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A atualidade de Lima Barreto


Homenageado na atual edição da Feira Literária Internacional de Paraty (Flip), uma das mais importantes do país, Lima Barreto se destaca pela impressionante visão crítica do Brasil de seu tempo, em abordagens que ainda ajudam a entender o país de hoje. Como afirma boa parte dos estudiosos de sua obra, o escritor foi antes de tudo um crítico do sentido civilizacional do país, se revoltando frequentemente contra os rumos que as elites nacionais buscaram determinar em certos momentos da história brasileira. Sua crítica transitava do desagrado quanto ao projeto republicano de um Brasil disposto a imitar as grandes nações europeias até a própria condenação do capitalismo, sendo, portanto, um severo crítico da crescente influência do pensamento estadunidense sobre a vida nacional.


No bojo dessas preocupações culturais se enquadrava a controvertida questão racial no país. Por isso, no âmbito das críticas que produziu contra as elites nacionais ao longo de sua obra, tanto a jornalística quanto a literária, Lima Barreto figurou como um grande questionador do modo como a presença afrodescendente foi encarada no pensamento cultural das elites, situação que muito provavelmente estaria relacionada a sua própria condição racial, à qual frequentemente atribuía algumas das frustrações que experimentou ao longo de sua vida pessoal e profissional.


Nas suas às vezes inflexíveis visões sobre as elites nacionais, alguns alvos específicos constituíram matéria de interesse e militância. Um deles é a faina reformista que marcaria o país (com destaque para a capital Rio de Janeiro, espécie de tubo de ensaio dos rumos nacionais), que num espaço de poucas décadas levaria à promoção de duas grandes transformações do espaço urbano.


Uma, as reformas urbanísticas no limiar entre os séculos XIX e XX, e a outra, que ganha força a partir da década de 1920, pregando a desfavelização da cidade e a consequente retirada na população menos abastada para espaços distantes das áreas nobres, os chamados bairros proletários. Barreto já havia sido um crítico mordaz da reformulação do centro da cidade, porque via naquele processo a causa do nascimento das favelas, espaços de exclusão, que atingia os mais pobres e principalmente os afrodescendentes.


Agora voltava sua militância na literatura e na formação de opinião através de sua colaboração na imprensa para os projetos que buscavam urbanizar a Zona Sul da cidade, que incluíam a extinção das favelas, e outro grande motivo de indignação por parte do escritor: a demolição desenfreada de prédios e monumentos públicos, que acreditava responsável por soterrar parte importante da memória e cultura nacionais. Num conto lançado pouco anos antes de seu falecimento chegaria a escrever: “Mesmo os nomes índios, como já foi observado, se apagam, vão se apagando, para dar lugar a nomes banais, de figurões ainda mais banais, de forma que essa pequena antiguidade de quatro séculos desaparecerá em breve”.


As teses da extinção das favelas esposadas por parte das elites próximas ao governo republicano levariam Barreto a incluir em sua produção literária temas até então ausentes de seus textos, como a vida levada pelos trabalhadores nas comunidades pobres. Como a campanha pela construção de casas populares em detrimento das favelas recebeu apoio dos principais jornais da capital, muitos artigos e reportagens seriam produzidos com o intuito de afirmar a suposta inferioridade das pessoas que habitavam áreas pobres, que seriam portadoras de falhas de caráter e de formação, como as que levavam ao crime e a práticas insalubres.


O escritor iria então dedicar parte importante da sua produção do período, tanto na ficção quanto nas crônicas do cotidiano, a destruir os mitos criados pela imprensa mais identificada com projetos das elites. Aliás, os atritos com certos setores da mídia da época eram na verdade reedições de antigas rusgas que o escritor já mantinha com os donos e editores dos grandes jornais do Rio de Janeiro.


Um caso emblemático dessa situação são as críticas pesadas ao Correio da Manhã, um dos que, com mais intensidade, encampam a formação de uma opinião pública tendente a apoiar a construção de casas populares em detrimento das favelas. Além dos artigos nesse sentido publicados obviamente em outros jornais, romances como “Memórias do Escrivão Isaías Caminha” (1909) e “Triste fim de Policarpo Quaresma” (1915) refletem as ideias do escritor a respeito do sentido do jornalismo no país, opinião, aliás, que seria responsável por certo boicote tanto de grandes empresas jornalísticas, que se recusavam a abordar e resenhar seus livros, quanto de certas figuras prestigiadas da intelectualidade nacional.


Ficaram famosas as polêmicas e mesmo trocas de insulto, não só por textos, mas em tribunas públicas, com figuras como João do Rio, por exemplo, que acusava – não sem certa razão – de esconder suas raízes afrodescendentes. A partir de certo momento essas posições o levam a um certo isolamento, no qual o escritor pouco a pouco vai perdendo espaço dentro da grande mídia da época.


Lima Barreto foi sempre um morador de bairros populares, do subúrbio da capital, o que lhe permitia um olhar diferenciado na comparação com a maior parte dos intelectuais da cidade, que em sua maioria traziam uma origem de maior proximidade com as classes mais abastadas. Talvez por isso a preocupação com os destinos das classes menos privilegiadas esteve sempre presente na obra do escritor, em parte determinando seu espírito rebelde e crítico, por um lado, e combativo e às vezes intransigente, de outro.


O escritor pagaria um preço alto por seu firme questionamento sobre os rumos nacionais tomados pelas elites dirigentes. Acabaria falecendo em 1922, num sanatório onde fora internado para tratar do alcoolismo e quase totalmente sem recursos. Ainda deixaria nesse mesmo ano o seu último romance, Clara dos Anjos, obra que já contém alguns traços do emergente modernismo brasileiro, e onde a questão afrodescendente no Brasil é abordada de forma incisiva.


Mesmo com a triste situação que marca seus últimos dias, Lima Barreto entraria para a história das letras nacionais como um escritor crítico e combativo da mentalidade capitalista e desenvolvimentista que marcava as classes dirigentes brasileiras, expressando sua posição sempre contrária às demolições de espaços públicos, que julgava fundamentais para a preservação da memória e da história de nossos ancestrais, e principalmente buscando trazer para o foco as classes menos favorecidas, sempre vistas pela mentalidade das elites como elemento de que o Brasil precisava se desvencilhar se quisesse se ombrear às nações nas quais se reconheciam altos padrões de “civilização”.


Leia também: “A imprensa e a marginalização de pobres e afrodescendentes”, em https://goo.gl/gLyZAX


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