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Você sabe como enfrentar a Baleia Azul?


Muito mais do que os efeitos propriamente ditos, a onda de boatos em torno do “jogo” vem transformando fatos ainda não comprovados e em fase de investigação numa verdadeira Lenda Urbana Cibernética. Verdade seja dita, o tema tem aterrorizado muito mais os pais do que os próprios adolescentes, vítimas em potencial. Independentemente de ser real ou não ou de ter a dimensão propagada, a onda provocada pelo rastro desta baleia alerta para a necessidade de uma atenção especial a todos que lidam com esta faixa etária, inclusive nós professores.

Alguns colégios começam a discutir o tema em conselhos de classe ou em reuniões extras com profissionais da educação e pais de alunos. Outros têm optado por enviar circulares e notificações para os responsáveis avisando da necessidade de lidarem com a temática em casa e arriscando orientações de como agir e conversar com os filhos. Porém, a iniciativa ainda é muito tímida, até mesmo por falta de informações concretas.

Na realidade a maioria dos profissionais de educação ainda não sabe como lidar com o caso. Primeiro, por desconhecimento da profundidade deste mundo virtual ainda estranho a muitos de nós e suas reais consequências. A falta de informação vem junto com o medo de, ao alertar, atingir um efeito contrário e despertar a curiosidade para o assunto. Trata-se do fenômeno “Werther”, tese de psicologia que garante que, quando se aborda o tema do suicídio, a tendência é que as pessoas imitem os relatos e a estatística cresça. O mesmo procedimento é adotado pelos veículos de comunicação que também evitam notícias com este cunho. Mas será que não é essa lacuna que deixa espaço aberto para justamente proliferarem esse tipo de corrente nas mídias sociais?

Do Fake News ao Real

Para as autoridades o mito criado em torno desse “jogo” vem propagando mais rapidamente do que as ações efetivamente feitas. A própria corrente surgiu na Rússia através de uma “fake news” (notícia falsa) divulgada por um veículo estatal. Apesar dos desmentidos posteriores, viralizou para o resto do mundo. Ou seja, se o jogo não existia, se era apenas boato, hoje ele pode ser real mesmo que na imaginação de muitos adolescentes.

Professor apavorado dissemina pânico

A boa intenção, mas a falta de informação de um professor da cidade de Arapongas, no Paraná, provocou uma onda de pânico entre os moradores da região. Precipitadamente o romântico desaparecimento de um casal apaixonado de adolescentes deixou de ser uma forma de chamar a atenção da família para se transformar em uma onda aterrorizante. Tudo porque um educador de um colégio estadual gravou um áudio disponibilizado no Whatsapp atribuindo o sumiço à Baleia Azul. Apesar de terem sido encontrados já no dia seguinte, o material disseminou. Um efeito ainda mais grave veio a reboque com outra falsa denúncia de um professor de Língua Portuguesa sobre a participação de uma terceira estudante de 17 anos. Num efeito parecido com o clássico “Bruxas de Blair” a ela foi erroneamente atribuído o papel de tutora do jogo, gerando dois efeitos adversos imediatos: de um lado uma popularidade com muitas solicitações de amizade no Facebook de adolescentes querendo participar! Do outro, uma perigosa enxurrada de xingamentos e ameaças por conta do mal-entendido, o que poderia resultar numa tragédia.

Ainda no rastro fantasioso, circulam mais boatos no meio educacional, entre eles de que algumas das missões exigidas pelos mentores do “jogo” seriam a de agredir, ameaçar ou executar professores que, por ventura, viessem a alertar os estudantes sobre os perigos dessa gincana. Pura mentira, nem na mais cruel das 50 tarefas atribuídas a Baleia Azul consta tal item.

Outras informações dão conta de que a chantagem incluiria retaliações a parentes caso alguém abandone as tarefas no meio, que incluiria flagelo, mutilações e dar fim à própria vida na 50ª e derradeira prova. Justamente a intimidação tem sido apontada como uma das razões para que jovens prossigam no jogo mesmo à revelia.

Como professores podem ajudar?

O Ministério Público do Paraná faz um alerta aos pais e profissionais de educação para que redobrem os cuidados. Fiquem atentos a mudanças de comportamento, ao isolamento, às faltas e ao uso de roupas de mangas compridas, que podem ser usadas como uma estratégia para esconder as mutilações das provas.
A polícia está recolhendo computadores e celulares de todos, não só dos que são apontados como vítimas dessa corrente. Porém muitos adolescentes em estado de depressão ou alucinatório podem se imaginar como vítimas do golpe. Fora que tem outro ingrediente que raramente vem à tona e que a sociedade costuma esconder embaixo do tapete: o índice de suicídio no Brasil é muito mais comum do que percebemos, deixando o país como o oitavo do mundo neste tipo de óbito. Ainda temos que levar em consideração que esta faixa etária é uma das mais propensas a depressão e a insegurança.

Casos no Rio de Janeiro

Aqui no Rio de Janeiro, a polícia apura a queda de uma moça de 25 anos de um prédio do Centro da Cidade depois de, segundo testemunhas, ter ficado com as pernas penduradas no parapeito. Detalhe: essa é uma das 50 provas da gincana. Até agora somente duas meninas de 14 e 15 anos do centro carioca e outra do interior garantem que foram cooptadas e ameaçadas por pessoas que se passavam como “curadores” do jogo.

Um terceiro caso foi denunciado por um professor de Duque de Caxias é de um garoto autista de 13 anos, que chegou à escola com cortes nos braços. Ferior os braços com objetos contantes seria outra das etapas da gincana. Outra suposta vítima de 15 anos colaborou com a polícia informando que recebia ordens de dois mentores, um que se comunicava em inglês e outro em português, atribuindo a eles as mutilações cunhadas no próprio corpo.

Motivadas pelo pânico, nos últimos dias, mais de 130 notificações foram repassadas pelo Disque-Denúncia à Delegacia de Repressão aos Crimes de Informática, que obviamente não tem fôlego para checar de imediato todas essas informações simultâneas. Além do Rio, outros 8 estados mantêm investigações neste sentido.
Apesar de nenhuma comprovação com a gincana, por via das dúvidas, o Ministério Público Federal de São Paulo acionou o Google, dono da plataforma YouTube, para uma varredura de vídeos, o que já resultou na supressão de 11 deles. No entanto, pelas contas do Instituto cearense Dimicuida, o número é muito maior, chegando a 19 mil vídeos estimulando suicídio, automutilação ou incitação a experiências perigosas. Porém, fica muito difícil comprovar se esses casos têm ou não uma conexão com a Baleia Azul.

Tema chega a novela

Sempre antenada com o factual, Glória Perez, a autora da atual novela do horário nobre da Rede Globo, pretende inserir esta temática na trama de Força do Querer como forma de alertar possíveis vítimas, pais e professores. Para nós educadores, o ideal é aproveitar a comoção para esclarecimento sem sensacionalismo e servir de portal para trazer para o debate questões sobre as quais já estamos alertando há muito tempo: a valorização da vida e a proximidade dos pais na rotina dos adolescentes.


Outras Baleia, outros bichos

Você professor que ainda está perdido, como eu, sem saber direito como tratar deste assunto, mas, ao mesmo tempo, se sente na obrigação em ajudar, existem algumas ações agindo em contraponto que podem nos auxiliar no entendimento sobre este quadro. Grupos do bem estão contra-atacando nas redes sociais para disseminar mensagens de amor, carinho e afeto. No Facebook, foi criada uma página chamada Baleia Rosa, onde são sugeridas atividades positivas. Rapidamente essa iniciativa na mídia social ultrapassou 253 mil curtidas.

Na mesma onda chega o Baleia Verde que oferece 35 tarefas para estimularem a autoconfiança e autoestima dos participantes. Além disso, sua página no Facebook traz uma mensagem de ajuda àqueles que se envolveram o jogo do mal. Com o mesmo propósito, mas saindo do ambiente marinho para o terrestre, outros internautas apostam no humor como canal para as mensagens positivas do Preguiça Azul.

Outra ação neste sentido vem de um dos mais famosos youtubers do Brasil, que certamente seus alunos conhecem. Felipe Neto faz um relato na primeira pessoa em que mostra como a depressão pode tornar a pessoa vulnerável para cair num golpe como este.




Embora não trate diretamente do tema, a série 13 Reasons Why pode ajudar a entendermos um pouco mais o universo conflitante do adolescente contemporâneo. Produzida pela cantora e atriz Selena Gomes, está disponível no Netflix.


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