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Para além do “terra à vista”


A “certidão de nascimento do Brasil”. É como um certo senso comum habituou-se a classificar a carta escrita pelo escrivão da expedição comandada por Pedro Álvares Cabral, que contém os primeiros e mais significativos relatos sobre a terra e seus moradores. A fama e a importância historiográfica que acabou sendo atribuída a esse documento acabariam por ocultar o fato de que uma série de outros registros igualmente importantes e informativos foi produzida nos anos próximos a 1500, data em que se deu o “achamento” das terras. Alguns desses textos revelam pontos relevantes, que têm ajudado a compor o quadro tanto quanto possível real do singular encontro entre contextos tão diferentes.

Há inclusive registro de um documento anterior à própria partida das naus cabralinas, um relatório redigido por Vasco da Gama, que deixa clara uma anterior experiência do pioneiro navegante pelas águas que seriam singradas pelas frotas de Cabral. Um detalhe importante vem à tona nesse escrito. Em meio a instruções básicas como a presença de ilhas no caminho e possíveis locais de parada para abastecimento, uma recomendação para que o comandante dê uma “guinada sobre a banda do sudoeste”, uma instrução que alguns estudiosos classificaram como decisiva para que Cabral acabasse chegando à costa brasileira. Sem dúvida, um ponto que muito colabora para fortalecer a tese cada vez mais sólida de que nenhum tipo de casualidade esteve envolvido na chegada das naus ao território do Brasil.

A chamada “Relação do piloto anônimo” é outro documento anterior à carta de Caminha. Escrita provavelmente pelo comandante de uma das naus que compunham a frota, traz informações sobre a viagem nos dias que antecederam a suposta descoberta, além de também relatar as impressões e os primeiros contatos com a terra e os nativos, em alguns momentos mostrando uma capacidade mais acurada do que se vê no texto de Caminha quanto a interpretar as impressões diante do quadro das terras recém-encontradas. Mas praticamente não há nesse relato nada que seja muito revelador em relação ao conteúdo descrito pelo escrivão principal.

As terras brasileiras teriam nos seus primeiros momentos de contato com os inesperados visitantes o seu primeiro tratado científico. Um texto escrito por um certo Mestre João, médico e cirurgião do rei Dom Manuel, que a este se dirige tentando relatar aspectos astronômicos presentes nos céus das terras achadas. Composto durante o tempo em que as frotas estiveram paradas no ponto dos primeiros contatos, isto é, a chamada Baía Cabralina, o documento já traz a identificação no firmamento brasileiro do Cruzeiro do Sul, formação constelar que muito ficaria presente no imaginário do país, inclusive vindo posteriormente a figurar na Bandeira Nacional. O documento deixado por Mestre João também oferece uma dimensão do grande conhecimento detido pelos portugueses acerca das técnicas, instrumentos e saberes em torno da arte de navegar.

Ainda que a carta de Caminha tenha ficado famosa pela narrativa que aborda os primitivos habitantes das terras, a constituição da natureza local e os primeiros contatos entre culturas, um elemento de grande importância relatado no documento diz respeito ao papel dos degredados naqueles contatos iniciais. Alguns trechos da carta deixam claro que foram utilizados como espécies de “cobaia” nos primeiros encontros corpo a corpo com os nativos. A experiência de viabilizar a presença dos portugueses nas novas terras e atuar para que ali os pressupostos da fé cristã sejam instalados tem para eles um efeito reabilitador. É a oportunidade de indivíduos tidos como malfeitores e em débito com a lei de Deus se emendarem perante o rei e a igreja, renascendo em dignidade na medida em que, de um jeito ou de outro, arriscam suas vidas em prol de uma causa tida como nobre, ainda que encarem a situação mais sob constrangimento do que por qualquer outro motivo.

Pero Vaz de Caminha lendo sua carta”, de Aurélio de Figueiredo.

Outros interessantes escritos sobre o Brasil ocorreram nos anos imediatos à chegada às novas terras e procuram explicar aos destinatários o que de fato foi aqui encontrado e principalmente o que se poderia esperar em termos de exploração lucrativa no novo empreendimento. É o caso de uma carta composta em 1501 pelo cartógrafo Américo Vespúcio, que antes de escrever sobre os índios brasileiros, se dirige a um conterrâneo italiano que esteve entre os investidores que procuravam extrair riquezas da empreitada. Ali estão presentes informações sobre a esplendorosa natureza do país, surgindo também um primeiro nome com que passou a ser conhecido na Europa: Terra dos Papagaios.

Em outra do mesmo ano, o rei Dom Manuel escreve para a coroa espanhola estendendo-se a outras monarquias do continente dando conta dos sucessos da expedição de Cabral. Ali se destaca a habilidade do monarca português que não dá mais que pequenas informações sobre o achamento, concentrando a maior parte do conteúdo nos relatos da viagem e no exotismo do que foi ali encontrado. Como a carta foi enviada em agosto, ou seja, cinco meses depois da chegada das naus ao litoral brasileiro, pode-se deduzir que Dom Manuel escreveu uma carta de “satisfação” a outros governantes, na qual omitia vários pontos de que já tinha conhecimento, como as possibilidades exploratórias dos recursos naturais e até o fato de que as terras constituíam um grande continente.

Merecem destaque também as chamadas crônicas, escritas por diversos autores até por volta de 1570. Quase todas tinham a finalidade de discorrer sobre a atuação da navegação portuguesa nas “Índias” como parte dos feitos atribuídos aos reis católicos de Portugal, ou seja, a preocupação em contar a história do achamento das terras brasileiras era algo secundário, mostrando que não havia, pelo menos ao longo dos primeiros cinquenta anos, uma real dimensão do que as terras poderiam representar em termos de exploração comercial. Todas essas crônicas foram escritas a partir de relatos ou textos de terceiros, o que certamente permitia acrescentar muito de imaginação e tentativas de adequação ao contexto a que a missiva foi direcionada.

Um dos motivos que fazem a carta de Caminha ser reconhecido como o registro mais confiável do encontro das terras é a identidade que há entre certas situações vislumbradas pelo escrivão oficial, já naqueles primeiros momentos, e aquilo que de fato se concretizaria ao longo da empresa colonizadora. Ali já se acha uma noção de que os nativos da terra teriam que ser enquadrados na teia da suposta superioridade cultural do europeu com o aporte necessário do missionarismo religioso. Uma possível prova de que a expedição ultramarina já trazia uma noção bastante desenvolvida do que teria pela frente e das possibilidades lucrativas presentes nas terras. Nesse sentido, teria sido mais uma migração que um descobrimento.

Leia também: “A ilha Brasil e o passado árabe na formação da alma portuguesa”, em http://migre.me/wzhVr


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