Páginas

terça-feira, 31 de janeiro de 2017

O que há para além das linhas em 2017?





















Aconteceu comigo, Andréa Schoch.

“Há anos, quando era gerente sênior em uma empresa, eu estava numa mesa de reunião com outros colegas gerentes (pessoas e profissionais maravilhosos), quando (não me lembro bem do motivo que desencadeou a questão) surgiu o assunto sobre descendência, e cada um começou a falar sobre a sua. Um dos colegas contou que era descendente de poloneses, outro, de italianos, outro, de portugueses, e por aí foi, até que chegou a minha vez de falar...

Eu disse que era descendente da tribo Pataxó Hãhãhãe. Todos acharam que era piada, embora eu estivesse falando sério, e riram muito.

Sem a intenção de julgar ninguém, esse fato me levou a pensar sobre o quanto sabemos a respeito dos povos indígenas...”
E você, o que sabe sobre esses povos?


Povoamento da América

Depois de muitos estudos, ficou conhecida, em linhas gerais, a origem dos índios que povoaram a América, os chamados ameríndios, bem como a partir de quando isso aconteceu. Por volta de 14 a 12 mil anos atrás, esses povos teriam chegado por via terrestre, por meio de um subcontinente chamado Beríngia, no extremo nordeste da Ásia.


E no Brasil?

Antes da “invasão/ocupação/descoberta” dos portugueses, nos anos 1500, uma população gigantesca de povos indígenas vivia no Brasil. Estimativas apontam um número de 5 milhões de pessoas, com aproximadamente mil povos diferentes, dentro do território que hoje leva o nome de Brasil.
Analisamos, por meio da história, que, com a invasão, ocupação e as descobertas ocorridas no século XV, quando os navegadores portugueses e outros entraram em contato com outros povos, constataram diferenças físicas e culturais que os fizeram até mesmo duvidar se esses nativos eram pessoas ou “feras”, animais irracionais. Os invasores não só escravizaram os índios como os consideraram seres inferiores, e de lá para cá muitos foram dizimados.

Em 500 anos, o número de índios baixou muito. Atualmente, conforme dados do IBGE, há no Brasil aproximadamente 896 mil indígenas, com mais de 300 tipos de povos, que falam de 150 a 270 línguas diferentes. Essa diversidade já existia quando ocorreu a invasão. Eles se relacionavam, havia guerras, alianças, eles circulavam pelo território, deixando marcas que perduram até hoje, conforme relata a antropóloga Tatiane Klein, especialista no tema, e cita como exemplo a palavra “Araraquara”, que denomina uma cidade de São Paulo, mas é também um termo da língua Tupi, marcando o nome de um rio da Amazônia. Portanto, temos aí uma representação clara de que os povos ocupavam o território brasileiro, mas infelizmente esse direito de ocupação lhes foi tirado de forma hostil e injusta, pois os indígenas são cidadãos brasileiros, estavam aqui antes de nós, que nos denominamos brasileiros.

Tatiane Klein conta que, no ano 2000, o Instituto Socioambiental encomendou uma pesquisa ao IBOPE para averiguar o que pensa o brasileiro (não indígena) sobre os índios. Os resultados apontaram que “essa ideia do bom selvagem ainda viceja, principalmente nos centros urbanos”. Porém, apesar de parecer positiva, a realidade apresentada nas regiões em que vivem povos indígenas é negativa por conta dos conflitos fundiários e da demarcação de terras.
Conforme salienta Tatiane Klein, a avaliação política demonstra que, há muito tempo, e ainda atualmente, esses povos estão sendo massacrados, injustiçados, discriminados e mortos. Mas quem faz isso, diretamente? Pessoas interessadas em posses e terras, em geral. Temos visto nos noticiários uma série de episódios de ataques aos povos indígenas e ao seu território, para extração de madeira, por exemplo, ou atividades como garimpo, entre outras, tirando deles o direito à terra, previsto na Constituição Brasileira.

Além do direito à terra, os povos indígenas têm direito à alfabetização, a aprender a sua língua nativa, porém somente em 1988 é que isso lhes foi garantido na Constituição, o que nos faz pensar no débito do Brasil para com esses povos.

Mas, além dos que atacam e violentam os direitos dos índios, há aqueles que desconhecem que, assim como as pessoas com maior incidência de melanina na pele, olhos e cabelos (chamados de negros), os indígenas também sofrem por serem considerados inferiores, de raça inferior, a raça dos vermelhos (assim são chamados).

A história é longa e repleta de detalhes nos quais você pode e deve se aprofundar. Nossa missão aqui é lançar a curiosidade sobre um tema tão importante e deixar uma recomendação de como pais e professores podem fazer para combater o preconceito contra o índio.
Revise os seus conceitos sobre o povo indígena. Você os considera inferiores? Se sim, é preciso buscar mais conhecimento sobre o tema. Lembre-se de que a criança por si só não é preconceituosa e discriminadora, isso ocorre com frequência porque ela convive com adultos, ouve e vê, cresce construindo ou não o preconceito seguido da discriminação.

Por vezes, afirmamos não ter preconceito, mas, se víssemos duas crianças juntas, uma branca de olhos claros e a outra indígena, diríamos logo, sem nos darmos conta, que a bela e boa é a branquinha. A criança que está sob nossa responsabilidade cresce observando até mesmo o que sai de nós, não necessariamente verbal, como olhares, gestos e expressões (linguagem não verbal), então imita, toma como verdadeiro. Como diz o ditado, a palavra ensina, mas o exemplo arrasta.

Pense nisso...

Até a próxima.

Para mostrar às crianças curiosidades sobre a cultura indígena, acesse: https://mirim.org/.


segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

Um dia especial na construção de valores, afeto e uma imagem positiva do trabalho para as crianças

Sabe quando seu filho pergunta “Posso trabalhar com você hoje”? Às vezes as crianças nem sabem por que os pais passam tanto tempo fora de casa, e devido a isso é grande a importância de sua visita no ambiente de trabalho dos pais.

Na última sexta-feira foi possível realizar o desejo da garotada que pede ao papai e à mamãe para conhecer seu ambiente profissional. Através da ação promovida pelo RH da Appai as crianças conheceram o tão sonhado local de trabalho dos pais e passaram o dia se divertindo com diversas brincadeiras e oficinas.

Quando os filhos participam do cotidiano, mesmo que apenas por um único dia, os colaboradores se sentem mais motivados e despreocupados com relação à imagem que as famílias têm todos os dias quando eles saem para trabalhar. Assim, muda a sensação de abandono e ausência, que se transforma em orgulho e valorização do trabalho realizado.

Para Jéssica Cardoso, do RH, essa é uma ação que beneficia tanto os profissionais, a família, quanto a Associação, e esse momento vai ficar guardado na memória das crianças. “É uma ocasião muito importante, pois os filhos têm muita vontade de ir um dia trabalhar com os adultos. E pensando nisso colocamos em prática esse projeto pensando nas crianças e nos pais”, explica.

Jussara Pereira, do PPAS, se diz emocionada. “A minha filha está eufórica, está adorando conhecer o meu cantinho profissional. Ela sempre pede pra vir e quando posso a levo nas Corridas e nas festas de final de ano, mas aqui dentro mesmo, para passar o dia, é a primeira vez. E está sendo muito importante pra ela, dá pra ver na carinha dela. A Manuela está muito feliz!”, revela Jussara com um sorriso no rosto.

Para Ieda Herculano, psicóloga do Programa Saúde 10, a APPAI plantou uma sementinha a mais de alegria e satisfação tanto no coração das crianças quanto no dos pais. “Nos fez sentir valorizados ao receber com tanto carinho aqueles que são para nós peça fundamental na motivação do dia a dia, nossos filhos. Uma frase pra definir esse momento é pouco, mas diria que foi: ‘Um dia especial na construção de valores, afeto e uma imagem positiva do trabalho para as crianças e seus pais, numa relação de proximidade e satisfação’”, enaltece Ieda.

Em um determinado momento, a criançada conheceu todos os setores da Associação fazendo a alegria dos funcionários em poder mostrar um pouquinho do funcionamento do dia a dia na Appai. Logo depois, participaram da Oficina de cupcake preparando a decoração do bolinho que faz sucesso entre a criançada e os adultos. Cheios de energia, emendaram uma segunda atividade, a Oficina de porta-retrato, onde, a partir de um registro fotográfico feito previamente com seus pais, os pequenos puderam produzir o objeto cheio de pinturas, colagens e muito brilho.


Mais que um passeio ou um dia para saciar a curiosidade, o evento “Posso trabalhar com você hoje?” serviu para contribuir na construção do imaginário coletivo da garotada, que certamente jamais esquecerá, ao longo de suas vidas, esse dia pra lá de especial.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

A reinvenção da escravidão

A máquina de enriquecer com a venda de seres humanos.

























A existência da escravidão há muitos séculos no próprio continente africano foi um dos argumentos mais usados pelos europeus para justificar a verdadeira barbárie que foi a transferência forçada de seres humanos para alavancar riquezas em outras terras. Fortemente apoiado num discurso cristão, o cativeiro na América foi apresentado como uma espécie de oportunidade para reabilitação e salvação para quem vivia num continente amaldiçoado, como seria definida a África pelo olhar da Europa. Já que praticavam a escravidão subjugando seus próprios “irmãos de cor”, poderiam, trabalhando para as coroas e seu objetivo de disseminação da fé cristã, dignificar a sua existência ao ajudar a viabilizar a colonização do Novo Mundo.

Essa estratégia trouxe para o horizonte da cultura ocidental a ideia de raça, uma noção que naturalmente não existia para os africanos antes de seu continente ser visitado por navegadores. Os filhos da África foram simplesmente tomados pela uniformidade racial encontrada naquele momento e assim foi ignorada a extraordinária diversidade entre povos e nações ali registrada, como se tudo fosse uma só cultura de negros, noção aliás ainda hoje partilhada por muitos no Ocidente.

A partir daí foi possível abrir a caixa de Pandora das teorias e teses sobre diferenças étnicas, que iam desde atribuir a aparência “estranha” a limitações físicas até as famigeradas hipóteses de superioridade racial, tudo isso sendo relacionado às diferenças culturais em relação aos europeus, no que tange a religiões, costumes, alimentação etc. O fato é que, no bojo da causa real do empreendimento escravista – o interesse econômico – veio uma série de procedimentos de inferiorização do africano que, em vista disso, poderia ser submetido ao europeu. Mas é importante considerar o que de fato era o instituto da escravidão que já existia na África.

Uma análise histórica permite concluir que se trata de algo muito diferente daquilo que foi praticado na Europa. Pra começar, tem raízes imemoriais na cultura do continente e o seu significado social passa muito longe de uma utilização meramente para fins econômicos. Dependendo da cultura em que ocorresse, a incorporação de um indivíduo como escravo era praticamente o mesmo que introduzir um novo membro na família. O cativo podia realizar as mesmas tarefas e ter um dia a dia praticamente idêntico ao de seu senhor, inclusive se alimentando da mesma forma e participando do cotidiano da religião, com restrições apenas de status social, o que muitas vezes não fazia qualquer diferença.

Havia pessoas condenadas à escravidão apenas para realizar atividades singulares, como servir de reprodutor, por exemplo, ou prestar serviço a alguma família nobre. Em muitas sociedades, a situação de cativo não implicava tornar-se uma propriedade do senhor, o que significava que muitos deles mantinham sua vida à parte, incluindo a possibilidade de constituir família e ter outras fontes de renda. Uma prova da normalidade cultural da escravidão entre os africanos é que havia casos de pessoas que pediam pra ser escravizadas, como medida para escapar de problemas mais graves, como perseguições, miséria e fome.

É claro também que havia a escravidão por motivos menos solidários, como o sequestro de crianças como represália a um povo ou clã inimigo e a punição aos derrotados em guerra, que não raro eram obrigados a servir os vencedores. Uma situação que na verdade também ocorria no mundo greco-romano e em outras culturas da Antiguidade. Mesmo assim, os episódios de escravidão se restringiam a situações específicas espalhadas pelo continente. Jamais ocorreu como fizeram os europeus, que desenvolveram uma gigantesca estrutura de exploração de seres humanos e movimentaram uma fabulosa fonte de lucros à custa disso. Um uso ferramental de indivíduos que praticamente não passavam de atributos da terra na qual eram obrigados a servir.

Na África, não era comum que a terra fosse reconhecida como uma posse particular, porque era vista com um bem generalizado. Ao permitir legalmente o escravismo, portanto, as sociedades africanas miravam na necessidade de que as terras fossem aproveitadas, precisando, para isso, de quem as cultivasse. Isso talvez explique uma certa adaptação à rotina do cativeiro que muitos apontaram nos africanos no Brasil. E também a postura relativamente pacífica dos escravos que, mesmo sempre estando em grande número, provocaram episódios de rebeliões ou tentativas de fuga em quantidade bem reduzida, se comparado com outros países da América em que os cativos deram bem mais trabalho, como os Estados Unidos e o Haiti.

No caso dos europeus, ao contrário, uma prática cultural era tudo o que a escravidão não era. Vale lembrar que a cultura do continente nasce exatamente na interseção entre o mundo antigo, em Roma, e ascensão de uma cultura cristã. Decai o grande império que praticava largamente a escravidão e tem início justamente a referência daqueles que sofreram cruel perseguição por quase três séculos. Por isso, o cativeiro foi desaparecendo ao longo da cristandade, mesmo se tratando de um período imensamente marcado por guerras, saques e tomadas de poder à força. Para reintroduzir no século XV esse nefasto instituto os europeus tiveram, portanto, que passar por cima de mais de um milênio ao longo do qual a prática parecia definitivamente soterrada. Chega a ser irônico, dessa forma, que o discurso cristão fosse mobilizado para justificar um tamanho retrocesso nos valores humanos.

E para quem por ventura seja da opinião de que esse papel coube apenas à igreja Católica e às elites das nações empreendedoras do expansivismo comercial, convém saber que, ao longo do tempo em que perdurou a indústria da escravidão, poucas foram as vozes que apareceram para condenar a prática. O protestantismo, mesmo com seu ímpeto renovador, não se sensibilizou com o tema. Lutero chegaria inclusive a escrever e tratar com normalidade a ideia de um mundo dividido entre homens livre ou escravos. Importantes humanistas dos séculos seguintes, como Erasmo, Pascal ou Espinoza, nada reservaram em seus escritos sobre a atividade escravista, e nem a “Utopia” de Thomas Morus abriria mão de sua existência na hora de conceber o mundo perfeito. Pensadores racionalistas até começaram a desenvolver uma postura crítica sobre o instituto, mas nunca algo que figurasse como uma preocupação humanitária. John Locke, por exemplo, apontou a vileza dessa prática, mas reconheceu a sua “utilidade” para a ordem social de seu tempo. Não deixou inclusive de colocar suas economias em ações de grandes companhias que atuavam no setor negreiro.

No Brasil, em especial, toda a narrativa que através de pelo menos três séculos buscou desqualificar a raça, a cultura e o continente africano como um todo ainda deixa seus tentáculos em uma série de visões e conceitos que, agora de forma velada, continuam a funcionar como justificativa para a indiferença da sociedade brasileira diante das várias estatísticas e pesquisas, que mostram de forma inquestionável que a igualdade legal e jurídica entre as raças ainda não se expressa totalmente em todos os setores da vida nacional.

Se você gostou desse texto, deixe seu comentário, compartilhe com seus amigos e curta a página: facebook.com/arteseletras2016



Japão abre bolsas de estudo para professores





























E aí, professor! O que acha de estudar na Terra do Sol Nascente? Pois é, não é algo tão impossível assim. Pode estar mais perto do que se pensa.

O Consulado Geral do Japão está oferecendo bolsas de estudo em suas universidades a fim de realizar pesquisas voltadas para a educação escolar e aprofundamento de conhecimentos na área.

Podem se candidatar professores da educação infantil, ensinos fundamental e médio, orientadores pedagógicos, assistentes educacionais e diretores. Os cursos envolvem as áreas de administração escolar, método educacional, estudo de matérias específicas e atividades práticas.

Os interessados devem ter 34 anos completos até o dia 1º de abril de 2017, curso de nível superior ou magistério com pelo menos 5 anos na função de professor na educação básica ou na área administrativa escolar e ser fluente em língua inglesa ou japonesa.

As inscrições devem ser feitas presencialmente no Consulado Geral do Japão até o dia 24 de fevereiro ou pelos correios até o dia 21 do mesmo mês.

Os candidatos passarão por duas etapas eliminatórias. A primeira consiste em um exame escrito de línguas japonesa e inglesa, em que é exigida uma boa pontuação em pelo menos uma das duas. A maior nota prevalecerá. A segunda etapa é uma entrevista presencial.

O programa tem a duração de um ano e seis meses e oferece bolsa-auxílio, passagem aérea de ida e volta e isenção de taxas escolares. O embarque da viagem está previsto para outubro deste ano. Para saber mais informações, clique aqui.

Gostou dessa? Deixe seus comentários!

quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

Descubra Itaboraí

Cidade pequena e escondida entre Niterói e a Região dos Lagos, quase despercebida, Itaboraí tem muitas coisas legais para se fazer. Não é só um lugar de passagem, e você pode se surpreender com as belezas naturais não muito visitadas. Por este motivo, a cidade é novo destino do Benefício Boa Viagem.

Dona de um passado histórico marcante, a cidade se destaca como uma opção de lazer. Não é à toa que era onde Dom Pedro II fazia algumas visitas para assistir a peças de teatro.

Atrações ecológicas

Parque Paleontológico de São José de Itaboraí

O principal objetivo do parque é a recuperação e preservação da área da Bacia de São José de Itaboraí. Nas escavações iniciadas no fim da década de 1970, foram encontrados artefatos confeccionados pelo homem primitivo que teria habitado o local mais alto da cidade, conhecido como Morro dos Diamantes. O lugar é um museu a céu aberto, com exposições de réplicas em tamanho natural dos fósseis encontrados na região.

Reserva Ecológica do Manguezal

Um local perfeito para o visitante navegar e apreciar mais de 170 espécies de aves catalogadas. Um passeio muito legal!

Fonte Carioca

É uma fonte pública erguida por ordem da Câmara da Vila de São João de Itaboraí, entre 1845 e 1858, à margem da estrada geral, junto à encosta.

Segundo uma lenda local, existia um túnel ligando a fonte à Igreja Matriz de São João Batista. A tradição tem como fundamento um olho d'água que era utilizado pelos tropeiros no século XVII.

Atrações culturais

Casa de Cultura Heloisa Alberto Torres

O sobrado do século XVIII era a antiga residência da família Alberto Torres e foi doado ao Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) no final da década de 1970.

A instituição possui salas de exposição e pesquisas, além de uma biblioteca, formada em sua maioria pelo acervo que inclui parte dos estudos da antropóloga Heloisa Alberto Torres. A casa também guarda livros raros e as correspondências trocadas com o antropólogo francês Claude Lévi-Strauss.
Com certeza, vale a pena visitar.

Ruínas do Convento de São Boaventura

As ruínas estão cercadas de belezas naturais, que se destacam no horizonte. No passado, ali era a antiga Vila de Santo Antônio de Sá. Curiosamente, apresenta o mesmo estilo arquitetônico do Convento de Santo Antônio do Rio de Janeiro, ambos da ordem franciscana. Em 1874, iniciou-se a construção da igreja da Ordem Terceira. De 1829 a 1840, uma epidemia dizimou a população da vila e o convento acabou sendo abandonado. Posteriormente as ruínas foram tombadas pelo Iphan.

Teatro Municipal João Caetano

Inaugurado em 1827, o Teatro João Caetano viveu seu auge no século XIX. Entre os frequentadores da época, destaca-se a princesa Isabel. Após décadas de abandono, quando chegou a ficar em ruínas, foi reconstruído um século e meio depois de fundado.
Com 200 lugares, é o único teatro de Itaboraí. Shows e apresentações estão entre as suas principais atrações, além de oferecer cursos, como balé, violão, bateria e capoeira.

Palacete do Visconde de Itaboraí

É um típico palacete do século XVIII, tombado pelo Iphan em 1964. Desapropriado da prefeitura em 1966, serviu como casa de caridade até ser destruído por um incêndio. Em 2000, após uma série de reformas, passou a ser sede da prefeitura de Itaboraí.

Gastronomia


A cidade tem uma ampla variedade de pratos. Restaurantes servem desde comida caseira até culinária internacional. O que chama atenção é o Beer Fest Itaboraí, um evento gratuito que reúne mais de 15 food trucks que oferecem diversas opções gastronômicas, incluindo doces e sanduíches. Há também cervejas artesanais.

terça-feira, 24 de janeiro de 2017

Ainda tem mais nas entrelinhas e além das linhas?





























No texto de hoje, serão apresentados outros tipos de preconceito e discriminação, relatos sobre como esses julgamentos étnico-raciais são expressos e de que forma pais e professores podem trabalhar em casa e na escola para ajudar as crianças, os jovens e os adultos a pensar um mundo mais humanitário e solidário, em que todos convivam em harmonia e se acolham.

Alguns tipos de preconceito e discriminação

O preconceito e a discriminação estão para além da cor da pele. Observe nas imagens a seguir alguns exemplos:


Xenofobia é um tipo de preconceito caracterizado pela aversão, hostilidade, repúdio ou ódio aos estrangeiros, que pode estar fundamentado em diversos fatores históricos, culturais, religiosos, dentre outros.
Como exemplo, a xenofobia ou racismo emergente nos países europeus contra os imigrantes africanos e árabes.


Skinheads (cabeças raspadas) – movimento formado por jovens de origem operária que surgiu no Reino Unido, ligado ao neonazismo. Há inúmeras derivações, e quem tiver interesse poderá pesquisar e aprofundar o conhecimento.

Antissemitismo é o preconceito ou a hostilidade contra judeus baseados em ódio contra seu histórico étnico, cultural e/ou religioso. Na Segunda Guerra, esse movimento liquidou milhões de judeus e incluiu também ciganos.



Apartheid (1948) - O termo “apartheid” se refere a uma política racial implantada na África do Sul. De acordo com esse regime, a minoria branca, os únicos com direito a voto, detinha todo o poder político e econômico no país, enquanto à imensa maioria negra restava a obrigação de obedecer rigorosamente à legislação separatista.
Os exemplos apresentados servem para demonstrar que o preconceito e a discriminação existem em diferentes formatos e com motivações variadas, porém é certo que a falta de conhecimento genuíno sobre o tema fortalece o preconceito.

O foco de nossa discussão hoje é a problemática étnico-racial, a compreensão de como se expressa na prática e os reflexos disso no nosso cotidiano.

“Se um negro e um judeu se apresentarem na porta de um local onde ambos são indesejados, o judeu poderá entrar, caso não haja suspeita de que ele é judeu, mas o negro será barrado na porta, por causa da geografia de seu corpo”. Exemplo dado pelo filósofo Jean-Paul Sartre, mencionado pelo professor doutor Kabengele Munanga durante uma aula a que assisti.

Relatos sobre como o preconceito e a discriminação étnico-raciais são expressos

Joca (nome fictício adotado para resguardar a identidade da criança), 10 anos, brasileiro
Apresentei ao Joca a imagem de duas crianças, Claudia (negra) e Marta (branca e de olhos claros). Perguntei: Qual é a mais bonita?; Qual é a mais inteligente?; Qual é a mais bondosa? Fiz uma pergunta por vez, dando a ele a oportunidade de refletir.
Para as três perguntas a resposta foi a mesma: a branca.
Então perguntei o porquê de suas respostas, e ele disse: “Eu acho que o ‘preto’ é sempre do mal.”

Elza Soares, 85, cantora
“Eu era uma criança, não tinha nem dez anos, mas já ajudava a minha mãe, que lavava roupa para fora. Como era comum naquela época (início dos anos 1940), não podíamos usar o elevador social dos prédios, só o de serviço. Uma coisa estúpida. Mas naquele dia, que eu nunca esqueci, o elevador de serviço estava dando defeito. Com uma trouxa de roupa nos braços, minha mãe não viu que a cabine estava em outro andar quando abriu a porta e se esborrachou no fosso. Foi uma cena desumana. O porteiro não avisou sobre o defeito e tampouco nos deixou usar o elevador social. Empregados, quase sempre negros, não podiam. Minha mãe se machucou bastante, mas mesmo assim ninguém foi solidário com ela. Teve que sair pelos fundos, para não incomodar os moradores. Só muitos anos depois, já adulta, é que consegui processar essa imagem.”

Frei David Raimundo dos Santos, 63 anos, frade, fundador da ONG Educafro
“Foi quando eu era seminarista no interior de São Paulo. Era 13 de maio de 1966 e os meus colegas de seminário, quase todos descendentes de italianos ou alemães, resolveram homenagear o dia da abolição dos escravos com um almoço. Nós, os poucos negros ou pardos da turma, fomos convidados a sentar na mesa central do refeitório, decorada com as palavras ‘Navio Negreiro’. Quando vi aquilo me recusei e sentei numa mesa lateral, com todos os outros colegas. Pois os organizadores daquilo me pegaram à força, me arrastaram e me fizeram sentar na marra junto aos outros negros, no que considerei uma ofensa gravíssima. Arrumei as malas para ir embora, mas fui convencido a ficar pelo padre do local. Ele me recomendou que deixasse o ódio passar e que tomasse aquele episódio como bandeira de luta para um mundo melhor. E, de fato, aquele episódio alterou radicalmente a direção da minha vida. Foi a partir de então que tirei a foto do meu pai, que era negro, do fundo da minha mala e coloquei-a ao lado da fotografia da minha mãe, branca, com os meus objetos pessoais.”

De que forma os pais e professores podem trabalhar em casa e na sala de aula?
Pais e professores precisam, em primeiro lugar, revisar os próprios conceitos, compreender se, até mesmo de forma inconsciente, há “pré”-conceito arraigado. Se a resposta para isso for afirmativa, é preciso buscar mais informações sobre o tema e criar uma boa base para situar seus conceitos e seu conhecimento. E é exatamente nesse ponto que uma teoria razoável precisa ser apresentada para que haja, inclusive, coerência ao orientar os alunos quanto a essa questão a ser desmistificada. Que teoria indicamos para explicar a diversidade humana para crianças, jovens e adultos?
A resposta foi dada pelo professor doutor Kabengele Munanga, que indica a teoria da seleção natural (Darwin). Ela explica que os organismos vivos evoluíram gradativamente a partir de uma origem comum e se diversificaram no tempo e no espaço, adaptando-se aos meios ambientes hostis, que também estavam em transformação. Assim, as diversificações e sobrevivência da espécie ocorreram influenciadas por fatores genéticos (menor percentual), mas também e muito fortemente pelas diferentes temperaturas, umidade, solo, radiação, pressão, todos os fatores ambientais, incluindo também outros aspectos, tais como: predadores da espécie, fontes de alimentos e por aí a fora.
Estudos e pesquisas confirmam que os primeiros seres humanos evoluíram em ambientes com muita concentração de raios UV na África Equatorial, isso há dois milhões de anos. Esses humanos tinham pele rica em melanina, cujas principais funções são a pigmentação e a proteção contra a radiação solar. Deles somos todos herdeiros, sendo essa nossa origem comum.
Acontece que migramos “n” vezes, e alguns de nossos antepassados viveram em lugares cujas condições ambientais eram mais frias (com menor concentração de UV), diferente do clima na África Equatorial, portanto não potencializaram a melanina. Como consequência (de forma simplificada), perderam um tanto da concentração da pigmentação.
Assim, sem classificações complicadas e preconceituosas, compreendemos e explicamos a diversidade étnico-racial. Compreendendo que não há inferioridade ou superioridade entre as etnias, devemos trabalhar com as crianças, os jovens e os adultos, em casa ou na escola, que o respeito e o acolhimento entre as pessoas marca uma qualidade fundamental entre os seres humanos, e é esse valor que nos aproxima, nos torna humanitários e dignos desse presente que é viver.
Diga não à discriminação étnico-racial e a qualquer outro tipo de discriminação. Pais, professores, educadores e cidadãos, precisamos lutar contra o que nos foi incutido, contra aquilo que está além das linhas.

* Depoimentos de Elza Soares e de Frei David disponíveis em: www.educafro.org.br/site/relatos-de-racismo.


segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Inclusão de deficientes visuais no Facebook através da hashtag #PraCegoVer

Você já deve ter visto a hashtag #PraCegoVer em descrições de imagens no Facebook, mas talvez não tenha entendido o porquê desta marcação. Basicamente é um projeto que dissemina a cultura da acessibilidade nas redes sociais, com foco em pessoas com deficiência visual. Em outras palavras, a página que usar essa hashtag e a descrição do que contém na foto permitirá que um deficiente visual saiba o que está inserido na imagem do post.

A idealizadora do projeto, Patrícia Braille, é professora especialista em educação inclusiva. Em seus blogs e livros ela sempre descrevia as imagens e, ao perceber a crescente utilização do Facebook, viu nele uma grande ferramenta de inclusão.

A educadora explica que, apesar do nome, a cegueira mencionada na hashtag é de forma metafórica, se referindo às pessoas que não enxergam como a acessibilidade é possível, sem a necessidade de grandes investimentos. “A mudança pode partir através de uma pequena ação do indivíduo, que tem um efeito multiplicador muito importante”, completa Patrícia.


Como usar essa hashtag?

Utilizar esta ferramenta é muito simples. Na publicação, após colocar a legenda normalmente, o usuário adiciona a #PraCegoVer e, em seguida, faz uma descrição da imagem. Por exemplo, primeiro escreve do que se trata, se é foto, desenho, charge, tirinha, ilustração etc.

Depois é bom especificar se ela tem algum efeito exclusivo de cor, preto e branco, sépia, cinza, entre outros. Se a foto for colorida, não é preciso adicionar na descrição, uma vez que o usuário vai especificar as cores de cada item que compõe a imagem. Para finalizar é só descrever o que contém na foto seguindo a sequência da escrita e leitura ocidental, isto é, da esquerda para a direita e de cima para baixo. Veja abaixo alguns exemplos:



Para conhecer melhor o projeto, acesse a página da Patrícia (www.facebook.com/PraCegoVer).

A partir de agora, a Appai também começará a inserir esse recurso em alguns posts. Fique ligado e ajude a disseminar a cultura da acessibilidade nas redes sociais.

Fontes: Blog da Audiodescrição e Estudo Prático.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

A força histórica de São Sebastião

Primeiro Martírio de São Sebastião, por Benedito Calixto
Já houve quem dissesse que um santo é uma espécie de ser de duas histórias. Uma feita por ele mesmo, durante sua vida, e outra, após a sua morte, construída pela fé dos crentes. São Sebastião, o militar de Narbonne, martirizado no século III da cristandade, é um grande exemplo. A combinação de mártir e combatente parece ter se revestido de um valor muito especial no olhar dos seus devotos, principalmente na superimaginativa mente dos homens medievais, responsáveis pela criação de grandes simbioses entre o profano e o sagrado.

Estes o qualificaram por supostamente interceder na cura de doenças e moléstias, como ocorreria principalmente em momentos graves como o da peste negra, no século XV. Dentro disso, cabe destacar a relação que foi construída entre São Sebastião e as chamadas Lendas Carolíngias, conjunto de contos cavalheirescos que em princípio buscam retratar os feitos bélicos de Carlos Magno, em sua saga de unificar a Europa Ocidental sob um único reino cristão. No contexto da Idade Média, porém, esses relatos deixam de ser meras narrativas de acontecimentos passados para alcançar a condição de contos fantásticos, regados aos mais diversos aspectos místicos e misteriosos, verdadeiras pérolas da literatura.

Aqui no Brasil, durante a guerra do Contestado, por exemplo, os contos Carolíngios já eram de conhecimento popular e não foi difícil que toda a crença daqueles tempos associasse os Pares de França (a famosa guarda pessoal do rei Carlos Magno) ao exército de São Sebastião, todos reunidos e organizados para lutar pela justiça e pelo restabelecimento da paz naquela região do sul do Brasil. Levado àquele contexto de espera messiânica através do mito português do retorno do homônimo Dom Sebastião, o santo também seria relacionado à dinastia fundada pelo “Pai da Europa moderna” porque partilhava com ela dos mesmos dons de cura.

Certa tradição prega que aos reis da dinastia anterior (os Merovíngios) eram concedidos excepcionais poderes curativos pois supunha-se que esses monarcas eram descendentes de uma linhagem que remontava ao próprio Jesus. Carlos Magno depõe os reis dessa dinastia, mas a fé em seus poderes permaneceria no ideário popular, agora transferida para os Carolíngios apesar de estes não estimularem essa crença e nem praticarem atos nesse sentido. Dessa forma, o beato José Maria, figura importante do conflito do Contestado, ainda que de modo totalmente inconsciente, não teria feito outra coisa senão promover, nas primeiras décadas do século XX, um retorno a um mito medieval muito antigo, conseguindo com isso mobilizar forças para as lutas que se estabeleceriam no sul do continente americano, ainda que o seu objetivo fosse apenas ser um instrumento da justiça de Deus e não aparecer como um revolucionário rebelde.

E ao se falar da presença de São Sebastião na cultura brasileira não se poderia jamais deixar de lado a relação do santo com a cidade do Rio de Janeiro. Essa história se inicia já no século XVI quando o antigo militar foi “visto” em plena luta dos portugueses contra os franceses aliados aos índios tamoio, na Batalha das Canoas em 1566. Pouco antes disso, em outro conflito travado nas águas da baía de Guanabara, os portugueses teriam conseguido escapar de forma inacreditável de um assalto de índios inimigos. A situação era tão dramática, que não ter sucumbido foi considerado um grande milagre e, naturalmente, atribuído a São Sebastião. O acontecimento foi muito comentado pelas tropas portuguesas ao ponto de ser aumentado e constituir mais uma espetacular lenda ligada às suas supostas virtudes guerreiras.

Para aumentar ainda mais essa ligação da então futura capital do Brasil com o santo, a batalha final que frustrou os planos de estabelecimento da França Antártica, expulsando definitivamente os invasores, ocorreu num 20 de janeiro, dia a ele consagrado. Completando o quadro, o fundador da cidade, Estácio de Sá, seria morto em combate, do mesmo modo que o militar romano, só que com uma flecha lhe atingindo o rosto. Ironicamente, ao fundar pouco tempo antes a cidade em homenagem ao santo, Estácio estabelecera o brasão con­tendo as três flechas cruzadas, que até hoje está presente na insígnia da Cidade Maravilhosa.

Com a imensa popularidade na cultura brasileira, e com o caráter guerreiro e destemido de sua história, São Sebastião obviamente não deixaria de ter importância também para as manifestações da religiosidade indígena e afro-brasileira. O sincretismo que vai se construir em torno da figura do santo é bastante sin­gular por envolver simbologias religiosas das três raças que em tese compõem a cultura brasileira. Primeiro porque é associado a Oxóssi, o orixá do panteão iorubá que se notabiliza pelos seus atributos de caçador, sendo considerado o senhor dos animais mais temidos do ambiente natural africano, como os elefantes e rinocerontes. Como seus instrumentos de caça são o arco e a flecha, o sincretismo vai relacioná-lo ao martírio de São Sebastião, que resistiu aos ataques dessa mesma arma da qual Oxóssi é mestre.

Por outro lado, a habilidade de caçar nas savanas foi adaptada na vinda da crença desse orixá para o Brasil, passando ele a ser agora senhor das matas tropicais. Nessa nova configuração, Oxóssi se identifica com a cultura indígena brasileira e, de alguma forma, se “cabocliza”, passando a figurar também nas crenças nas divindades dos nativos da América. Torna-se assim o protetor de todos esses habitantes das florestas, deixando de ser o terror das caças e passando a ser o seu grande protetor.

Em seu novo “habitat” Oxóssi também é relacionado ao domínio de outros habitantes das matas além dos animais, como as folhas e ervas, base dos artigos terapêuticos nas culturas indígena e cabocla. A Oxóssi então se recorre na cultura popular para as curas e tratamentos a partir da força dos vegetais presentes nas matas. A fé em São Sebastião, que também é da alçada popular pela via da religião dos colonizadores europeus, em nada se conflita com a crença nos atributos terapêuticos de Oxóssi, haja vista que ele é o santo das pestes, ao qual se recorre nas grandes epidemias e para as mais diferentes enfermidades.

A devoção a São Sebastião é um grande exemplo de como a trajetória de uma personalidade através dos tempos pode receber novos elementos e responder a outras configurações culturais. De uma história carente de maiores comprovações historiográficas de um militar do século III depois de Cristo pode emergir uma série de novas motivações que culminam em eventos que são efetivamente história. A fertilidade criativa e dinâmica do mundo da Idade Média do ocidente cristão encontra acomodação no misticismo do mundo afro-indígena brasileiro e adapta um personagem a um novo contexto, que serve a novos anseios humanos. É quando o mito produz história, e a história garante a permanência do mito.

Se você gostou desse texto, deixe seu comentário, compartilhe com seus amigos e curta a página: facebook.com/arteseletras2016


terça-feira, 17 de janeiro de 2017

O que há ainda para além das linhas em 2017? - Compreender para combater o “PRÉ”-conceito étnico-racial

Esse case verídico serve para ilustrar que o preconceito e a discriminação, presentes no nosso dia a dia, por vezes nos passam despercebidos, mas a questão é séria e precisa de um olhar mais profundo.

Inspirada e fundamentada nas ideias do consagrado professor doutor Kabengele Munanga, especialista em racismo, identidade, identidade negra, África e Brasil, a quem tive o prazer de escutar, foi possível compreender que a discriminação nasce da PERCEPÇÃO DAS DIFERENÇAS entre si mesmo e os outros, entre os membros do próprio grupo e aqueles dos outros grupos. É a partir dessas diferenças que se formam os preconceitos e as discriminações, e as ideologias delas decorrentes.

A sociedade é organizada em classes sociais, formada por burgueses, a classe média e os pobres. Essas classes são cercadas por preconceitos, a ideia de superioridade ou de inferioridade, que torna vítimas os considerados inferiores. Não apenas as classes, mas as diferentes formas de preconceito levam a vários modos de discriminação, desde religião, gênero, profissão, idade, etnia, cultura, nacionalidade e tantas outras formas.

RAÇA E RACISMO: como nasce a ideia de raça?
Há pessoas que concentram maior número de melanina, por isso têm pele, olhos e cabelos mais escuros, enquanto aquelas com menos quantidade dessa substância apresentam cabelos, pele e olhos mais claros. A melanina, que serve para manter a sobrevivência do corpo humano, apresenta uma coloração marrom, e sua principal função é proteger o DNA contra a ação nociva da radiação emitida pelo sol. A raça nasceu dessa relação com a cor da pele.

Analisamos, por meio da história da humanidade, que, com as descobertas a partir do século XV, os navegadores europeus, espanhóis, portugueses e outros entraram em contato com os povos ameríndios, africanos, aborígenes da Oceania e constataram diferenças físicas e culturais que os fizeram até mesmo duvidar se esses nativos eram pessoas ou “feras”, animais irracionais. Os colonizadores não só escravizaram os negros e índios como achavam que apenas os humanizariam se os convertessem ao Cristianismo. Essa situação perdurou até o século XVII. No século XVIII, os Iluministas colocam em discussão, agora não mais à luz da religião, mas sim da razão, o conceito de RAÇA. E os estudos da raça se ampliam até o século XX, quando foram definidas não só as características genéticas e a morfologia das raças como também os marcadores genéticos encontrados em componentes do sangue.

Porém, no fim do século XX, aconteceu um fato curioso. Estudos mostraram que um indivíduo A, da raça negra, poderia ser mais próximo geneticamente do indivíduo B, da raça branca ou amarela, do que de outro indivíduo C, da raça negra. Dessa forma, foi concluído que essa classificação da humanidade em raças não era operante, pois partia de critérios que não se diferenciavam cientificamente. Foi aí, no século XX, que abandonaram o conceito de raça, pois chegaram à conclusão de que não havia como classificar a diversidade humana em raças fixas. Até aqui, tudo estava bem, mas os cientistas anteriores ao século XX cometeram um erro grave que ainda hoje pesa nas relações humanas. Eles classificaram as raças, hierarquizando-as em raças superiores e inferiores, e dessa classificação e hierarquização nasceu o chamado Determinismo biológico.

Como exemplo da aplicação do determinismo biológico poderiam surgir as seguintes afirmações: todo americano é inteligente; todo português é burro; todo africano é negro; e todo europeu é branco. O que definitivamente não é verdade.

O mais grave é que essa corrente determinou a superioridade e inferioridade dos povos e etnias com base nas diferenças biológicas contidas no DNA.

Dessa forma, os que têm pele mais clara foram rotulados como os mais bonitos, mais inteligentes, com características morais superiores e de cultura superior comparativamente aos que não são brancos. E aí se mostra o racismo, que saiu dos livros e tomou conta do imaginário social coletivo, infelizmente.

Na próxima coluna, vamos trazer relatos sobre como o preconceito e a discriminação étnico-raciais são expressos e de que forma os pais e professores podem trabalhar em casa e na sala de aula para ajudar as crianças, os jovens e os adultos a pensar um mundo mais humanitário e solidário, em que todos convivam em harmonia e se acolham.
Até lá!


O conceito de determinismo biológico afirma que as características físicas e psicológicas do ser humano são determinadas por sua raça, nacionalidade ou por qualquer outro grupo específico ao qual ele pertença.” (Fonte: http://www.clickescolar.com.br/determinismo-biologico.htm).