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O Renascimento e as revoluções científicas

Tela de Giuseppe Bertini (1825 – 1898), em que Galileu demonstra o uso do telescópio.

Se por um lado o Renascentismo trabalhou com o estigma do novo e da reformulação de certas visões, por outro é necessário ter em mente que as fontes nas quais ele se inspira são o mundo da Antiguidade, isto é, anterior ao próprio universo medieval do qual procuram se destacar. Assim, as novas concepções propostas pelos grandes expoentes da Renascença não se originaram diretamente da realidade cultural que viviam, mas foram buscadas na cultura clássica, na referência que acabaria mais imediatamente reconhecida como base da visão de mundo da Europa e do Ocidente: o universo greco-romano.

As origens do que entendemos por Renascentismo podem ser procuradas nos chamados humanistas italianos, que começaram a garimpar em textos e obras do mundo clássico novas maneiras de responder as demandas que se colocavam num mundo cada vez próximo das referências da modernidade e mais distante das visões que se consolidaram nos séculos medievais. Esses pensadores da Itália do século XV levaram para o cenário europeu textos há muito tempo esquecidos, que viriam a ser revitalizados em instituições de prestígio, como a universidade de Florença, onde se estabeleceu também uma cadeira de estudos do grego clássico, a partir da qual era possível estudar e interpretar o pensamento dos antigos.

Essas obras da Antiguidade foram preservadas no império bizantino de onde foram trazidas para a Europa através dos próprios humanistas que viajaram ao Oriente. Também ficaram disponíveis em função de grandes enciclopédias que eruditos romanos produziram sintetizando as obras e criações de autores gregos, sobretudo os que tratavam de assuntos científicos e técnicos como a engenharia e a arquitetura. Esses livros circularam pela Europa medieval e começaram a despertar muito interesse nos humanistas.

Mas talvez as fontes mais importantes do conhecimento da Antiguidade que viria a inspirar o Renascentismo foram aquelas produzidas por estudiosos árabes, que a partir do século VII passaram a dominar importantes áreas do mundo europeu. Portadores das visões de mundo próprias do ambiente islâmico, que buscaram expandir nos locais onde se estabeleceram, esses intelectuais seriam responsáveis por uma contribuição fundamental, principalmente porque, ao contrário dos romanos, que se limitaram a compilar obras gregas, os árabes se aplicaram a estudar criticamente o conteúdo dos textos que encontraram nas bibliotecas bizantinas e da própria Europa. Os comentários de obras filosóficas que produziram se tornariam um material extremamente rico, que ficaria guardado em instituições voltadas para a difusão cultural ao longo das possessões árabes, como a biblioteca de Córdoba, por exemplo, um verdadeiro templo de cultura e conhecimento, com seus mais de seiscentos mil manuscritos.

As cruzadas, a partir do século XI, tratariam de aproximar o mundo cristão desse valor inestimável produzido pelos árabes muitos séculos antes. Nas regiões recuperadas do domínio de povos islâmicos, monges dedicados a reinstalar o cristianismo tomaram contato com muitas obras copiadas e comentadas pelos eruditos árabes e não tardaram a traduzi-las para o idioma oficial da igreja, o latim, o que depois de um tempo permitia que fossem estudadas por filósofos e pensadores cristãos que desenvolviam suas atividades junto aos mosteiros e instituições de estudo da cultura escolástica. No século XII grande parte desses conhecimentos já estava espalhada pela Europa, permitindo a eclosão de novas explorações filosóficas e tentativas de reformulação intelectual que não tardariam a se debruçar sobre o próprio pensamento cristão.

Um dos mais importantes reflexos dessas novas referências culturais que passaram a ventilar o pensamento cristão foi a descoberta da obra de Aristóteles, principalmente a partir de comentários de autores árabes como Avicena e Averróis. A presença das obras do estagirita entre os estudiosos cristãos estaria relacionada a uma das mais significativas renovações do seio do pensamento católico, quando a referência de Platão, capitaneada desde o século V pelas ideias de Santo Agostinho, começa a dar lugar aos novos conceitos oriundos das contribuições de Aristóteles.

Foi São Tomás de Aquino, uma das mais importantes mentes da Era Medieval, quem trataria de reler a teologia da Igreja à luz do pensamento aristotélico, através de uma vigorosa e vasta obra filosófica. Um dos pontos fundamentais presentes na visão tomista haveriam de ser preponderantes para a postura intelectual que alguns séculos mais tarde seria adotada pelos pensadores e artistas do Renascimento: a não oposição entre fé e razão, na medida em que ambas seriam obras divinas, tal como assinalado tanto na Bíblia quanto no “livro da natureza”, este último um conceito que ganharia força no seio da cristandade a partir da disseminação do pensamento de Francisco de Assis, naquele mesmo século XII.

O caminho aberto pelas contribuições do pensamento do mundo antigo resultaria na grande valorização da filosofia e da ciência como base da criação e das concepções de figuras até hoje reconhecidas como gênios da humanidade. Um eloquente exemplo é Leonardo da Vinci, cuja criação artística estaria sempre apoiada no impulso de conhecer cientificamente os fenômenos envolvidos, utilizando para isso de todos os recursos de pesquisa, cálculo e experimentação, que por sua vez traziam para o horizonte da arte a perspectiva das variadas disciplinas da ciência. Um dos resultados mais importantes dessa mudança de paradigma seria a invenção da imprensa, que permitiria potencializar a difusão do conhecimento, na medida em que era capaz de aproximar os produtores de cultura, facilitando o intercâmbio de ideias e as construções coletivas.

Essa ordem de coisas estaria na base do que hoje chamamos de Revolução Científica, quando o “cosmos harmônico” de Aristóteles, entendido como sistema fechado e fundo dos fenômenos da natureza e da vida, dá lugar a um universo que transcende o limite da terra e se volta para um cosmos muito mais vasto e infinito, que pode ser explicado e concebido por meio da observação e do cálculo. Daí a eclosão de astrônomos modernos, como Kepler e Titcho, e seus esforços para conceber instrumentos e técnicas de observar o céu, processo que tem seu ponto mais significativo no século XVII com as descobertas de Galilei, que lhe renderiam problemas com a Igreja, mas abririam uma nova fase do conhecimento humano na direção do vertiginoso papel que a ciência desempenharia pelos séculos seguintes.

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