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O paraíso perdido da Amazônia


Nos primeiros anos do século XX Euclides da Cunha recebe do governo federal a missão de explorar as imediações do rio Purus, em plena Floresta Amazônica, ponto que serviria de referência para o estabelecimento das futuras fronteiras do Brasil com o vizinho Peru a serem discutidas pelas autoridades dos dois países. Numa região já marcada por certos conflitos anteriores em busca da afirmação sobre marcos territoriais na grande selva, o jornalista vindo da capital do país se depararia com alguns quadros diferentes do que esperava.
Essa impressão inicial começou a ser desenvolvida na percepção do escritor, quando ele se depara com o cotidiano das duas grandes cidades da região amazônica, com as quais travara contato antes de se embrenhar pelos espaços inóspitos e rude da área de selva. Manaus e Belém vivem já a realidade da fase extrativista da borracha, que haveria de produzir pelos anos seguintes muitas riquezas e colocar a região no mapa do sistema produtivo mundial. A pujança encontrada e registrada por Euclides em seus escritos descreve também a força da migração de brasileiros do Nordeste atrás das oportunidades propiciadas por aquele ciclo econômico, que leva desenvolvimento ao lugar, na medida em que para lá se dirigiam desde trabalhadores rurais até mão de obra mais especializada, como advogados e médicos.
Ao se preparar para a missão, Euclides mergulharia nos chamados “clássicos do extremo norte”, um conjunto de obras que ao longo do tempo foram produzidas sobre a Amazônia, a partir principalmente de 1750, quando o Tratado de Madri estabelece novas condições para legitimar as possessões europeias na América. Isso leva as coroas a buscar estender suas instituições a áreas até então esquecidas em função de dificuldades e obstáculos naturais. Essas obras incluiriam desde tratados topográficos e inventários de recursos naturais até descrições das características dos habitantes dessas regiões, passando também por relatos de aventureiros e expedicionários que por ali passaram.
Esse relativo condicionamento o ajudaria com relação à realidade da natureza da região, mas não foi tão efetiva no que se refere àquilo que acabaria sendo a grande descoberta e ao mesmo tempo a maior contribuição que a expedição de Euclides deixaria para a cultura nacional: o brasileiro da Amazônia. Ali ele conheceria um Brasil bastante diferente daquele que vislumbrara quando de sua experiência no semiárido, por ocasião da guerra de Canudos. Assim ele logo desperta para o perfil humano de quem vive na região e identifica como o tipo que, sendo um produto do meio (a visão orientada pela mesologia é um dos mais importantes meios de abordagem científica da época e é um conceito claramente esposado pelo escritor), é também o mais apto a servir como base de qualquer projeto nacional que passasse por intervenção da nação naquela sua porção tão marcada pela força do elemento natural.
É preciso ter em mente que, além da definição de marcos naturais para definição de fronteiras, a expedição também agasalha um outro propósito: conhecer a Amazônia para instalar nela os pressupostos do que se entende por civilização, ou seja, sanear, urbanizar e educar. A ideia de poder dominar a hostilidade do meio natural e construir ali uma sociedade de “valores elevados” é o desafio abraçado pelas elites no Brasil do início do século XX. O símbolo de uma nação que, ao satisfazer esse objetivo, pode pleitear um lugar entre os grandes povos do planeta. É nesse prisma que Euclides busca conhecer e conceber o ribeirinho, o homem que, segundo escreveu, demonstra uma coesão, uma identidade de caráter forjado nos séculos de convivência com a realidade do espaço tropical.
Euclides observaria que o brasileiro da Amazônia vivia como que expatriado em seu próprio país, isolado na imensidão da floresta, que por sua vez era uma estância desconhecida, que era preciso apresentar à nação e colocar na rota dos grandes projetos nacionais. Mesmo abandonado, o homem amazônico estaria demonstrando a sua força, pois de alguma forma estava ocupando aquela inóspita porção do país e ali ajudando a estabelecer os nossos limites territoriais. No entender de Euclides isso era um sinal de vitória incontestável, que justificaria a esperança que a nação devia depositar naquele tipo humano, que, a sua maneira, representava a supremacia da cultura sobre a natureza.
Ao ribeirinho caberá, assim, preencher a floresta de realizações humanas e concretizar ali, sob o auspício de toda a nação, uma verdadeira civilização, que marque aos olhos do mundo o triunfo de uma sociedade avançada sobre o mundo natural. É a maneira com que o Brasil deveria se firmar no concerto dos povos e culturas universais. É desse modo que, a exemplo do homem do Nordeste – que a obra de Euclides reabilita diante das visões equivocadas mantidas pela parte mais urbanizada do país –, o brasileiro da Amazônia surge como uma nova expressão da nacionalidade, um tipo que passa a figurar na diversidade racial e cultural que, na própria visão esposada pelo autor, é o traço maior de uma composição biológica fadada a dar origem a uma nova raça, destinada a representar uma nova fase da história.
Ao retornar ao Rio de Janeiro depois da missão realizada no norte do país, Euclides pretendia reunir seus escritos e conceber uma nova obra “vingadora”, como ele mesmo definiria. Tal como ocorrera com Os Sertões, pretendia oferecer um trabalho que fosse o retrato do homem brasileiro daquela região, que permitisse servir de base para a reabilitação e integração daquele tipo na vida nacional. Euclides, porém, faleceria antes de concluir a obra, que se chamaria “Um paraíso perdido”. Um título que, evocando o próprio sentimento que a realidade tropical despertaria na Europa na era dos descobrimentos, servia para sugerir o mesmo sentido de lugar desconhecido e misterioso, que afinal era o sentimento de grande parte do país diante de sua grande floresta. Mas também de lugar destinado a “vir a ser”, isto é, ponto de partida de uma nova era, um recomeço para um mundo renovado.

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