Pular para o conteúdo principal

Educação 3.0 – Sobre as bases teóricas


Este é o terceiro de um conjunto de textos que oferecem as bases para o entendimento do que é Educação 3.0. Nos dois primeiros foi explanada a base filosófica, e agora serão apresentadas as bases teóricas.

Para entender o que é Educação 3.0, é preciso estar ciente de que um ciclo civilizacional (2.0) se encerra e outro se inicia. Para explicar o porquê das revoluções civilizacionais ao longo da história, vamos começar com os apontamentos feitos por Nepomuceno, especialista em Educação 3.0, que apresenta o quesito crescimento demográfico, a quantidade de um determinado grupo de pessoas por um determinado território, como um dos principais pontos para explicar a complexidade instalada nestes tempos.

A população mundial cresceu de um bilhão de pessoas, em 1800, para sete bilhões, e esse aumento populacional traz também um aumento de complexidade em todos os sentidos: econômico, financeiro, administrativo, educacional, dentre outros. Basta comparar a população de uma aldeia de esquimós no Alasca (200 pessoas), com a população de São Paulo (12 milhões de pessoas). Com o aumento demográfico, é certo que há problemas mais complexos que não podem ser resolvidos com soluções dadas no passado, quando o número populacional era menor.

Nepomuceno chama a atenção para o fato de que, em geral, o crescimento demográfico não é levado em consideração pelas pessoas, assim como a questão da tecnologia e o fato de sermos uma TECNOESPÉCIE, a ponto de alguns dizerem que vivem sem tecnologia – como se isso fosse possível.

Como base teórica para o entendimento da Educação 3.0, faz-se necessário compreender o efeito da demografia para a nossa TECNOESPÉCIE. Avalie o fato de que, quando a população mundial era de um bilhão de pessoas, eram necessários no mínimo 20 bilhões de litros de água potável por dia para saciar a sede – considerando que cada pessoa deve ingerir 2 litros de água por dia. Quando o número de habitantes cresce para sete bilhões, a quantidade de litros de água passa para 140 bilhões. Estenda esse exemplo às diferentes necessidades e particularidades da população e você vai concluir que há uma relação indiscutível entre demografia e complexidade.

Diante desse quadro e para entendermos a Educação 3.0, é preciso considerar o aumento demográfico, que naturalmente requer mudanças no mundo e na forma de administrar, educar e escolarizar. O motivo dessa mudança é que não há como manter o mesmo modelo de educação e de escola de quando o número da população era sete vezes menor. Precisamos mudar nosso modelo de educação para atender às sete bilhões de pessoas que aí estão. O desafio posto, e bem fundamentado pelo pós-doutor Ronaldo Mota, consultor nas áreas de Educação e Inovação, é educar quantidade com qualidade. Relacionar qualidade a pequenas quantidades é um equívoco, pois a realidade mostra que a demanda é grande, sendo necessário pensar um modelo de educação que ofereça qualidade para a quantidade.

Outro importante tópico da base teórica é a análise das formas de comunicação. Historicamente, o homem se comunica por meio de diferentes formas de linguagem. A primeira delas foi a da Civilização 1.0, marcada por gestos; a forma de comunicação nascida na Civilização 2.0 foi a palavra e a escrita; e a da Civilização 3.0, na qual vivemos, é marcada pelos cliques e ícones como um novo modelo de comunicação, que permite tomadas de decisão de forma diferenciada. Mas, atenção, diferentemente do que se possa imaginar, o gesto, a palavra falada e escrita não vão desaparecer, pois a sociedade se reorganiza e incorpora uma nova linguagem às demais assim que ela surge. Portanto, o que há de certo nessa nossa caminhada humana são as mudanças, que são marcadas pela chegada de novas mídias.

Porém, não são apenas as formas de comunicação que precisamos levar em conta para compreender as bases das revoluções civilizacionais. Temos também as formas de administração presentes na nossa sociedade ao longo da história. Na Civilização 1.0, a administração era feita pela pré-gestão. Já na Civilização 2.0, o modelo era a gestão, da qual você que lê este texto deve se lembrar bem, pois a marca principal desse modelo era ter um gestor (ou um gerente) de carne e osso que “comandava e coordenava” o barco das organizações e instituições em relação aos desafios e às demandas. Esse gestor demitia, contratava, coordenava as ações e tinha tudo sob seu controle.

Atualmente, dentro da Civilização 3.0, esse modelo se altera radicalmente, pois agora passamos a operar por meio do modelo de administração denominado Curadoria. Os termos “curadoria” e “curador” vêm de "curar", ato que se relaciona ao cuidado e à atenção com alguma coisa, com o zelar por algo. Etimologicamente, podemos dizer que a palavra “curadoria” se originou do latim “curator”, que significa “aquele que administra", "aquele que tem cuidado e apreço".

No caso da Civilização 3.0, em função da linguagem utilizada, a de cliques e ícones, passamos a ter um “curador digital”, em que as demandas surgem de fora para dentro e de baixo para cima; basta lembrarmos que, simbolicamente, em função da chegada da internet e com a explosão demográfica, é como se estivéssemos num aquário gigante (tudo transparente), e por isso mesmo o modelo de curadoria digital cabe perfeitamente nesse contexto.

Aquele gestor presente no modelo da Civilização 2.0 tende a desaparecer, pois as decisões tomadas são diferentes na Civilização 3.0. Nepomuceno salienta que as organizações tradicionais não são mais compatíveis com o Mundo 3.0 que está surgindo, e aponta a curadoria digital como solução: “Há uma ordem de comando, hierarquia, tempo e capacidade de ajustes às sugestões que vêm de fora para dentro e de baixo para cima. A curadoria, modelo das Organizações 3.0, Ubers da vida, resolvem de forma elegante essa questão, pois distribuem as decisões para as pontas; o administrador passa a curador; o curador não recebe sugestões, e sim ordens a serem executadas pelos membros da Plataforma; o curador apenas ajusta o ambiente para que essas decisões tenham alta taxa de confiabilidade e relevância, através de ajustes nos algoritmos”1.

Um exemplo claro desse tipo de curadoria, conforme cita Nepomuceno, é o famoso Uber, em que não há um gerente (pessoa física) interagindo, e sim uma plataforma digital que proporciona interatividade entre cliente e quem presta o serviço. Há uma inteligência artificial que não apenas disponibiliza o serviço por meio da plataforma como também avalia prestador e cliente. No sistema de táxis não havia esse tipo de avaliação, então, muitas vezes, quando o serviço prestado não era de qualidade, o cliente ficava refém daquele atendimento ruim, pois não havia contrapartida de quem administrava.


E A EDUCAÇÃO 3.0?
Esses modelos que se utilizam da CURADORIA DIGITAL baseada em plataformas digitais são também a base da Educação 3.0. A lógica de que a verdadeira educação de qualidade é aquela realizada apenas presencialmente, com um professor para cada 12 alunos, não tem como funcionar numa civilização marcada por um crescimento populacional absurdo, com demandas cada vez mais complexas. A solução NÃO É a introdução de novas tecnologias na escola que aí está (a velha escola), e sim na mudança de mentalidade daqueles que vivem a educação dessa Era (3.0), em que a curadoria se faz presente como um modelo viável para educar. Quando há mudança de mentalidade, há naturalmente a entrada das novas tecnologias.


E O PROFESSOR, VAI DESAPARECER?
O professor não perde o lugar, mas seu papel tem novo sentido. A partir de então ele não é mais um transmissor de conhecimento, e sim orientador da aprendizagem, pois os alunos desta Era chegam direto às informações por meio do digital. Por vezes, os estudantes têm mais acesso a isso do que os próprios professores. Portanto, o papel do docente não será mais o de transmitir conhecimentos, e sim atuar como um organizador da informação, que ajudará os alunos a construir a própria compreensão para darem sentido a esse conhecimento. Caberá ao professor, especialmente no caso da faixa etária de jovens e adultos, fazer-se “presente” por meio de plataformas digitais, e dessa forma traçar rotas de aprendizagem que passem pela pesquisa, por trabalhos coletivos e compartilhados. Assim, ele vai organizando, dando sentido às atividades, o que é muito diferente de estar numa sala de aula com um quadro-negro, “dando” informações sem parar. Sua tarefa agora é disponibilizar as formas de acesso ao conhecimento, como um curador educativo. Vale ressaltar que esse modelo não se aplica à educação infantil e ao ensino fundamental, questão que será discutida um pouco mais em nosso próximo texto.

Naturalmente, não temos respostas para todas as dúvidas, mas temos boas pistas e experiências que vêm ocorrendo por várias partes do mundo e que serão realidade por aqui logo, logo!


1 NEPOMUCENO, Carlos. Macrocrise da Gestão. Neposts – Rascunhos Compartilhados, 15 mar. 2017. Disponível em: http://nepo.com.br/2017/03/15/a-crise-da-gestao/.

Comentários

Postar um comentário

Deixe seu comentário aqui.

Postagens mais visitadas deste blog

A fotografia e o poder da imagem no mundo moderno

Da pintura como única forma de reproduzir o que os olhos presenciavam até as modernas maneiras de registrar a realidade, a fotografia descreveu uma trajetória cercada de muitas discussões a respeito do lugar que essa atividade deveria desempenhar no cotidiano das pessoas e no engrandecimento da cultura. O inventor francês Louis Daguerre foi o primeiro a criar algo que sugerisse a substituição dos artistas como forma de reproduzir visualmente a realidade. Em 1839 é anunciado o daguerreótipo, o primeiro ancestral das máquinas fotográficas. Na verdade muitos pesquisadores autônomos já haviam trabalhado e obtido alguns êxitos em desenvolver maneiras de reproduzir a imagem.
O mérito de Daguerre foi desenvolver uma máquina que dava início ao que iria se transformar numa das características que mais colaborariam para a popularização do ato de retratar: a possibilidade de cada pessoa poder utilizar sua própria câmera e produzir suas imagens, em substituição à habilidade individual de artistas …

Prestigiar o professor é o grande barato desta bienal

Conheça o trabalho de professores como você, participando das nossas tardes de autógrafo. Serão mais de 30 autores de diversos gêneros, como o colunista do blog da Appai e revisor da Revista Appai Educar, Sandro Gomes.

As três edições do Altos Papos já estão com inscrições abertas na página da Educação Continuada no Portal do Associado. Leia atentamente as condições de horário e transporte antes de confirmar sua presença.
Aproveite a visita e “seja capa” da Revista Appai Educar. Marque suas fotos com #SouAppai e apareça em nosso Facebook.
E ainda divirta-se em nosso espaço interativo e conheça um pouco mais sobre a appai.
PROGRAMAÇÃO COMPLETA


Setembro em ritmo de novidade!

Agora você pode conhecer os ritmos mais badalados do momento através das Oficinas de Dança! E melhor, não precisa estar matriculado para participar! É muito fácil!
Quem já está inscrito num espaço de dança é só conferir as datas e horários disponíveis no seu espaço. Para quem ainda não conhece, é o momento de experimentar, sem compromisso, a novidade do Benefício Dança, os diversos ritmos oferecidos, como: West Coasting Swing - Dança Cigana - Zumba - Charme.

A duração de cada oficina é de a 1 hora. Confira a programação abaixo:
------------------------------------- Ritmo: West Coasting Swing
Classic Festas
Estrada do Mendanha, 1531 Próximo ao Clube dos Aliados Campo Grande 04/09/17 20h Clube dos Oficiais da Marinha
Av. Passos, 122/2º andarCentro 11/09/17 19h Dançando com Arte
R. Gov. Portela, 1084 – Centro, Nova Iguaçu/RJNova Iguaçu 15/09/17 17h30 AC. Bio Fitness
Av. Cesário de Melo, 4799 salas 201 a 204Campo

3 verbos para a educação do século XXI

É fato, as gerações atuais pensam e vivem de forma bem diferente das pertencentes às décadas anteriores. A conexão digital traz respostas imediatas às dúvidas, os conteúdos são apresentados de forma qualitativa e diversificada, e, por isso mesmo, a dinâmica da educação se transforma e se renova. Esse novo contexto traz consigo a demanda por novas ações, e são os grandes especialistas em educação que apontam os pilares/tendências próprios para o século XXI. Para tornar o tema mais aplicável, vamos apresentar essas tendências por meio de três verbos:
CURAR CONECTAR PERSONALIZAR
CURAR O verbo “curar” (cuidar, zelar) carrega consigo algumas preciosas ideias que muito se afinam com o educar. Embora tenha se originado no contexto das artes, o conceito apresenta uma forte e intensa aplicação ao contexto pedagógico. O curador em educação é um guia competente, alguém que tem toda a condição de cuidar, mas não apenas isso. O curador da educação tem um olhar atento e crítico para as necessidades dos…

Rádio e TV Appai ganham programação especial para a Bienal Livro Rio

A TV Appai vai transmitir ao vivo os encontros “Altos Papos” direto de nosso estande na Bienal. Durante os dias de evento reportagens especiais também vão ser apresentadas.  E ainda, quem for ao nosso estande vai poder acompanhar uma mostra de nossos principais programas através de um telão de LED instalado de forma estratégica. São atrações como “Professor Curioso”, “Talentos A+” e vídeos de corridas.
Por sua vez, a Rádio Appai está com uma programação de serviço para ajudar quem for visitar a maior feira literária do país. Trazemos diariamente dicas de transporte de como chegar e sair dos Pavilhões do Riocentro. Também estamos com um espaço para serviço em que informamos os horários dos eventos e toda a agenda.
Juntas a Rádio e a TV Appai contam em suas programações a história da Bienal. Ao mesmo tempo em que é a maior e mais famosa do mundo, a Feira de Livros de Frankfurt, na Alemanha, também é a mais antiga. Ela começou a ser promovida logo após a imprensa ter sido inventada, não à …