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Mais um traidor na nossa história?


Calabar é sem dúvida um dos personagens mais polêmicos do Brasil colônia, tendo despertado nos estudiosos posicionamentos diferentes quanto ao seu papel no contexto dos conflitos envolvendo a presença holandesa no Nordeste no século XVII. Popularizado também pelo grande sucesso da peça escrita nos anos 1970 por Chico Buarque e Ruy Guerra, agora no contexto do regime militar daquele momento, Calabar ficaria conhecido principalmente pela atuação ambígua que lhe daria no final das contas o estigma de traidor. Mas, mais do que isso, trata-se de uma figura que suscita muitos questionamentos quanto a aspectos básicos da cultura e da história brasileira.
Nascido, ao que se sabe, em 1609 na vila de Porto Calvo, atual estado de Alagoas, à época pertencente a Pernambuco, Domingos Fernandes Calabar é em geral apresentado como um mulato, mas há textos que o apontam como filho de “negros da terra”, o que lhe colocaria na condição de um mameluco. Diferente da maioria dos mestiços no Brasil do século XVII que engrossam a massa de pobres e deserdados do rude sistema mercantilista que impera por aqui, Calabar era homem de posses, proprietário de engenhos de açúcar e dotado de boa formação educacional já que estudou em colégios de jesuítas. Sendo em princípio bem-sucedido em seus negócios, a maioria dos historiadores não trabalha com a ideia de que sua atuação ambígua no conflito, transitando entre tropas portuguesas e holandesas, tenha se dado em função de dívidas ou motivada por objetivos econômicos.
É interessante refletir sobre a imagem de traidor com que Calabar acaba entrando para a história. Um dos principais problemas para os historiadores compreenderem a sua real atuação nas chamadas “Guerras do Açúcar” é justamente o fato de que essa visão negativa ressalta principalmente das crônicas e escritos compostos durante os anos do conflito e são todos de autores que representam o lado português, que nos tempos de Calabar acabaria derrotado, perdendo a autonomia sobre as terras de parte do atual Nordeste do Brasil.
Em textos ou fragmentos provenientes de partidários de holandeses poucas referências são feitas à suposta traição, sendo predominantes ali apontamentos sobre a atuação de Calabar nas batalhas e o seu vasto conhecimento a respeito das realidades “da terra”. As crônicas escritas principalmente por portugueses foram as referências mais comumente adotadas pelos historiadores que mais tarde se encarregaram de estabelecer uma narrativa do conflito. E nesse particular, destaque para a abordagem de Adolpho de Varnhagen, um dos principais responsáveis pela imagem de traidor atribuída ao alagoano.
Foram muitas as tentativas de os cronistas do lado português do conflito justificarem a súbita adesão de Calabar às tropas batavas, depois de ter lutado ao lado dos colonizadores e até ser ferido em combate. Desde problemas com o fisco até perseguição em função de um suposto estupro, de tudo foi evocado para ajudar a compor o caráter de um personagem previamente entendido como um traidor. Mas dentre as várias possíveis causas uma salta aos olhos por representar um dilema comum a muitos brasileiros dos primeiros séculos da presença portuguesa.
Memorial em homenagem a Calabar em sua cidade natal

Um dos cronistas do conflito, um certo Francisco de Brito Freyre, tentou explicar a debandada de Calabar devido a uma suposta dificuldade de ascensão social e econômica em função do que ele chama de “vileza de nascimento”. Ou seja, é aventada a possibilidade de que, mesmo possuidor de bens e portador de traços que o diferenciavam da maior parte da população da capitania, o alagoano teria sempre, entre os portugueses, suas possibilidades limitadas pela sua condição de mestiço, daí acreditar que entre holandeses seria mais valorizado.
Essa hipótese ganha força se lembramos de outra curiosa figura daquele período, o indígena Manuel de Morais, que também deixou as tropas portuguesas em certo momento do conflito. Ordenado como jesuíta, também abjurou da fé católica ao passar para o lado dos calvinistas holandeses. Acabou sendo capturado e levado para Portugal para se acertar com a Santa Inquisição, mas curiosamente conseguiria escapar da fogueira, retornar ao Brasil e ainda ocupar um posto na Igreja, apesar de não mais na Companhia de Jesus. A conhecida “inconstância da alma indígena”, que aparece em tantas cartas de jesuítas reclamando das dificuldades de catequizar os naturais da terra, foi relacionada como uma possível explicação para as idas e vindas de Morais e podia também aplicar-se ao mestiço Calabar.
Mas se o índio convertido entraria para a história mais pelo delito da apostasia, Calabar seria avaliado pelo importante papel que desempenharia no conflito. Tanto os escritos de portugueses como o de batavos frequentemente fazem menção à importância do alagoano para os resultados da guerra. Além de destro combatente, Calabar tinha grande trânsito entre indígenas, sabia das condições em que os portugueses se encontravam na luta e principalmente era profundo conhecedor das florestas tropicais e outros espaços inóspitos da natureza do Nordeste brasileiro, elemento sempre embaraçoso para os dois lados.
Por esse motivo, a presença de Calabar na guerra era vista como um grande reforço para o êxito nas batalhas. Isso explica o lamento dos portugueses com a perda daquele aliado e a obstinação dos cronistas em estabelecer a sua condição de traidor. Explica também a intensa negociação que houve entre portugueses e holandeses quando o alagoano acabou capturado. E até a reação furiosa do oficial holandês Von Schkoppe (de quem se tornara compadre) ao saber do tratamento pouco digno dado pelos portugueses ao corpo de Calabar após sua execução como traidor. Depois de recuperar o cadáver que estava em poder da população, deu-lhe um enterro dentro dos moldes praticados pelos calvinistas, que aliás era o caso de Calabar que também havia se convertido à fé dos batavos.
Contemporaneamente Calabar tem sido algumas vezes analisado à luz do conceito de intermediação cultural, uma habilidade considerada muito importante nos muitos intercâmbios culturais do mundo globalizado. Mas talvez necessária já naquele século XVII brasileiro. Afinal, quando a historiografia tradicional aponta portugueses e holandeses como rivais na Guerra do Açúcar, deixa para segundo plano informações importantes como a de que as tropas do colonizador eram formadas também por indígenas, africanos, espanhóis e até sicilianos. Da mesma forma, o contingente flamengo reunia gente de todos os cantos da Europa, além de vários outros “da terra”. Árabes e judeus tentando a sorte na América também frequentaram as batalhas apostando em um dos lados para escapar às perseguições tradicionalmente sofridas.
Calabar certamente reunia os atributos para intermediar esferas bem diferentes como as que coexistiam em Pernambuco. Era gente do povo, conhecedor das realidades locais, e, ao alcançar altas patentes militares nos dois exércitos, passou também a compreender a guerra pelo ponto de vista dos interesses comerciais e nacionais ali envolvidos. Sendo um personagem da colonização ibérica na América, soube municiar os holandeses das minúcias e idiossincrasias predominantes na capitania.
Calabar pode até ter sido um traidor como afirmaram as crônicas portuguesas. Pode também ser entendido como um “brasileiro” que acreditava que sua terra estaria em melhores condições com o domínio da Holanda (como aliás sugere a peça de Chico e Guerra). Ou até uma espécie de antecipação de um “herói sem caráter”. Mas talvez o maior significado deixado por ele tenha sido o de um personagem incerto e oscilante, num contexto de quase nenhuma nitidez cultural, numa terra vista pelos principais agentes mais como um grande reservatório de riquezas e possibilidades mercantis do que como uma nação a desenhar-se. Nesse ponto de vista, Calabar é como um homem do ocidente globalizado, que pode dominar vários registros e transitar entre diferentes tribos, mas nem sempre pode escapar da falta de referência cultural.
*A foto de abertura da postagem é da primeira montagem da peça de Chico Buarque e Ruy Guerra.
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