como essas acessando:
MENEZES, Karina; HARTMANN, Marcel. Aos poucos, cultura maker chega às escolas. Disponível em: http://infograficos.estadao.com.br/e/focas/movimento-maker/cultura-maker-e-coadjuvante-nas-escolas.php

SIEVES, Cristiano. 3 exemplos de como incentivar o movimento maker na educação. Disponível em: http://playtable.com.br/blog/3-exemplos-de-como-incentivar-o-movimento-maker-na-educacao/




sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

Novas questões sobre a vida de Jesus

Jesus, em pintura do francês Hyppolite Flandrin (1809 - 1864)




















Com a descoberta entre 1945 e 1947 de vários escritos muito antigos que acabaram recebendo o nome de Manuscritos do Mar Morto, muitas discussões vieram à tona a respeito dos acontecimentos que marcam a história do cristianismo. Isso porque os documentos encontrados, que datam do século I ao III da Era Cristã, trazem surpreendentes informações sobre situações envolvendo a vida de Jesus, que, ou não apareceram nos evangelhos chamados canônicos, ou constam ali relatados de outra forma. Em outras palavras, tratam-se de escritos capazes de suscitar o questionamento sobre o que de fato está retratado nas escrituras.
Contribuíram também para essas questões algumas conclusões a que chegaram pesquisadores que têm se debruçado sobre os estudos históricos e arqueológicos sobre aquela época. Dentre estes a constatação de que os evangelhos admitidos pela tradição cristã como canônicos apresentam certas impropriedades do ponto de vista histórico. Primeiro porque já se sabe com certeza que eles não foram escritos na época apontada pela Igreja, o que é um fator que põe em xeque a validade histórica de um documento. Em segundo lugar, sabe-se que foram alvo de várias intervenções ao longo do tempo, isto é, foram de algum modo editados.
Assim, a descoberta dos manuscritos e a produção científica subsequente serviram para acender antigas discussões teológicas, principalmente a respeito de alguns pontos que aparecem de forma obscura nos textos canônicos. Importante saber que os quatro evangelhos adotados pela Igreja ganharam a supremacia sobre os outros no século IV da Era Cristã, quando o imperador Constantino, interessado numa aliança com os cristãos para fortalecer seu poder em Roma, interviu para organizar a religião, e o primeiro passo seria o de estabelecer quais textos seriam considerados oficiais. Como os quatro evangelhos pareceram expressar o pensamento da igreja naquele momento, foram decretados como canônicos, sendo todos os demais considerados apócrifos. Vejamos algumas possibilidades levantadas pelos documentos encontrados no sítio arqueológico.
Maria de Magdala seria a preferida de Jesus
Alguns dos textos encontrados mencionam um suposto ciúme por parte dos apóstolos pelo fato de Magdala ser muito próxima a Jesus. Ela é apresentada como uma mulher dotada de muita sabedoria e grande capacidade de liderança, o que lhe rendia muito respeito por parte do Mestre, que lhe confiava várias tarefas de importância. Um dos escritos, atribuído a um certo Filipe, datado do século II, chega a afirmar que Jesus costumava beijá-la na boca. Uma imagem bem diferente da que se firmou na tradição cristã, que a retrata como uma prostituta, apesar de a própria Igreja Católica já haver revisado suas interpretações dos textos bíblicos a esse respeito e retirado de Maria de Magdala essa denominação negativa.
A existência de um quinto Evangelho
Entre os documentos achados, um chama atenção por ser atribuído a Tomé, um dos doze discípulos de Jesus. Contendo mais de cem parábolas que teriam sido expostas pelo Cristo, tem conteúdo semelhante ao presente nas escrituras canônicas, mas com certas diferenças que o aproximam mais da visão dos gnósticos, uma das mais antigas seitas relacionadas ao cristianismo. Mesmo tendo sido provavelmente escrito quase na mesma época que os textos oficiais, acabou ficando de fora do cânone definido no século IV. Denominado pelos estudiosos como o “Quinto Evangelho”, suspeita-se que seja ele a famosa Fonte Q, um escrito que estaria na base de três dos quatro evangelhos oficiais. Se isso for comprovado, o evangelho de Tomé seria considerado a verdadeira fonte dos ensinamentos cristãos.
A infância de Jesus
Uma das descobertas mais polêmicas dos manuscritos talvez seja essa, que revela algumas coisas sobre um dos períodos mais obscuro nos relatos dos evangelhos oficiais: como foi a infância de Cristo (a única menção na tradição cristã é a do episódio em que Jesus permanece no templo aos 12 anos). Ali um evangelho do século III narra histórias no mínimo curiosas, como a de que Jesus se distraía criando bonecos de barro aos quais dava vida. E uma passagem na qual, depois de um conflito com outro garoto, Jesus teria ordenado que ele morresse, o que de imediato aconteceu. Em seguida, porém, teria se arrependido e intimado o colega a ressuscitar. Para alguns teólogos, tais narrativas expressariam a tentativa desses primeiros cristãos de demonstrar a natureza ao mesmo tempo divina e humana do Cristo. Uma discussão que mobilizava os religiosos da época.
Judas não teria traído Jesus
Essa possibilidade foi motivada por um outro achado arqueológico, bem mais recente que os do Mar Morto. Trata-se de textos encontrados na década de 1970 no Egito, escrito em língua copta. Neles aparece uma visão bem diferente do traidor que a cristandade acostumou-se a ver em Judas Iscariotes. Ele seria na verdade um dos apóstolos mais próximos de Jesus e assim foi escolhido para a tarefa de entregar seu mestre às autoridades romanas, o que seria fundamental para o projeto de salvar a humanidade. Judas assim se livra da péssima reputação que a tradição cristã lhe reservou e, ao contrário, escapa também do suicídio. Diz o texto que, depois de cumprir as determinações de Jesus, o discípulo teria buscado o deserto para meditar e orar. 
Se você gostou desse texto, deixe seu comentário, compartilhe com seus amigos e curta a página: facebook.com/arteseletras2016
A coluna deseja a todos um Feliz Natal e um 2017 cheio de alegrias.




quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

O Perigo da Chikungunya






























A estação mais querida pelos cariocas chegou! O verão traz o sol, o calor, as praias, as férias e a diversão. No entanto, a alegria não dura muito, pois junto com tudo isso chega também um velho conhecido, o mosquito Aedes Aegypti, que sempre volta com uma nova doença. Ele é o responsável pela transmissão dos vários tipos de dengue, da zika e da chikungunya. Esta última a grande vilã no momento.

O Verão da Chikungunya

Pesquisadores estão assustados com a incidência maior da chikungunya. Como já houve os verões da dengue e da zika, agora é o verão da chikungunya.

O entomologista da Fiocruz Rafael Freitas confirma que teremos mesmo uma taxa de transmissão mais intensa, porque o vírus está entrando em contato com a população mais suscetível e sem anticorpos contra a doença.

Outro grande problema é a dificuldade em diagnosticar a chikungunya, já que as outras transmitidas pelo mosquito possuem características parecidas. Os principais sintomas da doença são febre alta e dores articulares, que geralmente acompanham a pessoa infectada por até um ano e meio. Especialistas ainda alertam para as sequelas deixadas por ela, como lesão nas articulações das mãos e dos pés, causando fortes dores para o resto da vida.

Alguns pesquisadores já dizem que estamos enfrentando uma epidemia. O calor e a chuva do verão podem contribuir para a proliferação dos mosquitos.

Casos de suspeita

De acordo com a Secretaria Estadual de Saúde, entre janeiro e o dia 6 de dezembro, 15.265 casos suspeitos foram registrados, com 10 mortes. Os números são muitos superiores aos de 2015, que só teve 105 casos sem nenhuma morte.

Os casos de dengue também aumentaram em 2016, no entanto as mortes diminuíram. Os registros mostram 82.166 casos suspeitos e 14 óbitos entre janeiro e dezembro. Já no período de 2015, o estado detectou 71.791 casos suspeitos e 23 mortes.

É importante lembrar

Lembre-se de eliminar criadouros na sua casa e na vizinhança, pôr terra em potes de planta, verificar a calha e usar bastante repelente. As medidas de prevenção são basicamente as mesmas aplicadas contra a dengue. Como não existe uma vacina para a doença, o ideal mesmo é combater o mosquito.


Fontes: G1 e Notícias Uol

segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

Proposições para uma educação inovadora em 2017





























Nestes tempos em que as novas tecnologias da informação e comunicação permitem a integração de oportunidades de aprendizagem, surge a metodologia híbrida de ensino. Definida como uma mescla do ensino virtual com o presencial, dentro e fora da escola, é também chamada de “Blended Learning” ou metodologia híbrida para a aprendizagem. Ela integra o estudo presencial, com colegas e professor, e o virtual, que em geral utiliza um ambiente virtual de aprendizagem ou outras formas de acesso a tecnologias para aprendizagem.

Por que fazer uso dessa metodologia?

Para responder a essa pergunta, eu gostaria de convidá-lo a conhecer a história de Jack, contada por Michael Horn, um estudioso americano que tem dedicado a vida ao estudo da metodologia híbrida para a aprendizagem. Jack era um aluno brilhante, mas na 5ª série teve dificuldades com a matemática, e por isso começou o ano como o terceiro pior aluno da classe nessa matéria. Horn conta que a professora separava a turma dos “atrasados” e dava aula focada neles. Jack sentia-se muito mal com isso, ainda mais atrasado, e chegou a considerar que nunca aprenderia.
Essa é uma situação comum para muitos de nossos alunos no Brasil, pois já conversei com várias crianças que relataram exatamente esse sentimento. Se a vida de Jack continuasse assim, acumulando dificuldades, o que seria dele? Qual a solução?

Será que, numa sala de aula com dezenas de alunos, todos têm os mesmos interesses e ritmos, todos aprendem da mesma forma? Temos “Jacks” nas nossas salas de aulas? O sistema de educação fabril muitas vezes taxou de “incapaz” aquele aluno que não compreendeu determinado conteúdo “de pronto”, muitas vezes retendo-o em determinada série ou ano de ensino, ou seja, reprovando-o, como faziam as fábricas com determinado produto que não passou pelo sistema de qualidade e foi descartado.

Por que alguns ainda insistem em ensinar a partir de um modelo fabril de educação que coloca todo mundo dentro de uma forma única, de um mesmo tempo, numa mesma lógica e de um mesmo jeito? Bem possível por desconhecimento. Cada um de nós e de nossos alunos têm uma forma peculiar, própria, de aprendizagem. Os cientistas cognitivos já elucidaram o fato quando descobriram que cada indivíduo apresenta diferentes capacidades de memória de trabalho, isto é, diferentes aptidões, diferentes formas de absorver informações, diferentes conhecimentos anteriores sobre determinado assunto, diferentes experiências, formas de filtrar a informação, memórias que trazem consigo para o processo de aprendizagem. Somos únicos, assim como as nossas digitais, mas, além disso, há também uma nova era em voga, a Era do Conhecimento, em que se torna urgente desenvolver ao máximo o potencial de cada aluno, caso contrário ele estará fadado ao completo fracasso na vida, pois as mudanças estão ocorrendo de forma muito dinâmica e acelerada.

É notória a ampliação da capacidade de armazenamento, de memorização de informações, da integração mundial, sobretudo com o advento das novas tecnologias da informação e comunicação. Toda essa revolução digital ampliou de forma exponencial a velocidade dos fluxos sociais, culturais, econômicos, portanto é preciso que haja também uma mudança de mentalidade, da metodologia em educação, na maneira de orientar a aprendizagem. Novos tempos, novas necessidades. E nesse contexto nasce a aprendizagem por meio do encaminhamento híbrido, que pode ser explicitada através de experiências diversas.

E, por falar em metodologia, vamos retornar à história de Jack. Michael Horn conta que, para a alegria desse garoto, naquele mesmo ano em que cursava a 5ª série, a escola fez uma parceria com a Khan Academy (uma ONG educacional criada em 2006 pelo educador americano Salman Khan e que consiste no mais expressivo site do mundo para aprender matemática, além do ensino de algumas outras matérias, oferecendo videoaulas e mais de 300 mil exercícios completamente gratuitos. O site oferece ensino personalizado: reconhece as habilidades que o aluno domina e as que ainda precisa praticar.), que desenvolveu o modelo híbrido de aprendizagem. Os alunos tinham a oportunidade de aprender de forma personalizada e Jack pôde, então, perceber que não avançava em matemática porque lhe faltava compreender conteúdos básicos anteriores aos apresentados na 5ª série. Ele foi orientado a fazer buscas on-line, com acompanhamento do professor, para rever conteúdos básicos que não dominava, apresentados de diferentes formas, respeitando seu ritmo de aquisição. Jack mergulhou numa nova forma de aprendizagem, que o tornou apto a dar sequência à sua vida estudantil sem as amarras do passado. Deu tão certo e foi tão bom que Jack alcançou o quarto lugar de destaque da turma na disciplina de matemática, apenas 70 dias após o início da nova metodologia.

Como se dá na prática a metodologia híbrida?

Uma das formas de começar é a chamada “rotação”, geralmente mais utilizada com os alunos do Ensino Fundamental. O educador organiza a sala de aula com atividades diferentes, porém complementares, das quais uma será realizada em plataforma digital.






















O aluno estuda e realiza cada uma das atividades, orientadas pelo professor ao longo do processo de conhecimento, mas o mais importante é estimulá-lo a ser protagonista da própria aprendizagem, entendendo-o e incentivando-o a ir em busca de seus interesses, para que, dessa forma, aprenda. É importante, no caso de alunos do Fundamental II, orientar atividades de pesquisa, de participação em fóruns e de outras atividades em ambiente virtual de aprendizagem que possam ser realizadas fora da sala de aula, em casa ou no contraturno da escola. Dessa maneira, o aluno vê mais sentido no conteúdo que acessa e participa de um aprendizado mais personalizado, que responde às suas necessidades. Vale lembrar também que, com essa metodologia, os alunos são estimulados, presencial e virtualmente, a trabalhar e interagir em grupo, o que abre uma série de boas experiências para o desenvolvimento socioemocional.

Para conhecer outros cases de aplicação da metodologia híbrida para a aprendizagem, acesse:








sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

Nossos ancestrais da América

Índios do Brasil, por Jaime Trindade.





























Em 1639, o jesuíta Antonio Ruiz de Montoya escreve uma obra intitulada “O tesouro da língua guarani”, uma das primeiras fontes de conhecimento do idioma e da cultura desse povo. Ali podemos encontrar a palavra “tekó”, que o religioso traduziu como algo como “bem viver”. E é exatamente a partir desse sentido que podemos começamos a entender como os valores guaranis poderiam ser interessantes para uma sociedade envolta em tantos conflitos como a ocidental. “tekó” reflete a milenar experiência dos povos guarani na sua busca por uma felicidade baseada na harmonia entre a natureza e os seres que nela estão incluídos. Para esse povo, dentro dessa visão, não cabe a ideia de posse sobre a terra, por exemplo, uma vez que é a terra que contém todas as coisas, incluindo o homem. Daí a extrema valorização da natureza e de seus inúmeros recursos.

Na visão guarani, é na natureza que se estabelece um grande palco onde a reciprocidade e a inter-relação são praticadas, onde os seres trocam incessantemente e assim vão sustentando a harmonia da criação. Nesse contexto, compartilhar experiência é um requisito fundamental. Muito distante das hierarquias ocidentais nas quais deter um conhecimento representa possibilidades de conquistas sociais, os guaranis transmitem tudo o que sabem. Tanto entre si quanto com aqueles de outras culturas que porventura venham a conviver com eles. Um bom exemplo disso é a ciência da cura pelos elementos presentes na natureza, a sua medicina, fruto de uma elaboração milenar forjada no conhecimento da terra. Mesmo sendo prerrogativa dos líderes religiosos os procedimentos e rituais de cura, todos os integrantes detêm em algum grau o conhecimento sobre as ervas e plantas com suas propriedades curativas.

Num mundo como o ocidental, marcado por uma verdadeira guerra pelo direito de construir as narrativas e consequentemente alcançar o poder e a hegemonia, salta aos olhos a forma como os guaranis entendem a palavra. Originada da expressão dos mitos e deuses, a palavra é entendida como um bem supremo da natureza, que a ninguém pode negado. Ela se expressa não apenas como uma forma de reciprocidade, já que todos podem dispor dessa faculdade, como também no sentido do ritual. Por isso, o dia a dia dos guaranis é marcado pelo muito espaço concedido às rezas e cantos, através dos quais a palavra funciona como um elemento harmonizador da vida a dos seres. Ela é tão importante que aos líderes religiosos é delegada a tarefa de estabelecer o nome das crianças, o que acontece através de um meticuloso ritual no qual acontece a revelação da maneira como aquele indivíduo será chamado, o que, segundo sua crença, vai ser decisivo por toda a vida. Ao contrário do que acontece na cultura ocidental, onde quem detém o discurso também acumula o poder, para os guaranis a palavra é algo que emana dos mistérios da natureza.

A educação que os guaranis dispensam às crianças é um capítulo à parte nas lições que podemos retirar da cultura desses nossos ancestrais da América. Para eles, a condição de infância em nada os desqualifica frente aos mais velhos. Por isso, desce cedo os pequenos estão inseridos no dia a dia e nas questões que envolvem o grupo, podendo inclusive ter sua opinião acolhida numa eventual tomada de decisões. É no próprio convívio com a coletividade que ocorre, segundo eles, a formação do indivíduo. Por outro lado, os guaranis não partilham da ideia de que as pessoas possam ser moldadas pela sociedade. Cada um, sendo uma potência da natureza, pouco adianta desenvolver maneiras específicas de ensinar, pois toda criatura é uma obra em si, que por esse motivo aprende e ensina por si só. Uma visão que tem como resultado um profundo respeito pela personalidade alheia, o que inclui as crianças.

Esse sentimento de liberdade que o indivíduo guarani mantém em relação ao outro expressa-se na própria maneira como esse povo entende as finalidades da vida e seu papel na existência. Para eles, viver é desvendar o mistério que há em tudo e consequentemente nas outras pessoas. Tudo o que existe tem direito à vida e a ser preservado justamente porque existe pra revelar o mistério da vida. Não há consequentemente o sentido em classificar ou separar as criaturas em denominações como raça, cultura ou religião. É através desse olhar que grupos guaranis têm se mantido por muitos séculos, mantendo suas crenças e tradições, sem deixar de conviver com a cultura de não-índios e às vezes parecendo totalmente incorporado a ela.

Impotentes frente as concepções que presidem o caráter exploratório e mercantilista que predomina nas nações sul-americanas, os guaranis têm travado lutas atrozes e inglórias pelas terras que um dia puderam ser desfrutadas por seus antepassados, e não foram poucos os prejuízos que sofreram não apenas ao longo do processo de colonização como ainda hoje. Mas de qualquer forma aí estão, mantendo suas visões de mundo e oferecendo sempre a oportunidade para que os filhos do continente, independente das referências culturais que trazem, possam renovar a vida e resolver as grandes e difíceis questões do mundo atual, fazendo um futuro a partir do passado e da sabedoria dos primeiros americanos.

Se você gostou desse texto, deixe seu comentário, compartilhe com seus amigos e curta a página: facebook.com/arteseletras2016




quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

Não são as respostas que movem o mundo, são as perguntas!

I Encontro de Educação Appai promove reflexão e discussão acerca das ações que transformam a aprendizagem

Uma data para recordar. O dia 30 de novembro de 2016 marcou a estreia do Encontro de Educação Appai. Como se fosse um grande conselho de classe, 250 associados e convidados discutiram sobre as ações que inspiram e transformam a aprendizagem. Apresentado pelo professor Luiz André Ferreira, da Rádio Appai, e mediado pela mestre em educação Andréa Schoch, colunista do Blog Appai, os palestrantes foram indagados a responder perguntas desafiadoras, como: “O que vai acontecer na educação daqui a 20 anos com o avanço tecnológico?”.

De acordo com o doutor em Ciência da Informação Carlos Nepomuceno, a escola e a educação sofrerão mudanças drásticas, pois a gestão dará espaço à curadoria, ou seja, haverá uma personalização no atendimento de cada cidadão, como já acontece na Educação 3.0, tornando a teoria da uberização escolar uma realidade. “A maneira com que nós pensamos o ser humano é equivocada. Nós somos os únicos “tecnumanos”, sapiens que clica, num globo de sete bilhões de pessoas. Não haverá mais educação tradicional daqui a alguns anos, ela terá de ser adaptada para conseguir sobreviver. E a uberização afetará a educação”, diz Nepomuceno. Outro fator que ele pontua está diretamente ligado ao mercado de trabalho. “Todas as organizações entram na comunicação, mas a comunicação não consegue esse feitio. Portanto, o mercado vai mudar, aí sim a educação vai mudar. Atualmente, a escola não está formando o que o mercado necessita. Lá na frente cada pessoa será instruída através de conteúdo, certificação e roteirização, que nada mais é do que uma curadoria, pessoas que vão ajudar os alunos e não só transmitir a informação e o conhecimento”, explica, Nepomuceno.

Edilene Brito, pedagoga e coordenadora do Projeto Âncora, conta como tem funcionado na prática essa transformação que já é uma realidade, na qual os estudantes não cursam séries, mas núcleos de desenvolvimento. “A gente não teoriza, nós discutimos, porque com autonomia não se nasce, se constrói”, explica. O objetivo deste projeto é criar subsídios para que se desperte a potencialidade do ser. Todavia, a profissional ratifica a importância do papel do educador. “O professor é essencial neste processo de desenvolvimento, porque criança não pode ser mais vista como um experimento, ela tem que ser incentivada à práxis, para que possa praticar autonomamente. Mas, para que isso ocorra bem, a criança deve ter atenção individual.

Wagner Siqueira, professor e membro do Conselho Regional Administração, intensifica a importância de refletirmos sobre a geração Y, acerca da realidade dessa categoria. “Muito se fala dos nativos digitais, mas alguém já procurou saber a realidade dessas pessoas? Só se fala dos bem empregados dessa geração. Mas e os que não estão? Como vivem esses jovens?”, indaga Wagner, que acredita que a educação terá de ser bem administrada para que a escola do futuro acompanhe a rapidez da modernidade. “Para isso são necessários contato e relações humanas, porque é a partir da força do homem, de forma coletiva, que se obtém evolução”, enaltece o profissional.

A Jornalista Bárbara Pereira, que é mestre em educação e doutoranda em memória social, diz que sente falta da temática educacional nas coberturas de imprensa, e inclusive acredita que a faculdade de comunicação social deveria ser um ambiente no qual se explorasse mais a educação. “Não vemos nos jornais e nas revistas editorias voltadas para esse assunto. Temos de economia, política e até polícia, mas educacional não”, desabafa Bárbara.

Quem faz a diferença

Quando o assunto girou em torno de boas práticas, os palestrantes deram um show de superação, que foi da conversa à conscientização, passando pelo funk e pelo hip-hop. O educador Waldir Romero que reverteu o quadro de degradação e violência em uma escola de São Paulo contou sua experiência em sala de aula, preconizando a importância da democracia na gestão escolar. “A primeira medida a ser tomada foi: vamos ouvir os alunos! Esse passo foi essencial!”, afirmou. A partir das necessidades apresentadas pelos estudantes, o professor começou a organizar eventos para integrar a escola com a comunidade e envolver todos em um projeto de ensino. Assim, Waldir conseguiu desarmar a agressividade e a revolta dos alunos e começou a mobilizar todas as partes em ações de formação continuada para professores, aulas sobre a história e os personagens do local e diversas parcerias com instituições dentro e fora do bairro.

Andréa Lemos, coordenadora do projeto pedagógico da Editora Moderna e idealizadora do João de Barro, que visa conscientizar toda a população quanto à necessidade da preservação do meio ambiente, relatou sua experiência empoderando uma preocupação mundial, o controle do aquecimento global, bem como subsídios para se obter um futuro sustentável.

funk e o hip-hop são ritmos recorrentes entres os jovens de várias comunidades, situação que foi aproveitada pelo músico Lemaestro, que colocou suas habilidades para ajudar quem necessita de amparo dentro de ambientes como esses. “Eu fui criado no meio da zona de tráfico, os bandidos passavam pelo quintal da minha vó. Aos dezesseis comecei a usar drogas, mas só oito anos mais tarde pedi ajuda clínica. Fui internado e lá dentro descobri que podia fazer música. As letras resumiam meu drama pessoal e isso sensibilizou os pacientes que passavam pela mesma situação. Foi então que percebi que poderia ajudar outras pessoas fazendo algo de que gosto”, revela o músico. Após concluir seu tratamento, passou a levar os ritmos às escolas da comunidade, mas, no lugar de estrofes sobre carrões e outros artigos de luxo, marca registrada de muitos artistas ligados a esse estilo musical, Lemaestro cria rimas a respeito da importância de frequentar o colégio. Com o objetivo de entreter e conscientizar jovens sobre a importância do estudo, o projeto chamado de “MCs pela Educação” ostenta agora boas notas e comportamentos e põe os olhos num futuro promissor que a escola pode proporcionar.

terça-feira, 13 de dezembro de 2016

Proposições para uma educação inovadora em 2017: O uso das tecnologias digitais







Desde os primeiros registros da presença do homem, há mais de dois milhões de anos, na Idade da Pedra Lascada, ele faz uso de tecnologias. Os primeiros artefatos produzidos foram destinados a “viabilizar” a sobrevivência humana. Uma talha ou uma pedra lascada servia como arma para defesa ou como ferramenta para qualquer tipo de corte; tratava-se de um aparato tecnológico muito potente para a época. Depois dela foram produzidos milhares de novos artefatos tecnológicos para facilitar nossa vida. Observe que a definição “aparato tecnológico” faz referência à tecnologia, que significa o conjunto dos instrumentos, métodos e técnicas que permitem o aproveitamento prático do conhecimento científico.


A escola de hoje está carregada de tecnologias “da época do vovô”, tais como o quadro, o caderno, o lápis, o livro impresso – há pouco tempo, algumas tinham até TV de válvula (analógica) –, mas também está permeada pela chamada TECNOLOGIA DA INFORMAÇÃO E COMUNICAÇÃO (TIC), que pode ser definida como um conjunto de recursos tecnológicos de computação digital surgidos no contexto da revolução informacional, da revolução telemática, desenvolvidos principalmente nos anos 1990, e utilizados de forma integrada, com um objetivo comum. Ana Elisa Ribeiro, no Glossário Ceale (disponível em: http://ceale.fae.ufmg.br/app/webroot/glossarioceale/verbetes/tecnologia-digital), define Tecnologia digital como:


Um conjunto de tecnologias que permite, principalmente, a transformação de qualquer linguagem ou dado em números, isto é, em zeros e uns (0 e 1). Uma imagem, um som, um texto ou a convergência de todos eles, que aparecem para nós na forma final da tela de um dispositivo digital na linguagem que conhecemos (imagem fixa ou em movimento, som, texto verbal), são traduzidos em números, que são lidos por dispositivos variados, que podemos chamar, genericamente, de computadores. Assim, a estrutura que está dando suporte a esta linguagem está no interior dos aparelhos e é resultado de programações que não vemos. Nesse sentido, tablets e celulares são microcomputadores.


Dessa forma, as TICs são utilizadas nas mais diferentes áreas, como, por exemplo: na indústria (automação), no comércio (gerenciamento, nas formas de publicidade), no setor econômico ou de investimentos (informação simultânea, comunicação imediata) e na educação (no processo de aprendizagem). A maioria das TICs agiliza e torna horizontal o conteúdo da comunicação, especialmente por meio do processo de digitalização e comunicação em redes, captando, transmitindo e distribuindo informações em diferentes formatos: imagem, texto, vídeo, áudio. O advento das novas tecnologias (TICs) deu origem ao que chamamos atualmente de Sociedade da Informação ou Era do Conhecimento, na qual o professor tem ao seu dispor uma infinidade de ferramentas que, conforme o modo de utilização, isto é, a escolha a partir de uma intencionalidade, pode proporcionar ao aluno um aprendizado muito mais significativo.


Nos meus primeiros anos escolares, a partir do fim da década de 1960, os professores eram transmissores de conceitos, eram eles que detinham o saber. Como não havia no Brasil computadores pessoais, quem literalmente carregava e transmitia os conceitos e saberes eram os professores e os livros. Logo que entrei na escola, como estes últimos eram relíquias nessa época, eu depositava em minha professora Maria Lúcia toda a expectativa para ter acesso a informações. Ela era o suposto saber. Porém, os tempos mudaram. Na educação contemporânea, o professor não é mais visto como alguém que assume a função de transmissor de informações. Na era digital, esse papel é realizado com propriedade por meio das novas tecnologias, em especial as digitais. Tenho insistido nesse tema, pois ainda observo grande número de professores que se dedicam a transmitir informações, em detrimento de sua função mais importante, que é cuidar do que realmente importa, ou seja, orientar os caminhos para transformar informação em conhecimento.


É fato também que, se o professor não sabe como gerar boas aprendizagens nem quais caminhos deve tomar, nenhuma tecnologia lhe será favorável. Uma boa analogia para isso, para facilitar a compreensão é: se você sabe preparar uma bela refeição e tem tecnologia a seu favor, seu prato ficará pronto de forma muito mais rápida e eficiente, concorda? Mas o contrário também é verdadeiro. Se você não sabe cozinhar, não conhece os segredos da boa culinária, corre o risco de colocar todos os ingredientes numa supermáquina (tecnologia) e o resultado final ser desastroso.
O bom professor é aquele que sabe usar a mente em primeiro lugar, e que, sabendo empregar seus recursos cognitivos, suas funções superiores, decide como, e a melhor forma de, usar determinada tecnologia.


O professor não deixou de pesquisar, estudar, atualizar-se e saber. Ele busca, informa-se e transforma a informação em conhecimento para si mesmo. Porém, o que não é mais adequado a esta era é ele ainda se imaginar um transmissor de informações para os alunos e, pior ainda, passar um longo período perdendo um tempo precioso que poderia ser de orientação para a boa e significativa aprendizagem.


É exatamente aí que entra em cena a tecnologia digital, que se coloca à disposição do professor para que ele possa realizar, melhor ainda, a sua função, o seu papel.


Para saber mais sobre o assunto, verifique a lista de Novas Tecnologias da Informação e Comunicação:


  • Computadores pessoais (Pcs, personal computers):
  • Câmeras de vídeo e foto para computador ou webcams;
  • Gravações domésticas de CDs e DVDs;
  • Diversos suportes para guardar e portar dados, como os disquetes (de tamanhos mais variados), discos rígidos ou Hds, cartões de memória, pen-drives, zip drives e assemelhados.
  • Telefonia móvel (telemóveis ou telefones celulares).
  • TV por assinatura:
  • TV a cabo;
  • TV por antena parabólica.
  • Correio eletrônico (e-mail):
  • Listas de discussão (mailing lists).
  • Internet:
  • World Wide Web (principal interface gráfica da internet);
– Websites e homepages;
– Quadros de discussão (message boards);
  • Streaming (fluxo contínuo de áudio e vídeo via internet);
  • Podcasting (transmissão sob demanda de áudio e vídeo via internet).
  • Tecnologias digitais de captação e tratamento de imagens e sons:
  • Captura eletrônica ou digitalização de imagens (scanners);
  • Fotografia digital;
  • Vídeo digital;
  • Cinema digital (da captação à exibição);
  • Som digital;
  • TV digital e rádio digital.
  • Tecnologias de acesso remoto (sem fio ou wireless):
  • Wi-Fi;
  • Bluetooth;
  • RFID;
  • EPVC.

Fonte: <https://pt.wikipedia.org/wiki/Novas_tecnologias_de_informa%C3%A7%C3%A3o_e_comunica%C3%A7%C3%A3o>.





sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

A origem da imprensa no Brasil

"A liberdade guiando o povo” (1830), de Eugène Delacroix.






























A história da imprensa no Brasil tem início com a insólita situação de seu primeiro veículo de informação ser editado muito longe daqui, na Inglaterra. Os dados históricos, porém, ajudam a desfazer o espanto inicial. Tudo começa em torno da figura do jovem Hipólito da Costa, nascido na colônia de Sacramento, atualmente pertencente ao Uruguai, mas à época (1774) uma possessão de Portugal, que muito jovem vai para a Europa para se dedicar aos estudos. Em Coimbra forma-se em direito e filosofia, mas, seguindo o percurso comum para intelectuais da época, torna-se também conhecedor de outros campos do saber, como a botânica, a física e a mineralogia.

Depois de formado permanece na então metrópole e logo recebe o convite para viajar a serviço do estado, chegando assim ao México e aos Estados Unidos. Neste último tem uma primeira experiência de choque cultural que, no entanto, seria fundamental para sua formação como intelectual. Como deixaria registrado em um escrito sobre o tempo que passou na América do Norte, Hipólito teria ali seus primeiros contatos com as ideias liberais e com vários assuntos a elas correlatos, como o sistema bancário e a liberdade de culto e de imprensa.

Também passaria por uma outra experiência que seria fundamental em sua vida: conhece e entra para a maçonaria, que seria a causa de sua prisão quando, pouco depois de voltar à Europa, é nomeado para trabalhar para a Imprensa Real e, em missão, vai para Londres. Nos três anos em que ficaria encarcerado pela Santa Inquisição, acusado de difundir a causa maçônica, Hipólito se dedicaria a importantes reflexões e produziria muitos textos, nos quais se destacam as posições críticas à visão de mundo mantida em Portugal, que considera em situação de flagrante atraso em relação ao resto da Europa.

É quando, em 1805, consegue sair da prisão, com o auxílio de influentes irmãos de maçonaria, que Hipólito inicia o trabalho que marcaria a sua importância para os destinos de sua terra natal. Com a invasão de Napoleão a Portugal em 1807, muitos lusitanos foram viver na Inglaterra, o que lhe fez perceber a oportunidade de editar um periódico em língua portuguesa, aproveitando o contexto de total liberdade de informação que havia nesse país. Dessa forma, era fundado em 1808 o “Correio Braziliense”, que circularia de forma semestral até 1822, aos poucos se firmando como um dos mais importantes espaços de discussão de temas que seriam fundamentais para as transformações que o Brasil experimentaria pelos anos seguintes.

Uma das temáticas que passaram a frequentar os números iniciais do jornal foram as muitas críticas direcionadas à administração portuguesa, questões que se relacionavam diretamente com o Brasil, à época pertencente ao domínio português. Do atraso político à ausência de espírito de liberdade do pensamento, passando pela importância exagerada que a religião ainda possuía, o “Correio Braziliense” seria desde cedo uma tribuna aberta a contestadores da condução política de Portugal, bem como a outras causas relevantes num mundo que se debatia entre algumas questões que apontavam para grandes transformações. Talvez a mais importante delas fosse o percurso de independência das nações americanas do jugo do colonizador espanhol, processo que avança de forma muito intensa naqueles primeiros anos do século XIX. Hipólito seria não só um dos mais assíduos interlocutores de nomes importantes, como Simón Bolívar, o “libertador” da América, e seu predecessor Francisco de Miranda, como também as páginas do “Correio Braziliense” estariam sempre abertas para divulgar o pensamento dos que propunham a autonomia das até então colônias ibéricas.

O periódico fundado por Hipólito era publicado em formato de livro e trazia como subtítulo a inscrição “Armazém Literário”, já sugerindo sua predileção por um conteúdo mais crítico e analítico em detrimento do caráter noticioso. Em alguns pontos demonstrava um jornalismo muito avançado em relação a periódicos correlatos em outros países. Por exemplo, seria um dos primeiros a apresentar uma divisão por temas, antecipando o ainda atual sistema de editorias. Mesmo com apenas duas edições anuais e não contando com mais de 500 assinantes, a publicação seria sempre caracterizada por ser um espaço de veiculação de grandes ideias, principalmente aquelas voltadas para a elevação da situação do Brasil, motivo pelo qual por suas páginas seriam debatidos e defendidos temas altamente relevantes, como a Independência, a abolição da escravidão e a interiorização da capital.

Estudiosos da vida e da obra de Hipólito da Costa, como a historiadora Isabel Lustosa, o situam como membro de um grupo de intelectuais do século XIX que pensavam o Brasil como uma grande nação. Inicialmente como parte de um império luso-brasileiro – fora sempre um partidário da monarquia –, mas depois não hesitando em aderir à causa da independência, quando percebeu, a exemplo de figuras como José Bonifácio, que o pouco dinamismo da mentalidade política portuguesa inviabilizaria um projeto que permitisse que reformas modernizadoras chegassem ao Brasil. Mesmo depois da autonomia, não deixaria de abrir as páginas do “Correio Braziliense” para denunciar os abusos autoritários e centralizadores que marcaram os primeiros anos sob governo de D. Pedro I e mostrava-se também preocupado com a manutenção da unidade brasileira.

Mesmo vivendo muito tempo longe do Brasil, Hipólito dedicaria 14 anos de intensa produção jornalística e intelectual sobre o país, sendo capaz, mesmo a distância, de influenciar e formar opinião entre as cabeças pensantes da nação. Em vários de seus escritos demonstrou o desejo de voltar a sua terra natal e viver na mesma região em que passara sua infância, na atual cidade gaúcha de Pelotas, para onde sua família se mudara quando a colônia de Sacramento passara a pertencer aos domínios da Espanha após o tratado de Santo Idelfonso, assinado em 1777. Morreria em 1823, aos 49 anos, sem realizar o seu desejo de voltar ao Brasil, no qual viveria apenas 18 anos de sua vida.

Quando da fundação da nova (e interiorizada) capital do país, Brasília, em 1960, foi publicado o primeiro número do periódico que trazia o mesmo nome do que tinha sido fundado por Hipólito, inclusive preservando a grafia original, com a letra “z”. A marca tinha sido adquirida por Assis Chateaubriand, o grande magnata da comunicação de massa do Brasil de então, e em sua primeira página fazia o reconhecimento ao pioneirismo do fundador, ao estampar a inscrição “Londres, 1808, Hipólito José da Costa”. Em 2000, por iniciativa do Congresso Nacional, o intelectual passava a ser oficialmente considerado o patrono da imprensa no Brasil, e o dia 1º de junho, data em que o “Correio Braziliense” fora fundado na capital britânica, passou a ser celebrado como o Dia Nacional da Imprensa.


Se você gostou desse texto, deixe seu comentário, compartilhe com seus amigos e curta a página: facebook.com/arteseletras2016