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Estaríamos melhor em mãos holandesas?

Alto da Sé – Olinda”, de 1662, pintada por Frans Post (1612 – 1680).

Muitos brasileiros, diante dos vestígios materiais que resultaram da presença holandesa no Nordeste brasileiro, se sentem inclinados a afirmar a supremacia da nação batava sobre a portuguesa, o que, em regra geral, teria resultado num processo de colonização que melhor preparasse o Brasil para o futuro como país independente. Apesar de alguns argumentos parecerem sedutores a respeito dessa tese, um olhar mais acurado, resultante do apoio em estudos históricos, poderá revelar uma realidade bem diferente, que aponta para um projeto de colonização que, sob alguns pontos de vista, não reuniu as características necessárias para prosperar nos trópicos.

Um fator que muitos historiadores colocam como uma possível causa do menor êxito colonizatório dos holandeses está no fato de que, ao contrário dos ibéricos, os batavos não tinham muitos motivos para deixar as boas condições de vida de sua terra natal para ir se aventurar em uma realidade incerta e inóspita como a que se apresentava do outro lado do Atlântico. Isso teria forçado a Companhia das Índias Orientais, a empresa encarregada do empreendimento na América, a buscar auxílio em outros grupos sociais espalhados pela Europa e menos providos de esperanças em seu continente de origem. Tais eram os casos de indivíduos de várias nacionalidades que acabaram recrutados para integrar os exércitos que invadiram as terras e que posteriormente as colonizariam. Um contingente cosmopolita, muito pouco tendente a criar raízes, traço que se revelaria fundamental para o bom êxito econômico.

Esses europeus que atenderam ao chamado de tocar a colonização holandesa em Pernambuco se organizaram em torno de um estilo de vida fundamentalmente urbano, povoando áreas mais desenvolvidas como o centro do Recife e a região onde ficava a ilha de Antonio Vaz, onde Maurício de Nassau construiu sua residência, sede do governo, junto aos quais se encontravam prédios que buscavam expressar o nível cultural predominante nas principais metrópoles europeias, como templos de várias religiões (que na capitania conviveram de forma consideravelmente livre), museus, praças, teatros.

Essa situação contrastava frontalmente com a realidade da colonização portuguesa, profundamente baseada no campo, em torno dos engenhos e fazendas. Os modestos espaços urbanos na verdade não passavam de apêndices das grandes propriedades rurais, abrigando não mais que alguns serviços essenciais à burocracia e ao escoamento da produção. O grande crescimento da vida urbana no Recife sob dominação holandesa antecipava assim, em muito tempo, a situação que posteriormente se instalaria nas outras regiões brasileiras, quando a imensa riqueza dos proprietários de terras permitiria a instalação de novas formas de vida que pouco a pouco vão deixando de caber no cenário bucólico das fazendas do interior.

Ao contrário, o espaço urbano da Nova Holanda sugeria o grande sucesso econômico do empreendimento batavo no Nordeste brasileiro. Palácios suntuosos como o Vrijburg figuravam ao lado de grandes parques públicos destinados a exibir a fauna e a flora do país, bem como a cultura material dos indígenas da terra. Expedições científicas que permitiram revelar as riquezas naturais do Brasil e obras de arte que se tornariam referências do período, como a produção de pintores do porte de Frans Post e Albert Eckhout, ajudavam a reforçar o caráter de exceção representado pela imponência da capital pernambucana frente ao restante do país, de cidades pouco equipadas e em quase nada diferindo dos ambientes rurais. Nem o lado obscuro do desenvolvimento urbano estaria ausente da cidade erguida pelos invasores batavos. Escritos deixados pelos muitos missionários calvinistas que vieram para Recife revelam a perplexidade destes diante dos verdadeiros antros de corrupção e vícios, que são as zonas próximas ao porto da cidade na metade do século XVII.

Mas essa grandiosidade presente na organização urbana do Brasil holandês não encontra correspondência nos resultados extraídos da produção agrícola nas áreas rurais. De caráter excessivamente rígida e metódica, a postura dos colonizadores em poucas ocasiões mostrou a sabedoria necessária para lidar com todas as dificuldades próprias da propriedade rural tal como trabalhada nos trópicos. Não espanta que já quase uma década depois de se fixarem em Pernambuco tenham se alarmado diante da constatação de que a maior parte das terras produtivas da capitania estava nas mãos de portugueses. A tentativa de trazer da Holanda camponeses para dar origem a gerações de descendentes ligados à terra também não obteve resposta satisfatória, reforçando a ideia bastante corrente da inaptidão dos norte-europeus para atuar nas pouco previsíveis condições de vida encontradas por aqui.

Essa tese fica bem provável quando se observa algumas diferenças entre batavos e portugueses no que diz respeito a aspectos culturais bastante relevantes num processo colonizatório. Por exemplo, o entrosamento que os ibéricos demonstraram com as “gentes de cor” com que tiveram que conviver na própria dinâmica da vida colonial jamais seria alcançado pelos holandeses excessivamente convencidos da superioridade de sua raça e cultura. Pareceram inábeis inclusive em traços fundamentais, como a implantação de sua língua, como constataram vários missionários protestantes, que logo perceberam que indígenas e africanos respondiam melhor à catequese quando era usada a língua portuguesa (ainda pouco empregada), e principalmente a língua-geral, que os religiosos católicos tão bem dominavam. Os calvinistas logo abririam mão da pregação em sua língua de origem, adotando as da terra.

A religião, aliás, ao que parece também jogou contra os holandeses. Muitos estudiosos, como Sérgio Buarque de Holanda, por exemplo, apontam o caráter mais universalista da Igreja Católica. Além disso, uma liturgia contendo muitos eventos de perfil socializante espalhados por procissões, festas e encenações que serviriam de modo muito mais eficaz para a mobilização, não só de indígenas e africanos, mas também de outros grupos necessários para o êxito da exploração econômica das terras. O cotidiano mais rígido e até certo ponto monótono da religiosidade calvinista, muito baseado no estudo da Bíblia num país de quase total analfabetismo, não permitiu que a atividade missionária realizasse o papel fundamental de promover uma integração que pudesse se refletir no projeto colonial.

As belezas materiais que Nassau implantaria no Recife tinham, entre outras coisas, a finalidade de atrair investidores europeus para a colaboração na empreitada cara e trabalhosa que era extrair riqueza na América. A necessidade de suprir as lavouras do trabalho escravo, sem o qual a exploração econômica traria resultados apenas medianos, e introduzir técnicas modernas para o plantio, como imaginavam os holandeses, demandava uma soma de recursos que não poderiam vir apenas do investimento de uma organização privada, como era a Companhia das Índias Orientais. O aparente esplendor da presença batava não passou portanto de uma fachada destinada a impressionar eventuais parceiros comerciais e nem de longe podia ser encarado como um reflexo dos altos ganhos auferidos com a terra. Estes sempre foram obtidos muito mais pelos portugueses, com sua maior habilidade em lidar com as condições que se colocavam do lado de cá do Atlântico.

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