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A primeira civilização cosmopolita do Brasil

A ganância predominou no Ciclo do Ouro

A ideia da existência de ouro e pedras preciosas nas terras da América é quase tão antiga quanto a presença europeia no continente. Desde os primeiros tempos da colonização do Brasil os sertões brasileiros despertaram o interesse de aventureiros e exploradores atrás da oportunidade do enriquecimento. Assim, não causa espanto que a descoberta dos primeiros veios de ouro no que hoje é a região central do Brasil, no final do século XVII, ocasionasse o primeiro grande movimento migratório da nossa história e consequentemente desse origem à primeira civilização cosmopolita no país.

A notícia da descoberta de matrizes auríferas causaria de imediato uma verdadeira balbúrdia na já pouco organizada colônia portuguesa. Os primeiros pontos de extração encontrados eram do chamado ouro de aluvião, onde o minério se depositava no fundo dos rios e bastava depurá-lo separando areia e cascalho, o que fazia da extração algo bastante acessível a qualquer pessoa. Essa situação teria como consequência o rápido povoamento das localidades, com o aparecimento de muitos problemas até então inexistentes. A corrida do ouro mobilizou pessoas de todas as classes sociais e origens, inclusive aumentando massivamente o número de portugueses que abandonavam o reino para tentar a sorte na região mineira. Problemas populacionais chegaram a ocorrer na colônia, em virtude do esvaziamento de várias cidades, cujos habitantes se lançaram para as regiões extrativas. Houve casos de engenhos do Nordeste desativados quando seus proprietários trocaram a exploração agrícola pela febre do ouro. Só mais tarde, quando o minério se esgota nas águas é que a extração vai ficando um negócio apenas dos já bem estabelecidos, pois era um processo bem mais trabalhoso e caro perfurar as pedras das montanhas.

Um dos primeiros resultados disso foi a formação de grandes bolsões de pobreza nos arraiais que ficavam próximos a pontos de extração. Massa de mestiços, analfabetos, deserdados de toda sorte, que haviam abandonado seus locais de origem para embarcar na aventura do ouro e, excluídos das engrenagens que se estabeleceram, acabaram na total indigência, mendigando, se prostituindo, praticando pequenos crimes, incapazes de se manter inclusive pela explosão inflacionária que passaria a vigorar nessas cidades que abrigavam cidadãos que muito rápido tinham enriquecido. O ouro passou praticamente a ser uma moeda em cidades que se desenvolveram em torno dessa atividade, como Vila Rica e São João Del Rey, onde a oferta de bens de toda espécie era insuficiente para prover os emergentes “barões do ouro”.

A rica atividade de exploração aurífera em pouco tempo transformaria as cidades envolvidas em verdadeiros barris de pólvora de violência, desmandos e corrupção. Um bom exemplo disso foi a chamada Guerra dos Emboabas, resultado de muitos conflitos isolados travados entre paulistas – os primeiros a achar os veios de ouro, que por esse motivo se julgavam legítimos possuidores das minas – e empreendedores vindos de Portugal ou de outros pontos da colônia. As tensões chegaram ao cume em 1707, quando estouraria um grande conflito armado produzindo muitas mortes e violência. Depois de um longo ano de combates sangrentos, tropas emboabas trazendo em torno de 3 mil soldados chegaram às cidades de maior intensidade exploratória resolvidos a expulsar os paulistas, que tinham na figura de Borba Gato seu maior líder. O triste desfecho desse episódio se deu com a execução de mais de 300 paulistas, mesmo depois de terem se rendido e desarmado. A derrota não desanimou os bandeirantes, que avançaram por outras partes do sertão e ainda descobriram mais reservas de ouro em localidades dos atuais Mato Grosso e Goiás, que mais tarde foram erguidos à condição de capitania para melhor administração das riquezas do ouro.

"Lavagem do ouro no Itacolomi", de Johann Moritz Rugendas

Uma página à parte da tragédia humana que sob muitos aspectos foi o Ciclo do Ouro diz respeito à escravidão. A ambição dos exploradores não pouparia a mão de obra cativa que à base de muita violência tinham de suportar as condições por si só penosas dos métodos utilizados à época para extrair o minério. A estação de poucas chuvas era preferencial para uma boa produção porque tornava possível desviar cursos de rios e construir barragens que facilitassem o manejo nas águas. O problema era que na região central do país esse período era também o das estações frias, o que forçava os cativos a garimpar dentro dos rios gelados das regiões montanhosas. Nas minas úmidas, os gases e produtos empregados para explosões e perfurações frequentemente causavam asfixias e desmaios que muitas vezes levavam à morte.

O resultado desse trabalho em condições totalmente subumanas era o alto índice de óbitos entre os cativos e uma média de vida que raramente ultrapassava os 30 anos de idade. Com a fartura de recursos, os que morriam eram rapidamente substituídos, fomentando sobremaneira o tráfico de seres humanos, que cada vez mais eram tratados como simples peças de reposição. A presença sempre crescente de escravos nas regiões auríferas teria como resultado muitos conflitos entre etnias que já se desentendiam na própria África, além de muitos casos de insubmissão de cativos aos excessos cometidos por seus senhores. As principais cidades extratoras de ouro se tornariam antros de violência, marginalidade e delinquência.

Mas nem só de ganância, desequilíbrios sociais e conflitos viveu o Ciclo do Ouro. Como sempre acontece em contextos culturais marcados por muita geração de riqueza, elites intelectuais e gênios artísticos encontram condições de criar e desenvolver obras de alto valor cultural. O exemplo mais eloquente talvez sejam os prédios públicos, monumentos e igrejas, instalados em várias cidades históricas brasileiras, que refletem toda a beleza do estilo barroco predominante no século XVIII, algumas inclusive passando a ser consideradas patrimônio artístico da humanidade, como é o caso de Ouro Preto. As riquezas do ouro no Brasil permitiram o surgimento de gênios únicos, como um Aleijadinho nas artes plásticas, ou incríveis personagens da cultura nacional como a ex-escrava que se tornaria senhora, Chica da Silva. Também viria como uma consequência do nível cultural que as imensas riquezas da extração aurífera propiciariam a alguns setores o primeiro grande movimento de contestação à autoridade do colonizador, através do que ficaria conhecido como a Inconfidência Mineira. Até mesmo fora do Brasil o ouro das minas ajudaria a erguer valiosos monumentos de arte e beleza, como é o caso do convento de Mafra, em Portugal, um dos grandes símbolos da estilística barroca na arquitetura.

A vida social que se estabeleceria durante o Ciclo do Ouro pode ser entendida como um prenúncio do que seria o Brasil mais à frente, com seus ingredientes de má distribuição de renda, mandonismo, injustiça social e discriminação. Por outro lado, não se pode negar a riqueza cultural da primeira grande civilização cosmopolita do país, formada pela busca por gente de vários pontos do planeta por enriquecimento. Nem todos naturalmente obtiveram a tão sonhada ascensão econômica, mas pela primeira vez se registra entre nós a força que pode estar presente numa sociedade caracterizada por ampla diversidade cultural. As boas lembranças desse período, com suas expressões de arte, beleza, história e cultura, podem ser tomadas como um exemplo do que ainda podemos ser, depurando-se o passado da ganga sem utilidade.

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