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A fotografia e o poder da imagem no mundo moderno



Da pintura como única forma de reproduzir o que os olhos presenciavam até as modernas maneiras de registrar a realidade, a fotografia descreveu uma trajetória cercada de muitas discussões a respeito do lugar que essa atividade deveria desempenhar no cotidiano das pessoas e no engrandecimento da cultura. O inventor francês Louis Daguerre foi o primeiro a criar algo que sugerisse a substituição dos artistas como forma de reproduzir visualmente a realidade. Em 1839 é anunciado o daguerreótipo, o primeiro ancestral das máquinas fotográficas. Na verdade muitos pesquisadores autônomos já haviam trabalhado e obtido alguns êxitos em desenvolver maneiras de reproduzir a imagem.

O mérito de Daguerre foi desenvolver uma máquina que dava início ao que iria se transformar numa das características que mais colaborariam para a popularização do ato de retratar: a possibilidade de cada pessoa poder utilizar sua própria câmera e produzir suas imagens, em substituição à habilidade individual de artistas capazes de fazer isso através de seu talento. Apesar de bastante precário – a imagem era fixada numa placa espelhada, que precisava ser armazenada com extremo cuidado dada a sua fragilidade –, o método de Daguerre permitiu que a fotografia passasse a ser praticada por um número muito maior de pessoas, mesmo restritas a um círculo de indivíduos que poderia dispor do aparelho, membros das classes mais abastadas que seriam os primeiros a cultivar esse hábito.

Assim, a fotografia baseada em aparelhos nasce voltada para atividades de lazer e para o registro das imagens do cotidiano presenciadas pelo olhar humano. A partir daí outros pesquisadores colaborariam para aperfeiçoar as máquinas, tornando-as não só mais eficazes ao reproduzir as imagens, como também acessíveis a um número cada vez maior de pessoas. Destaque para Frederick Scott Archer, que obteve sucesso em técnicas que permitiram baratear a produção de fotografias, e para James Clerk-Maxwell, que em 1861 conseguiu os primeiros resultados com fotografias em cores. Poucos anos depois, Mathew Brady, junto com outros entusiastas, produziria fotos da guerra civil americana. Nascia a fotografia ligada à imprensa, e a imagem como método de informação.

Essa possibilidade técnica coincidiria com um momento de intensa atuação da imprensa como elemento participante da vida no mundo ocidental. Durante a chamada Belle Époque, os meios de comunicação escritos ocupariam um lugar de muita importância na formação e na informação dos cidadãos. Junto com essa nova forma de conduzir a vida em sociedade estimulada pelo consumo de periódicos, a fotografia apareceria não apenas como uma forma de aumentar o prestígio e a força da imprensa como também viria a abrir caminho para uma nova relação das pessoas com a vida em sociedade. A presença cada vez maior da imagem no cotidiano seria responsável também por mudanças na forma de receber a informação, com a força do texto escrito sendo contrabalançado pelo poder das imagens, muito mais objetivo, e que por isso personificava um dos mais importantes ideais do ocidente no século XIX: o critério de realidade.

Esse poder da imagem que a fotografia encerra se inscreve, nessa transição entre os séculos XIX e XX, em outra importante discussão, o da força da chamada “reprodutibilidade técnica”, tal qual abordado por filósofos como o alemão Walter Benjamin. Em resumo, a possibilidade industrial de multiplicar a imagem e torná-la acessível a um número muito grande de pessoas teria o efeito de afastar o potencial crítico na produção desse tipo de registro. Se a fotografia substitui a forma anterior de produzir imagens, realizada por artistas, ela preservaria, em sua origem, o seu valor como obra de arte.

Assim, a viabilização das máquinas de fotografar, permitindo que pessoas dos mais variados perfis se transformassem em produtores de imagem, é acusada de desviar a arte de criar imagens de seu potencial crítico e reflexivo, como objeto artístico, e de convertê-la num mero objeto de consumo, passível de ser manipulado e tratado segundo leis mercadológicas, na própria estrutura do sistema produtivo. É dessa reivindicação que surge o chamado movimento dos pictóricos, que no século XIX atua no sentido de reforçar o ato de produzir a imagem como algo da alçada da criação artística.

Entre os procedimentos desse grupo no sentido de demonstrar como poderia ser a exploração artística da fotografia estava o de criar técnicas como alternativas aos principais argumentos empregados por quem subestimava o valor artístico de produzir imagens através de câmeras. Um deles era o de que a foto propiciava uma espécie de “exatidão” que limitava sua utilização criativa. Diante disso, os pictóricos propunham o uso da perspectiva aérea, que era capaz de suavizar detalhes, diminuindo a suposta rigidez da imagem. Os fotógrafos artistas também reagiram à ideia de que a imagem fotográfica falsearia os valores da natureza ao restringir as cores ao preto e branco. Nesse caso, a resposta foi o desenvolvimento de técnicas capazes de restabelecer os valores sobre a gradação claro/escuro. Uma discussão que talvez tomasse um outro caminho se naquela época já houvesse sido desenvolvida, de maneira bastante prática, a tecnologia capaz de gerar imagens em cores, o que só aconteceria em 1935 a partir do lançamento, pela Kodak, de um novo tipo de filme, os Kodachromes.

Mesmo não passando de um movimento artístico no bojo das vanguardas estéticas do final do século XIX, o ideal pictórico sobreviveria até hoje na consagração da fotografia como obra de arte ou como registro sensível e crítico de um momento, tempo ou lugar. Mas essas duas visões oriundas da popularização da fotografia se manteriam vivas até hoje e alcançariam a extrema generalização da capacidade de produzir imagens representada pelas tecnologias atualmente presentes nas câmeras embutidas em telefones celulares. A tecnologia digital, amplamente revolucionária se comparada aos métodos de produzir e manipular imagens que atravessaram a maior parte dos 177 anos de vida da fotografia, não inibiria os usos possíveis da fotografia, seja como registro despretensioso do cotidiano ou como arte capaz de capturar a poética da própria vida.

No Brasil, um capítulo importante da história da fotografia está relacionado ao imperador Dom Pedro II, um entusiasta da tecnologia que se apaixonou pela arte de produzir imagens assim que teve conhecimento da existência do daguerreótipo. A coleção resultante das fotos tiradas em registro de suas viagens internas e ao exterior constitui o maior acervo de imagens mantidas por um particular no século XIX. A família real brasileira foi provavelmente a única do mundo cujas imagens do cotidiano foram produzidas mais através de câmeras fotográficas do que de pinturas, apesar de essas também terem sido bastante empregadas.


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