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O mito dos bandeirantes

Os aventureiros” (1936), do pintor Antonio Parreiras.

Até o primeiro quartel do século XIX aquela que é hoje a maior metrópole brasileira não passava de uma cidade bucólica e com fortes laços com o passado colonial. As grandes mudanças que transformariam o Brasil após a Independência haveriam de repercutir no desenvolvimento de São Paulo, que dentro de um tempo relativamente curto se tornaria a mais urbanizada e industrializada cidade do país. Mas, ao contrário de outras cidades ou províncias brasileiras que em vários momentos desempenharam função de liderança na vida nacional, como Rio de Janeiro, Bahia e Minas Gerais, os paulistas não dispunham de um cabedal histórico que refletisse a sua grandeza como povo.

Isso se devia principalmente à natureza da principal contribuição da província para a história e cultura do país, a atividade bandeirante. São Paulo foi uma espécie de quartel-general das muitas tropas de aventureiros que se deslocaram para vários pontos do que viria a ser o território do país em busca de riquezas. Graças ao ímpeto empreendedor e destemido desses brasileiros dos primeiros séculos de colonização, o Brasil descumpriria as normas do Tratado de Tordesilhas firmado entre Portugal e Espanha em 1494 e avançaria rumo às terras que constituem partes dos atuais Centro-Oeste, Norte e Sul do país.

Se esse tipo de atividade por um lado ajudou a aumentar a quantidade de terras que viriam a figurar nos domínios do Brasil, levando à descoberta de riquezas tanto materiais quanto culturais e ambientais, por outro, pouco colaborou para desenvolver a região de onde as muitas tropas de entradas e bandeiras partiam. Isso se dava em função do fato de que frequentemente os exploradores buscavam se apoderar e fixar nas próprias terras que encontravam, quando nelas se achavam possibilidades de enriquecimento.

Mesmo quando rincões férteis ou ricos não eram achados, os bandeirantes voltavam ao Sudeste trazendo os resultados de suas aquisições, que então eram comercializados para a Europa ou nos poucos pontos do país onde havia algum nicho de transação mercantil. Essas riquezas constituíam-se basicamente do extrativismo de produtos da terra, como animais de caça ou as chamadas drogas do sertão, e principalmente daquilo que foi considerado a grande riqueza dos primeiros séculos de colonização: o comércio escravista a partir do apresamento de nativos ou “negros da terra”, como eram chamados. O resultado desse processo é que, enquanto outras regiões do país se desenvolviam beneficiadas pela atividade bandeirante, como foi o caso dos engenhos do Nordeste, que tinham em parte sanada a sua carência de mão de obra, São Paulo pouco progredia em termos materiais.

À medida que a província avança como potência geradora de riquezas para o país, as classes dominantes começam a seguir um caminho que já vinha sendo traçado pela nação como um todo e pelos estados em particular: a tentativa de estabelecer uma narrativa da história que permitisse definir um lugar na vida e cultura nacionais. No entanto, eram poucos os vestígios materiais a atestarem a importância de São Paulo para o país, já que ali não estavam presentes elementos relevantes nesse processo, como grandes prédios históricos ou construções que refletissem o desenvolvimento, como se podia encontrar em regiões há muito mais tempo urbanizadas, como Salvador, Rio de Janeiro ou as cidades históricas de Minas Gerais. Diante disso, as elites paulistas elegem os antigos conterrâneos da atividade bandeirante como tipo cujas virtudes (e apenas elas) haveriam de representar os brasileiros daquela região.

É da tentativa de escrever uma história dos feitos dos primeiros paulistas que aparecem as representações clássicas de personagens como Anhanguera, Raposo Tavares e Fernão Dias, que são representados em pinturas e narrativas como brancos, de porte altivo e trajando roupas à moda de europeus dos séculos XVI e XVII. Imagens que escondem a situação absolutamente precária em que esses aventureiros tinham de encarar o ambiente extremamente inóspito da selva tropical, muitas vezes descalços, maltrapilhos e passando grandes privações em meio a espaços naturais. Poucos desses tropeiros aliás traziam na aparência os vestígios biológicos de sua ascendência europeia. Eram predominantemente mamelucos e na maioria das vezes poderiam ser confundidos com os próprios indígenas que viviam a perseguir não fosse pelas muitas roupas a cobrir o corpo.

A bravura e coragem do bandeirante foi outro traço bastante explorado na construção desse personagem do Brasil colônia. A tal ponto que muitas atrocidades e práticas violentas foram frequentemente vezes deixadas em segundo plano, dificultando a identificação dos muitos elementos destrutivos da atividade tropeira ao lado evidentemente dos benefícios que ela proporcionou. Os indígenas foram o segmento mais prejudicado pelos métodos violentos adotados nas ações bandeirantes. Narrativas dão conta da extrema agressividade sofrida pelos nativos nas ações de captura, que nada devem aos relatos de maus-tratos ocorridos nos navios negreiros e nos postos de venda de escravos africanos. Dessa forma, a maioria dos integrantes das bandeiras era na verdade hostil aos seus próprios antepassados, configurando a condição de total ausência de referência identitária, que Darcy Ribeiro designou com o termo “ninguendade”.

Pela grande produção escrita, de cartas e relatórios de missionários jesuítas, pudemos saber muito do que sofreram os aldeamentos. Era comum a estratégia de cercar as aldeias e exigir a saída dos nativos diretamente para o aguilhoamento. Há relatos de missões inteiras queimadas por bandeirantes, quando houve resistência, e de verdadeiras chacinas que não poupavam velhos, crianças e sequer os religiosos, que muitas vezes expressaram seu espanto diante da crueldade de tropas comandadas por europeus ou seus descendentes diretos, indivíduos que haviam recebido valores cristãos e frequentemente partiam para suas ações ornados de objetos de culto, como crucifixos ou imagens de santos de devoção.

Os bandeirantes foram assim pintados nas modernas narrativas como baluartes do progresso, simbolizando a superioridade do europeu e seu ímpeto de trazer “civilização” a uma terra totalmente agreste. Um perfil que certamente cabia muito bem no contexto de um estado que caminhava para uma trajetória de veloz industrialização e que precisava colocar foco sobre a capacidade de ações realizadoras. Apesar de terem de fato desempenhado uma tarefa importante, que culminaria em benefícios para o país, como a ampliação do território, a incorporação de recursos naturais e até a riqueza cultural e populacional brasileira, não se deve perder de vista o caráter altamente destrutivo e intolerante de suas ações, a ambição desmedida que os conduzia – e que ainda hoje é um padrão seguido por muitos agentes econômicos – e principalmente o quanto colaboraram para o inegável genocídio que a presença europeia na América representou para os primeiros filhos do continente.

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