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A Igreja Positivista e o Brasil de hoje

O quadro “A Pátria” (1919), do pintor Pedro Bruno.

Quando se estuda o Brasil da segunda metade do século XIX um item não pode deixar de ser destacado: o Positivismo. Filosofia desenvolvida na França por Auguste Comte, marcaria profundamente as visões políticas e principalmente os conceitos de ciência e conhecimento no Ocidente. Mas a despeito de todo o conteúdo de razão e saber filosófico ali presente, há uma faceta pouco mencionada do sistema criado por Comte, que é a sua dimensão religiosa. A chamada última fase da carreira intelectual do criador do positivismo acabaria por desembocar numa incursão pelo campo do místico-religioso. Profundamente influenciada pelo pensamento francês nesse período, a intelectualidade brasileira mergulharia fundo nas conceituações positivistas e alguns não deixariam de fora a religiosidade daí proveniente.

Assim, a Igreja Positivista, como acabaria ficando conhecida, alcançou entre nós uma considerável repercussão e, mais que isso, estaria ligada a muitos fatos fundamentais na história brasileira no limiar entre os séculos XIX e XX. Dois simpatizantes do positivismo, os então estudantes Miguel Lemos e Teixeira Mendes, após temporada na França, se encantaram com as visões religiosas que encontram em pleno processo de propagação. Ao retornarem ao Brasil, estabeleceram os primeiros marcos da instituição religiosa inspirada nas ideias de Comte. Foi aqui que esse conceito ganhou ares eclesiásticos, com a fundação de templos e a propagação sistemática da sua doutrina.

A religião positivista se caracterizava por alguns conceitos muito diferentes do que estava estabelecido no cristianismo dominante. Pra começar, proclama uma divindade feminina, a Humanidade, a sua grande musa, entendida como a maior expressão possível da dignidade. A mulher aliás seria extremamente valorizada pelos religiosos positivistas, sendo apontada como superior ao homem por ser capaz de conduzir-se prioritariamente pelo amor, sentimento a que a cultura do positivismo atribuía grande valor, como ficaria expresso na emblemática frase de Comte, que acabaria sendo em parte adotada na bandeira do Brasil: “O amor por princípio e a Ordem por base; o Progresso por fim”.

Mas não foi apenas com relação ao gênero que os adeptos da Igreja Positivista se confrontaram com o tradicionalismo dominante na sociedade brasileira da época. Na questão racial os religiosos seriam ainda mais ousados ao afirmarem a supremacia da raça negra sobre as demais, pelo fato de nela predominar o sentimento em detrimento da razão. Chegaram a colocar entre suas figuras de culto – cívico, como chamavam – Toussaint Louverture, o líder da rebelião escrava no Haiti que culminaria da independência desse país. Isso diante de uma classe dominante brasileira que tinha na possibilidade de revolta dos cativos seu maior fantasma. Consequentemente, os religiosos positivistas estiveram entre as mais combativas vozes a se levantar a favor da abolição da escravatura. Chegaram mesmo a expulsar adeptos que se recusassem a se desfazer de seus cativos.

Os seguidores da Igreja Positivista também se mostraram preocupados com um tema que em geral era colocado no ostracismo pelos intelectuais e formadores de opinião do período: a situação dos indígenas, que julgavam um grupo injustiçado no Brasil e ao mesmo tempo um modelo a ser seguido em virtude da sua ligação com a natureza. Não espanta que tenha vindo de um dos religiosos positivistas, o marechal Cândido Rondon, uma das mais brilhantes iniciativas de integração dos índios ao todo da sociedade brasileira, sendo até hoje considerada um paradigma universal de aproximação com os chamados “povos originários”, sobretudo pelo pacifismo do método.

A causa pacifista, aliás, seria um dos pilares da Igreja Positivista. Eram frontalmente contrários a guerras e regimes militares, e também não apoiavam os movimentos revolucionários, que acreditavam ineficientes por contrariarem o caráter de encadeamento gradual que marcava a dinâmica da natureza. Assim, apoiaram a república no Brasil, mas criticaram o totalitarismo com que ela foi instalada, sobretudo no regime mão de ferro imposto por Floriano Peixoto. Mesmo assim, não deixaram de apresentar no pós-monarquia contribuições provenientes de suas crenças. A mais conhecida foi a adoção da Bandeira Nacional, que lutaram para que se mantivesse parecida com a que existia no Império, ao invés de outra inspirada na bandeira estadunidense como queriam muitos republicanos.

Argumentaram que, mesmo superada, a condição imperial deveria ser respeitada como uma expressão de uma fase anterior de desenvolvimento de uma nação (a república, para eles, seria a mais avançada). Conseguiram também inserir parte da célebre frase de Comte na insígnia e lutaram para que lá permanecesse apesar de muitas resistências. Por outro lado, acabaram colaborando com o projeto republicano ao apoiar o culto cívico de figuras tidas como superiores na história nacional, como Tiradentes e José Bonifácio, que na visão dos republicanos era uma forma de substituir no imaginário da nação o apego por personalidades religiosas e consequentemente diminuir a ascendência da Igreja Católica, que consideravam prejudicial aos brasileiros.

O discurso pacifista dos religiosos positivistas também procurou atuar em importantes questões nacionais entre o final do século XIX e o início do XX. Tais foram os casos da participação brasileira na Guerra do Paraguai, a que sempre se opuseram, inclusive pregando o perdão das dívidas de guerra contraídas pelo país vizinho, e da tese do serviço militar obrigatório, amplamente defendida por várias figuras do meio intelectual. As suas preocupações com a paz vinha também da inspiração de Francisco de Assis, uma das poucas figuras da religião tradicional que consideravam. Das ideias do religioso italiano do século XII também trouxeram a causa da preservação ambiental, que praticamente não figurava nas mentes da época, num Brasil ainda tão pouco urbanizado, no qual a maior parte da população ainda vivia no campo. Teixeira Mendes, por exemplo, se recusava a usar qualquer objeto de couro, se opondo à matança predatória de animais.

A Igreja Positivista, como seria de esperar, foi definida por muitos naquela época como uma criação de lunáticos ou sonhadores sem conexão com o mundo real. No entanto, as demandas nacionais mais importantes daquele entresséculo, como o fim da escravidão e a adoção da república, estiveram entre suas propostas. Outras questões, por outro lado, que constituíam tabus ou estavam fora da esfera de preocupações do país foram por eles levantadas. A valorização da mulher, um melhor lugar para africanos e indígenas na cultura nacional, a tentativa de harmonização com as nações vizinhas do continente, a preocupação com as questões ambientais, entre outras causas pelos quais modernamente ainda se luta, foram itens antecipados por aqueles que se agruparam em torno do ideário da religiosidade positivista. De tudo o exposto cabem reflexões. E se ao invés do relativo esquecimento histórico a Igreja tivesse se expandido na mentalidade nacional e levado adiante seu ímpeto renovador? Em que pé estaríamos hoje?

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