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3 palavras e um segredo


A menina Anne Carol, de 3 anos de idade, acordou bem-humorada no apartamento para o qual a família tinha se mudado havia pouco mais de uma semana. Em trajes de praia, ela veio caminhando pela cozinha em direção à área de serviços e disse: “Mãe, vou estender a minha toalha aqui (referindo-se ao chão da área de serviços, onde batia muito sol) e vou me ‘MORENIZAR’”. A mãe sorriu e compreendeu o sentido da palavra, entendendo que a filha tinha a intenção de dizer que pretendia se BRONZEAR. Então explicou para ela que a palavra usada quando queremos dizer que vamos ficar mais “cor de bronze”, depois de um tempo de exposição ao sol, é, na verdade, “bronzear”.



Em outro episódio, uma criança pequena se deparou com a imagem de uma lagartixa e chamou-a de “Jacaré piquininho”. É óbvio que a lagartixa e o jacaré têm semelhanças, como o fato de serem répteis, mas há também muitas diferenças entre eles. O jacaré, por exemplo, tem em torno de oitenta dentes afiados para despedaçar suas presas, que no geral são grandes, além de uma cobertura de corpo dura e cascuda. A lagartixa é inofensiva, não oferece nenhum perigo ao ser humano. O alimento e as quantidades que cada um deles ingere também os diferem completamente.

Por meio desses exemplos, é possível compreender que, ao chamar a lagartixa de “jacaré piquininho”, a criança estava relacionando o conceito de jacaré ao de lagartixa, que inicialmente parecia ter o mesmo SENTIDO para ela. É muito comum algo assim acontecer na comunicação das crianças, em casa ou na escola. As crianças em crescimento e desenvolvimento vão fazendo correlações e estabelecendo sentidos com o que veem, cheiram, tocam e sentem.

Mas é preciso avançar do SENTIDO (do que se sabe a partir do seu próprio repertório, com interpretação individual) para o SIGNIFICADO (o que está cientificamente embasado). O sentido tem origem nas percepções primeiras, na passagem por nossos filtros internos, por meio daquilo que já conhecemos sem muita cientificidade, muitas vezes decorrente até de algum achismo. O sentido é interno, inicialmente desprovido de comprovação, vem da interpretação de cada um e, por isso mesmo, é subjetivo. Cada um tem o próprio sentido sobre algo. Já o SIGNIFICADO é bem fundamentado, cientificamente aprovado, aceito por uma sociedade inteira como padrão, é objetivo e externo a nós.

Referir-se a uma lagartixa como “jacaré piquininho” é próprio do sentido (da percepção particular) de quem está em processo adaptativo, de quem ainda precisa aprender as diferenças, compreender o significado de cada um dos termos para chegar ao SIGNIFICADO.


Pais e professores são em potencial os grandes mediadores da vida de uma criança. É no diálogo com o filho ou com o aluno que os MEDIADORES percebem o SENTIDO que esses têm sobre o que estão aprendendo. Compreender o sentido dado pelo aluno a determinado conteúdo proporcionará ao professor trabalhar ajudando esse aluno a caminhar em busca da apropriação do SIGNIFICADO, abandonando aos poucos o saber sem fundamentação, sem cientificidade. Portanto, é de fundamental importância o trabalho realizado, principalmente pelo professor que orienta a aprendizagem, que retoma conceitos, se necessário for, e se coloca como um mediador, aquele que ouve, compreende os sentidos dados, retoma a rota, indica caminhos para a apropriação de conhecimentos fundados no SIGNIFICADO.

Nesse processo de aprendizagem, o SENTIDO tem papel importante e deve ser muito valorizado como ponte para o conhecimento calcado no SIGNIFICADO. Em tese, o que o sujeito tem na memória, na estrutura cognitiva, é o SENTIDO, e é partindo desse conhecimento prévio que avançamos para um conhecimento científico. Por isso, atente para as ideias que o aluno forma a partir dos conteúdos propostos para a aprendizagem, a partir da interpretação pessoal. Nesses momentos será possível perceber algum equívoco ou mesmo alguma generalização errônea para posteriormente retomá-la.

Para exemplificar, vou contar-lhes uma história que vivi quando trabalhei com Educação de Adultos. Um de meus alunos, o senhor José, de 70 anos, cursava a 2ª série do Ensino Fundamental. Durante a aula de geografia, a partir de uma explicação dada, ele comentou surpreso que achava que vivíamos no centro da Terra. Quando expliquei que vivíamos na superfície, e que o centro da terra era muito, muito quente, sem possibilidade de sobrevivência humana devido às altas temperaturas, ele ficou perplexo e ainda perguntou: “E como é que a gente não cai dessa superfície?”. Portanto, assim como no nosso exemplo, os SENTIDOS estão aí, aparecem por meio das oportunidades que as pessoas tiverem de se colocar, de ser ouvidas, de externar as dúvidas. E, para que os sentidos não se perpetuem, entra em cena a interferência do professor, dos pais, via MEDIAÇÃO, que é uma ação intencional para a construção de SIGNIFICADOS, que são conceitos cientificamente embasados, universalmente aceitos e que trazem crescimento e desenvolvimento pessoal.

No caso do senhor José, depois que aprendeu que não vivíamos no centro da Terra e sim na superfície, até comprou um mapa-múndi em forma de globo terrestre e aprendeu tanto que, da última vez que nos encontramos, ele me explicou o que era um tsunami e a dinâmica das placas tectônicas nesse processo, por que não caímos da superfície terrestre, e tantos outros conteúdos interessantes, uma verdadeira apropriação de SIGNIFICADOS. Que privilégio poder ver o crescimento e desenvolvimento humano ao vivo e a cores!

E, para concluir o assunto de hoje, voltemos ao título deste texto: 3 PALAVRAS E UM SEGREDO. As 3 palavras são: MEDIAÇÃO, SENTIDO E SIGNIFICADO, agora o segredo chama-se APRENDIZAGEM SIGNIFICATIVA.

Para quem desejar aprofundar os conhecimentos sobre este tema, sugiro as leituras baseadas em Vygotsky e Bakhtin, consagrados geradores de SIGNIFICADOS para a educação e o desenvolvimento humano.

Até a próxima semana!


Comentários

  1. Muito apropriado.
    Passei piu uma experiência semelhante numa das escolas que leciinei.
    Solicitei, numa prova, que o aluno desse uma aplicacao para o isolante termico.
    Ele prontamente resoondeu:" É que quando uma pessoa morre atropelado os bombeiros colocam um papel aluminio sobre ele pra proteger do frio."
    Chamei o aluno e pedi que me explicasse o racicinio dele. Aí observei que ele tinha entendido a matéria. Ele não queria dizer que a pessoa estava morta e sim que a pessoa tinha sido atropela e os socorristas colocaram uma manta térmica aluminizada oara manter a temperatura do corpo do acidentado oara evitar hipotermia.

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    1. Obrigada por participar. Que experiência rica a que você viveu. Parabéns pela observação pertinente. Abs

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  2. Interessantíssima postagem Andréa!

    Isso me lembra uma ferramenta (ressignificação) que usamos com clientes de Coaching, como se os SENTIDOS fossem as experiência e impressões negativas sobre algo, a MEDIAÇÃO como uma conversa durante uma sessão e o SIGNIFICADO fosse a nova maneira de enxergar e dar novo significado aos sentidos, de modo a superar traumas do passado e seguir em frente.

    Abraço.

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    Respostas
    1. Exatamente essa aplicação. Você é show, amigo e, vai longe!

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